"O navio do Governo está a naufragar, surge um escândalo, ou mesmo mais de um escândalo, por dia, é insuportável, mas a França não pode afundar-se com ele". Ségolène Royal
, ex-candidata socialista às presidenciais, fala aos jornalistas com ar grave e apela à mobilização dos franceses contra o presidente Sarkozy
e o seu Governo.
Revoltada, Ségolène apoia as críticas da Comissão da União Europeia contra as expulsões coletivas de ciganos, denuncia falhas da justiça e da polícia, bem como as ligações do poder "às pessoas de dinheiro" a propósito de um escândalo político e financeiro envolvendo o ministro do Trabalho, Eric Woerth, o chefe do Estado, Nicolas Sarkozy e a herdeira do império L'Oréal, Liliane Bettencourt. Por isso, diz Ségolène, "apelo à revolta e a manifestações dos franceses, designadamente contra o projeto injusto da mudança da idade de partida para a reforma" de 60 para 62 anos.
Ségolène fala com nervosismo, um pouco à imagem de muitos dos seus compatriotas que, visivelmente, começam a achar que Sarkozy e o Governo estão a envolver o país em demasiadas complicações.
Sarkozy sugere a Reding que receba os ciganos no Luxemburgo
Os deputados socialistas também estão particularmente nervosos, bem como os comunistas e os ecologistas. Hoje, manifestaram-se nas salas e corredores da Assembleia Nacional (NA) chamando "fascistas" e "golpistas" aos seus colegas da maioria e pedindo a demissão de Bernard Accoyer, presidente da AN, por violação dos direitos da oposição.
Os parlamentares de esquerda contestavam a decisão de Accoyer de, em nome de uma alegada tentativa de bloqueio do debate da parte da oposição, suspender a sessão sobre o projecto de revisão do sistema das pensões de reforma sem dar a palavra a todos os deputados inscritos.
O ambiente na AN chegou cenas de arruaça e a uma tensão extrema com insultos recíprocos dos mais baixos, designadamente entre o ministro do Trabalho Eric Woerth, e alguns deputados socialistas. Woerth encontra-se sem credibilidade política para defender o projeto do Governo por ser a figura central do escândalo Bettencourt que indicia financiamento ilegal do seu partido e das campanhas eleitorais de Sarkozy em troca de benefícios fiscais para a herdeira de L'Oréal.
Os socialistas pediram a demissão de Accoyer, pondo em causa a votação solene do projeto de revisão do sistema das reformas previsto para esta tarde.
A confusão entendeu-se ao exterior, à porta da Assembleia onde, desde o fim da manhã, se concentraram centenas de manifestantes pedindo aos deputados para não participarem na votação do projeto. Ao início da tarde, a tensão mantinha-se tanto no interior como no exterior da Assembleia francesa.
Entretanto, a propósito da críticas da Comissária luxemburguesa da justiça, Viviane Reding, sobre as expulsões de ciganos romas, o Presidente Sarkozy sugeriu que ela os receba no Luxemburgo. O chefe do Estado francês fez estas declarações durante um almoço, no Eliseu, com senadores franceses e foram reveladas à imprensa por um dos seus convidados, o senador Bruno Sido, da UMP, o partido de Sarkozy.