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O dia em que o passado voltou para assombrar Gerry Adams

Gerry Adams no funeral do seu companheiro de luta, Martin McGuiness que morreu em 2017

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Nome incontornável da resistência católica durante e após os anos sangrentos do IRA, o mais importante líder do Sinn Féin e escritor respeitado Gerry Adams teve, em abril de 2014, um susto que o levou de volta ao centro dos "Troubles". Foi acusado de ter autorizado a execução de uma mãe que deixou dez filhos órfãos. Porém, a amnistia, essencial ao processo de paz que hoje faz 20 anos, prevaleceu. Na altura em que as suspeitas reemergiram, o Expresso falou com esse que foi um dos mais importantes nomes da reconciliação. Voltamos a publicar a história dessa mãe e o perfil de Adams (artigo publicado originalmente em maio de 2014)

Ana França

Ana França

Jornalista

Às oito da noite do último dia do mês de abril de 2014, Gerry Adams entrou pelo seu pé na esquadra da polícia de Antrim, em Belfast, para participar numa reunião de rotina previamente marcada com as autoridades. Já não saiu. Foi detido a propósito do seu alegado envolvimento no rapto e assassinato de Jean McConville, norte-irlandesa de 37 anos que deixou dez filhos órfãos: dez irmãos espalhados por dez casas de acolhimento diferentes, que se fizeram homens e mulheres enquanto estranhos uns dos outros.

O misterioso líder do partido republicano Sinn Féin (“Nós”, ou "Nós Mesmos" traduzindo), e figura histórica da resistência republicana nas lutas fratricidas na Irlanda do Norte, foi interrogado durante quatro dias sem que a polícia lhe conseguisse imputar crime algum. Circunstâncias especiais, alegam as autoridades, já que manter um homem preso ao abrigo do Ato Terrorista não acontece todos os dias – e muito mais raro é quando o organismo terrorista aqui em causa, o IRA - Exército Republicano Irlandês - está oficialmente desativado, e o preso é hoje um político com pergaminhos na orquestração dos suados acordos de paz da Sexta Feira Santa de 1998.Uma data que hoje celebra o 20º aniversário.

Jean McConville foi assassinada há mais de 40 anos, em 1972, por suspeita de estar a fornecer informações ao exército britânico, mas foi só com as recentes declarações de Ivor Bell, ex-IRA, que Gerry Adams voltou a ser sugado para o olho do furacão. Bell aceitou ser entrevistado para um projeto de recolha da história oral das lutas religiosas norte-irlandesas conduzido pela Universidade de Boston, nos Estados Unidos, onde terá confessado o seu envolvimento e implicado Adams no crime. Nessa mesma série de entrevistas, Brendan Hughes e Dolours Price, igualmente ex-membros do IRA mas já falecidos, terão também referido a ligação de Gerry Adams à morte de McConville.

De ativista tido por muitos como violento a político pacifista e escritor profícuo passaram alguns anos de prisão e um grande esforço mediático mas a biografia de Adams começa antes de ele mesmo: o seu apelido há muito que vinha trilhando um caminho de revolta. Gerald “Gerry” Adams nasceu a 6 de outubro de 1948 no seio de uma família de inflamados católicos cujas humilhações às mãos dos protestantes apanharam Adams bem na altura em que ele começava a formar a sua personalidade. "Não fiz parte do IRA mas nunca me irei dissociar dos ideais que o IRA defendeu. Não foi apenas por causa da minha família que escolhi ser activista, sempre quis lutar por aquilo que considero um direito básico: igualdade", disse ao Expresso por email.

Além dos testemunhos de vários ex-IRA, há igualmente documentos como fotografias e cartas recolhidos por jornalistas e historiadores que parecem colocar Adams em várias reuniões de cariz militar do IRA. Mas é com a investigação do jornalista Ed Maloney no seu livro "A verdadeira história do IRA" que chegamos até bem perto da porta da família McConville. Em 1971, um ano antes do desaparecimento do grupo de 16 pessoas do qual Jean McConville fazia parte, Adams terá criado "Os Quatro Desconhecidos", uma brigada de quatro pessoas que teriam apenas um alvo: os supostos informadores. Evelyn Gilroy, ex-IRA, confirmou isso mesmo quando disse nas entrevistas de Boston que apenas Adams tinha o nível de autoridade em toda a área de Belfast para autorizar algo tão sério.

Ao Expresso Adams mantém que está "inocente nas acusações de rapto, assassinato e de esconder o corpo de Jean McConville" acrescentando ainda que "entende a animosidade da família e da oposição" mas isso não quer dizer que a sua prisão tenha sido justificada: "nenhuma prova, nem nova nem antiga, do meu envolvimento neste caso me foi apresentada durante todo o interrogatório", disse.

Líder partidário invencível

Granjeando alguma fama com artigos e discursos revolucionários durante os protestos católicos de 1969, hoje considerados o embrião de todo o conflito, Adams torna-se uma estrela no Sinn Féin e é eleito presidente do partido em 1983. Adams foi o primeiro deputado pelo Sinn Féin ao parlamento britânico mas apesar do momento histórico, e mostrando a sua fibra republicana, Adams recusou sempre a cadeira em Londres dado o tradicional juramento de lealdade à monarquia com que os deputados em Westminster iniciam o ano político.

Do seu papel no processo de paz não há muitos pormenores. Sabe-se que foi libertado da prisão para fazer parte das primeiras reuniões clandestinas entre republicanos e o governo britânico em 1972 e que passou boa parte da década de 70 dentro e fora de várias prisões. Em 1978 emergiu finalmente um homem livre e profundamente dedicado à via diplomática.

Em 1984 foi gravemente ferido quando a UDA - Ulster Defence Association, o braço armado dos protestantes - disparou 20 balas contra o carro onde seguia. As ameaças de morte continuaram durante os anos 90. Em 2009, o auto-intitulado IRA Verdadeiro voltou a matar dois soldados britânicos e a ameaçar Adams de ter traído os ideais do IRA. Em 2014 a policia foi a casa dele avisar a família de que poderiam estar em perigo. "Não é a primeira vez que eu e outros membros do meu partido somos alvo de ameaças de morte, há muitos elementos opostos ao processo de paz - tanto unionistas como os chamados republicanos dissentes mas estou comprometido com o processo de paz e isso não nos vai afectar", garantiu.

Os jornalistas que acompanharam os os anos de luta e entrevistaram Adams não têm duvidas da sua frieza nem do seu casamento para a vida, como bom católico, com os ideais do IRA. Jon Snow, veterano jornalista britânico, hoje na ITV, disse ao Expresso que durante todos os anos em que cobriu a violência na Irlanda no Norte nunca conheceu um homem “tão compenetrado, tão cegamente dedicado a uma causa, nem nenhum outro que tivesse o poder de mover tanta gente na mesma direção”.

Mas não é raro um homem intransigente conter em si, simultaneamente, um grande carisma; até porque a intransigência, quando é para com a injustiça, torna-se nobre. E foi isso que os católicos viram, e muitos ainda veem, em Gerry Adams. “É um homem misterioso mas como um grande carisma, não tolera dissidências e talvez por isso a sua liderança tenha permanecido inquestionável durante tanto tempo, tal como as suas açōes militares”, diz Snow.

No contacto com Adams ele preferiu não responder a estas impressões remetendo-nos de para um artigo que escreveu no diário britânico Guardian onde defende mais uma vez a sua inocência e o seu apoio à via pacífica de resolução de conflitos com provas dadas.

Protestos e acusações voltam aos jornais

Em Belfast, que continua dividida, ainda se murais com a cara de Gerry Adams e as palavras “Peacemaker” escritas por baixo. Muitos apoiantes do Sinn Fién estão revoltados contra esta prisão que consideram um ataque pessoal por parte da polícia – conotada com os unionistas do Partido Democrático Unionista, actualmente no governo em coligação com o Sinn Fien - com a intenção de denegrir a imagem de Adams à porta das eleições europeias. O próprio Adams disse no início da semana que tudo o que os seus detratores conseguiram foi "galvanizar" as massas que apoiam o Sinn Féin. Adams confia no seu eleitorado: "Não sei se - nem como - esta situação poderá afetar o resultado das eleições europeias mas tenho a certeza que os cidadãos são mais inteligentes do que aquilo que a oposição pensa", disse.

Durante a sua detenção, membros do Sinn Féin avisaram que, se a polícia prosseguisse com as acusações, o partido poderia retirar o seu apoio às forças policiais – condição sin qua non estabelecida pelos protestantes para assinarem os acordos da Sexta Feira Santa de 1998. Se a polícia deixa de ser vista como um organismo neutro vai ser difícil manter a confiança de ambos as fações nas autoridades. Do outro lado, o primeiro ministro Peter Robinson, líder do DUP, condenou a “chantagem desprezível” que o Sinn Féin está fazer sobre a policia.

Sobre a possibilidade de que a sua detenção possa ter repercussões na paz da Irlanda do Norte, Adams acredita que a calma vai ser mantida mas vai dizendo que "é claro que há membros das autoridades e classe política britânica que se opõem ao processo de paz e andam a tentar encontrar forma de o subverter".

(Gerry Adams foi ilibado a 4 de março de 2014)