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Sistema de tráfego aéreo não permite aumento de voos

A propósito das falhas agora denunciadas no sistema de controlo de tráfego aéreo de Lisboa, republicamos um trabalho de fevereiro deste ano onde já se noticiava que o dispositivo estava no limite. A Pista do Montijo só poderá ser utilizada se for comprado equipamento novo

Os aviões que descolam, aterram ou sobrevoam a área de Lisboa são monitorizados por um sistema de controlo de tráfego que está no limite da capacidade, alertam os profissionais do sector. Para receber mais movimentos na região, mesmo sem ter o Montijo aberto à aviação comercial, é preciso comprar um sistema totalmente novo. O custo do equipamento ainda é segredo e demorará um a dois anos até estar 'no ar'.
O esgotamento do sistema operado pelos controladores aéreos na capital já foi reportado várias vezes ao Governo e sem estar solucionado não vai ser possível ter aviões civis a utilizarem a pista, agora militar, na outra margem do Tejo. "O sistema está como o aeroporto: atingimos um número de movimentos (40 por hora durante um máximo de duas horas e reduzindo depois para 36 movimentos por hora para compensar os atrasos que surgem) que não dá para crescer muito mais e que não tem capacidade para os 72 movimentos previstos com a solução Portela+1", avisa o presidente da Associação Portuguesa dos Controladores de Tráfego Aéreo (APCTA), Sérgio Capela.
O representante dos profissionais da navegação aérea explica que "o atual sistema dá a resposta necessária neste momento, mas já está a trabalhar com tráfego que apenas deveria existir daqui a quatro anos. Só em janeiro registou-se um crescimento de 16%".
As limitações nas ferramentas para o controlo das aeronaves são confirmadas pela própria NAV, a empresa responsável pelo sector.
Ao Expresso, os responsáveis da NAV salientam que "o atual sistema ATM [Air Traffic Management] operado pela NAV no Centro de Controlo de Tráfego Aéreo de Lisboa responde às atuais necessidades do tráfego", mas "o enorme aumento dos volumes de tráfego que se tem verificado nos últimos anos em Portugal, muito acima da média europeia e de todas as previsões, tem contribuído para acentuar esta necessidade de substituição do sistema ATM". E a decisão não pode esperar: "É uma matéria que constitui uma das principais, senão a principal prioridade da empresa para a sua operação na Região de Informação de Voo [FIR] de Lisboa." O sistema em utilização é dos mais antigos na Europa. Data de 1986 e teve uma renovação em 2001. A NAV garante que "está em permanente desenvolvimento para continuar a satisfazer as necessidades", contudo já não dá para mais.
O aumento expectável do tráfego e a utilização da pista no Montijo implicam novas funcionalidades.
"Para prestarmos o serviço como agora, temos de ter aplicações que permitam detetar possíveis colisões com maior rapidez, por exemplo", diz Sérgio Capela.
Resumindo, Lisboa, e sem sequer ter o Montijo com aviação comercial, só poderá receber mais aviões se os controladores tiverem um sistema que lhes permita tomarem mais deci- sões, terem maior antecipação no controlo e mais aeronaves monitorizadas. "Outro exemplo de uma mudança necessária: hoje tomamos nota em tiras de papel sobre as instruções dadas às aeronaves, impedindo o controlador de executar outra tarefa; com os novos sistemas, as fitas são feitas eletronicamente e de forma automática", acrescenta Sérgio Capela.
A NAV não quis revelar o valor do investimento, mas será "de muitos milhões de euros, embora não tanto como na opção Portela+1", salienta o presidente da associação de controladores. Sérgio Capela revela ainda que "a escolha está alinhavada e a implementação demorará um a dois anos, porque implica formação e novos procedimentos, sem fechar o espaço aéreo". O Ministério do Planeamento e das Infraestruturas explica que o custo "não pode ser revelado porque está-se na fase de escolha das propostas", mas garante que "o problema estará resolvido o mais breve possível".
O investimento deverá ser suportado pelos operadores através das taxas de rota. Ou seja, no imediato, vai ser mais caro voar para Lisboa. Corre-se o risco de, depois de todos os investimentos - a preparação da pista do Montijo e os melhoramentos na Portela também serão pagos através de um aumento nas taxas aeroportuárias -, as companhias aéreas reduzirem os voos para Lisboa por ser um destino caro.

(texto original publicado no Expresso Economia em 18 de fevereiro de 2017)