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“Há 55 artigos na Constituição que são Evangelho puro”: D. Manuel Martins, 1927-2017

No dia em que faleceu D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, o Expresso republica uma entrevista realizada em 2014, por ocasião dos 40 anos do 25 de Abril. O país vivia os efeitos do resgate e da presença da troika e o bispo emérito de Setúbal não escondia a “tristeza pela situação” em que Portugal se encontrava. “Tenho uma tristeza profunda pela situação de desesperança e desânimo do povo do meu país. E tenho também uma tristeza muito grande ao reparar que não temos um Estado democrático, mas um Estado corporativo, com grupos de interesses que se juntam e defendem, que se penduram no dinheiro, desprezando as pessoas”

Chegou a Setúbal, como primeiro bispo da nova diocese, no Verão Quente de 1975. Teve dúvidas e receios. Ele, que nunca tinha ido à cidade - um bastião comunista e zona de forte tradição operária - percebeu cedo que o seu "altar não podia estar na Igreja". Baixou ao terreno, arregaçou as mangas e deu voz aos que tinham fome e, sobretudo, sede de justiça. É um homem do 25 de Abril, mas confessa-se desanimado porque a revolução "não passou do papel"

Foi nomeado primeiro bispo de Setúbal em 1975, em pleno PREC. Isso assustou-o?
Sim, claro. Quando fui chamado à nunciatura e o núncio me disse: o Santo Padre quer constituir a Diocese de Setúbal e pensou em si, pedi que me deixassem pensar durante oito dias. Tinha tanto medo, constava tanta coisa sobre esta terra... Estávamos no Verão Quente e eu nunca tinha vindo a Setúbal. E sabia que o povo não queria que viesse para cá um colonizador do Norte e que muito boa gente não ficou contente com a minha nomeação! Este povo agitado e contestatário do mundo trabalho não queria que viesse para aí um padre aconselhar a paciência, organizar peregrinações ao Cristo-Rei ou a Fátima.
Queria um bispo que viesse para a rua lutar com eles. Aceitei. E quando foi a minha ordenação houve uma manifestação à porta da Sé. "Não precisamos de bispo", diziam, e "muito menos um bispo reacionário do Norte".

Quem organizou a manifestação?
Nunca se soube. Fui ordenado a 26 de julho de 1975, às quatro da tarde. Só da minha paróquia e da minha terra vieram 18 autocarros. E depois vieram os bispos e o patriarca e, naquele tempo, ser bispo ou ser patriarca era andar de Mercedes, era o carro de estatuto. De maneira que começaram a chegar os carrões de todo o lado e a gente nova que andava pela cidade, tudo em clima de revolução, ficou a saber o que se passava. E foram para a porta da catedral. E houve uma confusão e a polícia recusou-se a tomar conta da situação por se sentir incapaz perante uma multidão daquelas. Tiveram de vir soldados.

Como se sentiu naquela altura?
Eu não vi nada! Estava lá dentro... Só soube depois. Quando acabou a ordenação, estranhei que me tirassem pela porta do cavalo, pela sacristia para um salão, porque o normal seria eu vir saudar a população.

Alguma vez teve medo?
Não. Nunca tive a mais pequena falta de respeito por parte de ninguém. E quando me fui embora, a sociedade civil, sindicatos e patronato, prestou-me uma homenagem que está em livro. Houve sempre a melhor relação com toda a gente. Deus deu-me a graça de entender que a minha missão episcopal não estava só no altar. Ou melhor, que o meu altar estava no mundo. No mundo dos homens, onde se grita, onde se sofre, onde se berra.


Como conseguiu ser aceite em Setúbal, um bastião comunista?
Fui nomeado bispo desta Igreja que sofria do mal que sofria toda a Igreja. Era conservadora. Havia em Portugal problemas muito graves que tinham a ver com a dignidade da pessoa humana. Os direitos sociais praticamente não existiam e nós fomos educados nisso.
Andamos um pouquinho distraídos. E a Igreja era isto. Com a agravante de que as autoridades religiosas que nos governavam tinham sucedido imediatamente a Salazar.

A Igreja foi um pilar do Estado Novo...
Uma das grandes lutas da Igreja foi entre a República e a monarquia. A República foi uma coisa boa, até providencial, porque separou a Igreja do Estado. Mas, uma vez estabelecida a República, os ódios todos que existiam contra a Igreja vieram à superfície. O Estado anulou a personalidade jurídica da Igreja, apoderouse dos seus bens. Com um clima destes, com passos e conventos roubados e e entregues a boys...

Isso não é novo, pelos vistos...
Ai não é, não. Os boys são tão velhos como os bois. (risos) Mas tudo isto para dizer que não é de admirar que Salazar, um homem formado num seminário e que andava a dar conferências nos meios católicos, chegado ao poder tenha querido que uma das primeiras coisas a pôr em ordem fossem as relações do Estado com a Igreja. E isso acaba com a concordata de 1940. A maioria dos bispos que nós tínhamos em 1974 eram bispos nomeados no tempo do Salazar. Não temos nada que nos admirar de termos uma Igreja conservadora. Porque foi uma Igreja que respirou de alívio quando Salazar pôs as coisas na ordem.

E como é que a Igreja fez a transição para a democracia
Bom, mesmo com Salazar, o descontentamento foi nascendo. Porque para manter o poder, Salazar desvalorizou os direitos humanos. Mas a Igreja foi uma estrutura em que ele sempre se apoiou. E até o Papa João Paulo II sabia disso. Quando tínhamos as visitas habituais dos bispos ao Papa, de cinco em cinco anos, João Paulo II falava sempre no Salazar.

Bem ou mal?
Bem. Mas não propriamente por ser o nosso Salazar. Falava do seu tempo de rapaz, quando vivia num regime comunista. E no seu tempo de rapaz lembrava-se de ouvir falar num chefe de um Governo que existia cá para um país chamado Portugal que tinha posto tudo na ordem. Era conhecido como um economista de primeira classe, como o maior político do tempo de rapaz - em pleno comunismo - do futuro Papa João Paulo II.

Era essa a imagem que o Papa fazia de Salazar?
Falava nele. Como falava no Eusébio e na Amália Rodrigues.

Alguma vez lhe mostrou o outro lado de Salazar?
Nas primeiras vezes, calava-me. Mas uma vez, julgo que a última que estive com ele, a conversa alargou-se e o Papa pegou-me no braço e chamou-me para junto dele. E lá começaram esses elogios a Salazar e alguns bispos, entusiasmados, acrescentaram razões novas. E eu disse: Santo padre, é preciso não esquecer que foi este homem que exilou um bispo português por ele denunciar as injustiças, o que é um das dimensões da evangelização. Outros começaram a dizer que não era assim. Estabeleceu-se um sururu. E o Papa, ao perceber que eu estava a falar com raiva, pôs-me a mão no braço e disse: pronto, vamos falar de outra coisa.

Salazar foi também foi o chefe de Governo que não recebeu o Papa...
Sim, Paulo VI. Mas há outra história: quando Pio XII adoeceu, tinha muitos soluços e morreu disso e disseram-lhe que viesse para Portugal, por causa do clima. E quando foram dizer a Salazar, este terá respondido: aqui nem um pio, que fará 12! (risos)

Como foi a sua relação com os seus pares bispos? Foi pacífica ou as suas ações foram criticadas?
Tive sempre uma relação fraterna, até devido ao meu feitio. Nunca recebi nenhuma repreensão ou chamada de atenção por parte de nenhum bispo. Mas também - não devia dizer isto, mas já estou numa idade em que posso dizer tudo - nunca nenhum me deu os parabéns.

O seu caso foi único. O facto de arregaçar as mangas e estar no terreno era muito invulgar...
Fui às fábricas. Lembro-me de uma, que ia fechar, aqui na estrada do Alentejo e eu fui. Estava lá o credor, o tribunal, a Guarda Republicana, os cães... e quando, às 16h, tocou pela última vez a campainha para os trabalhadores saírem, eu pedi para falar com eles. Lá fiz o meu discurso, e o credor, o homem a quem a fábrica devia dinheiro, ouviu. Os trabalhadores tinham feito um juramento de que não iam deixar as máquinas. Então a polícia entrou para os obrigar e alguns desmaiaram. Foi dramático. A miséria era imensa. As metalomecânicas tinham fechado, as pessoas passavam fome. Só de uma vez houve oito suicídios em Setúbal. No fim daquilo tudo, o homem do dinheiro disseme: "O senhor bispo fez o discurso que lhe competia. Mas o meu discurso tem de ser outro porque eu aqui represento o capital e ao capital compete fazer capital, sem se comover com estas coisas". Fiquei revoltado. É esta a filosofia do capitalismo? Onde está a dignidade das pessoas?


Alguma vez pensou que 30 anos depois de ter denunciado a fome aqui em Setúbal se voltaria a falar do assunto em Portugal?
Não, ninguém julgava. O 25 de Abril foi um grande sonho, na medida em que nos ia permitir viver, tanto quanto possível, os direitos humanos. Há 55 artigos na Constituição, do 24 ao 79, que são Evangelho puro, da igualdade, da liberdade, justiça, educação, trabalho, remuneração... Mas ao fim e ao cabo as pessoas continuam menosprezadas, menorizadas, sem capacidade de escolha. Na vida política portuguesa temos neste momento uma manipulação permanente. Esse sonho do 25 de Abril falhou. Não passou do papel.

Que retrato faz do Portugal de hoje?
A minha sensação permanente é pouco cristã. É uma sensação de tristeza. Tenho muita tristeza pela situação em que Portugal se encontra, em primeiro lugar por não ter encontrado gente capaz de abrir os caminhos necessários para que a ninguém falte o que é minimamente indispensável para ser feliz, o que nós chamamos Estado social: o pão, a saúde...
Tenho uma tristeza profunda pela situação de desesperança e desânimo do povo do meu país. E tenho também uma tristeza muito grande ao reparar que não temos um Estado democrático, mas um Estado corporativo, com grupos de interesses que se juntam e defendem, que se penduram no dinheiro, desprezando as pessoas. Também fico triste por ver que os nossos governantes, na sua maioria, não têm pedagogia política, nem têm conhecimentos. Fazem as coisas sem pensar, já não digo no objetivo ou na essência, mas até na oportunidade (das medidas).

Surpreende-o que não haja mais manifestações, tendo em conta o agravamento da pobreza nos últimos anos?
A manifestação é um direito, a pessoa está descontente e manifesta o seu descontentamento. Mas há uma coisa de que eu tenho muita pena é de que boa parte destas manifestações, com clareza ou de forma escondida, tenham partidos por trás. Tenho muita pena e também me causa muito desânimo ver esta multiplicidade de greves que se organizam e que são fruto de organizações corporativas que mais se preocupam com os seus interesses do que com os direitos dos outros.

Mas tirando essas manifestações organizadas, parece que o povo está muito passivo...
Está. É um perigo. O povo está muito alérgico, desanimado, descrente, muito conformado. Ao fim e ao cabo quem fez o 25 de Abril? O povo? O 25 de Abril encontrou um eco imediato na alma do povo, sinal de que o povo sentia necessidade de uma revolução, embora não a conseguisse dizer ou fazer. Agora pode estar a acontecer o mesmo. O povo anda muito adormecido porque nunca foi devidamente instruído. O país está pendurado no grande poder económico, no capitalismo selvagem, sem o mínimo princípio de moral, que só explora, que só suga... Nunca tivemos um Governo que mandasse. Os poderes económicos, com mais ou menos evidência, dominaram sempre. E cada vez pior.

Acha que era preciso um novo 25 de Abril?
É preciso chamar a atenção para os valores que estiveram na origem do 25 de Abril. É preciso restaurar esses valores. Não é preciso fazer outro.

Acha que a democracia está em risco?
Não é uma questão de estar em risco. A questão é que nós não temos democracia. A democracia é um Estado organizado, com hierarquias, em que há uma ordem. Nós vivemos num Estado desorganizado, em que não há respeito pela dignidade das pessoas.

Mas tivemos grandes conquistas desde o 25 de Abril...
Antes de mais tivemos conquistas ideológicas. Chegámos à conclusão de que tínhamos vários direitos, mas muitos desses direitos não nos são hoje reconhecidos. Conquistámos muita coisa, mas essas conquistas estão comprometidas. É preciso que a sociedade acorde para que os valores do 25 de Abril sejam uma realidade.

Faltam vozes na Igreja para fazer esse papel de despertar consciências?
A Igreja desculpa-se quando é interpelada sobre as suas obrigações nesta sociedade. Diz que tem cumprido o seu dever, mas entende-o apenas como o "dar de comer a quem tem fome". Tem-lhe faltado uma coisa que é muito importante, que é apontar as causas da fome e denunciá-las sem medo. Mas se calhar a Igreja está comprometida com muita coisa, com o Governo que dá dinheiro para o seminário, com o presidente da Câmara que dá dinheiro para uma obra... Está comprometida com o poder e tem-se esquecido um bocadinho da sua dimensão profética, que é a de denunciar com coragem e sem medo as causas e os causadores da situação que vivemos. O Papa Francisco disse que prefere uma Igreja mergulhada no mundo, do que uma Igreja bonequinha, muito bem tratadinha dentro de uma redoma.

Este é o Papa com quem mais se identifica?
Estou apaixonado por este Papa.