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Américo Amorim: “Alterava a Constituição e impedia gastos superiores à nossa riqueza”

Rui Ochôa

O empresário Américo Amorim deu em 2 de fevereiro de 2013 uma entrevista ao Expresso, realizada a propósito dos 40 anos do jornal. Na altura, falou da sua vida e de questões estruturantes para a economia e para o país, como por exemplo o controlo de custos no Estado, que continuam tão atuais como então. O empresário que faleceu esta quinta-feira a poucos dias de comemorar 83 anos, defendia que a Constituição devia ser alterada para impedir que qualquer Governo pudesse gastar mais do que a riqueza gerada em Portugal

Imaginava que em 1973, quando o Expresso foi lançado, Portugal ia tornar-se no país que temos hoje?
Não imaginaria. Mas se soubesse que a realidade ia ser assim, isso não teria sido razão para sair do país. Aliás, nunca saí. Sempre acreditei no meu país.

De outra forma não teria apostado no país como o fiz e continuo a fazer. Apesar das dificuldades que atravessamos, é nas alturas de crise que surgem as melhores oportunidades e acredito que quando olharmos para trás, dentro de alguns anos, isso será claro.

Nunca foi tentado a retirar os negócios de Portugal antes do 25 de abril?
Nem antes. Nem durante. Nem após.

Até 1973 fez grandes périplos pelos países da ex-União Soviética e aproximou-se de regimes como o de Cuba.
Até à revolução de abril visitei todos os países do antigo bloco do Leste 52 vezes, em especial Bucareste, na Roménia, onde fui ainda mais vezes. Tenho uma larga experiência vivida nesses países.

Quando houve a revolução em Portugal, fiquei preocupado, mas não entrei em pânico. Já tinha experiência de outras economias que viveram revoluções.

Tive 15 anos de atividade em vários países comunistas, onde vivi, conheci pessoas e as indústrias que eles tinham e onde fiz muitos negócios.

Porque centrou tanta atenção nos países do Leste?
Porque eram mercados difíceis. O que é fácil não interessa. Os países onde há mais dificuldades, abrem o apetite.

Era difícil entrar em todos os países da Comecom (Conselho para Assistência Económica Mútua, para o Leste europeu), só isso abria mais oportunidades para o negócio da cortiça. Trabalhei nesses países, praticamente até à Perestroika, entre 1988 e 1990, quando acabou a situação económica que permitia que esses países nos comprassem determinados produtos. Foram 25 anos como um mercado-base para as cortiças do Grupo Amorim, em que éramos responsáveis por cerca de 75% da cortiça total que eles importavam.

Mantém contactos comerciais com esses países?
Temos escritórios em todos esses países.

Quando houve a Perestroika, notou-se uma inflexão económica em todos, mas nunca desativámos os escritórios.

Continuámos a trabalhar.

Tal como Cuba, onde se mantém amigo da família de Fidel Castro.
Mantenho, com muito gosto.

Visitam-no em Portugal?
Sempre que vieram a Portugal foram visitar-me e estiveram no Grupo Amorim.

Há uns anos, quando o irmão, Raul Castro, fez escala no Porto, esteve dois dias connosco.

Na crise em que estamos, podemos dizer que falhámos comparativamente a outros países onde a economia não caiu tanto. Qual é o nosso maior falhanço como país?
Em primeiro lugar, Portugal caracteriza-se pela ausência de estratégia.

Sempre foi assim. Por outro lado, não concordo com tudo o que hoje se identifica com a crise. A crise não existe. As pessoas não querem é entender que a economia mundial mudou completamente.

Em vez de estarmos a falar de crise, dos problemas do país, temos antes de perceber a nova ordem económica mundial e as pessoas têm de pensar numa forma diferente de se organizarem nos países em que vivem e nos espaços económicos em que trabalham.

A crise é uma palavra incorreta para a apreciação da economia mundial. Não existe. Porque toda a economia do mundo mudou. Quando me refiro à ausência de visão estratégica, estou a pensar na atitude de Portugal no que se refere à globalização da economia. Também estou a referir-me ao facto de Portugal não ter sabido antecipar os impactos do inevitável processo de descolonização - recordo sempre que França deu a independência à Argélia em 1959. E refiro-me ainda ao condicionamento industrial que existiu em Portugal durante 20 anos e que durou até 1974, foi frustrante e limitativo para o desenvolvimento do país que, por isso, irremediavelmente se atrasou. Sempre lutei contra isso, definindo rumos estratégicos.

Por exemplo, em 1962 fiz crescer a área dos aglomerados de cortiça, pois até lá só fazíamos rolhas para vinho.

Por causa disso, tentaram selar-me as máquinas nas minhas fábricas. Não me esquecerei de que em 1967 o Grupo Amorim adquiriu por 200 mil escudos um alvará para construir uma fábrica em Silves. Comprei-o a um industrial da região e depois fiz a fábrica. Hoje constato que de entre 50 indústrias que existiam à época nessa área, apenas nós sobrevivemos. A ausência de um plano estratégico para o país é um estrangulamento indesejável.

Esse problema mantém-se?
Isso continua atual. Ninguém faz uma leitura conjuntural que dê um rumo à economia portuguesa. É errado falarmos em crise, como se a situação atual pudesse ser mudada e a economia voltasse ao ritmo de crescimento que teve, porque a realidade é outra: o mundo inteiro mudou completamente.

As soluções pequenas de visão estratégica não resolvem nada.

O Estado mantém uma dimensão excessiva para a nossa realidade económica? Devia ser reduzido?
Tenho dificuldades em compreender as grandes áreas de atividade económica geridas pelo Estado, especialmente num país que se pretende de livre iniciativa.

Espero que o Governo continue o processo de reprivatizações dando visão estratégica ao país e rumo à economia, deixando para o Estado apenas as funções que lhe competem pela Constituição.

Ressalvo, pela importância transversal que tem, a necessidade de termos uma Justiça célere e acessível a todos. A Justiça é um cancro na economia. Não podemos ter uma economia saudável, com equidade social, sem uma Justiça que condene a perturbação da verdade da economia como é exemplo nas parcerias público-privadas.

Porque é que este problema nunca se resolveu?
Porque tem havido falta de coragem política dos sucessivos governos. Gerem o país por quatro anos e não gerem a pensar no futuro. É preciso coragem política. Isto é o reflexo dos últimos anos, não é uma situação de agora.

O que mais o angustia?
A existência de manchas fortes de pobreza e o facto de hoje ainda não se ter encontrado a solução para que estas manchas desapareçam.

Aliás, nunca imaginei que tantos anos depois da revolução do 25 de abril Portugal tivesse as manchas de pobreza que tem. Esta é uma situação que me choca. Não vejo sintomas de isto melhorar. Também não entendo o ataque que se faz a quem cria riqueza neste país. Infelizmente, há muitas correntes de opinião que consideram que a pobreza se combate atacando quem cria riqueza. Haja mais gente, mais pessoas, empresários, a criarem riqueza em Portugal. Temos de aplaudi-los. Temos de acabar com a pobreza no nosso país.

Como vê a crítica pública a quem tem dinheiro e teve sucesso na vida?
É uma cachorrice! Portugal tem de falar menos nos que têm dinheiro e mais sobre os que não têm e porque é que não têm. Quanto mais empresários houver, mais riqueza se formar, mais rapidamente acabaremos com a pobreza.

Como resolvia o problema de Portugal ter um salário mínimo líquido inferior ao limiar de pobreza fixado na zona euro da União Europeia?
Criando riqueza. A propósito, recordo--me que em1967 tive a clara ideia de que Portugal iria mudar politicamente. Só não sabia quando, nem como. Por isso, em 1968 alterei a estrutura do meu grupo.

Subi os salários em 10% e introduzi cantinas sociais em todas as minhas fábricas.

Só é possível alterar algumas realidades sociais criando riqueza. Em sentido contrário, também não é possível manter privilégios e regalias sem aumentar a riqueza produzida, ou seja, sem crescimento económico. A este respeito, também recordo que investi numa fábrica na Hungria, em 1984, depois de ter estudado os planos quinquenais das economias do Bloco de Leste. Ora, estes países viviam com níveis sociais semelhantes aos países europeus ocidentais, apesar de terem um nível de produção muito inferior. Entendi perfeitamente que aqueles regimes não conseguiriam durar muito mais. E não era preciso estudar para saber isso. Ora, a Perestroika aconteceu em 1988. Isto só comprova que o espaço europeu não podia manter desigualdades tão grandes.

Se em Portugal pudesse mudar alguma coisa de um dia para o outro, o que faria?
Alterava já a Constituição da República Portuguesa. Era a primeira coisa que fazia. Alterava a Constituição, definindo critérios que assegurem que nenhum Governo pudesse gastar mais do que a própria formação da riqueza nacional.

Acha que é possível fazer isso?
Não sei se é possível. Mas é desejável.

Tal como não se pode viver sem democracia, também não se pode gastar de uma forma desmesurada. Não podemos viver sem controlo dos custos e sem conhecer a rentabilidade das coisas, mesmo que eu defenda que há investimentos públicos que devem ser feitos para o bem social, mas não na intensidade que se fez em Portugal. Obras públicas sem controlo como as que foram feitas. É preciso conhecer os custos e fomentar a concorrência entre as empresas que têm interesse em efetuar essas obras. Temos de ter concorrência.

Competição. Cadernos de encargos transparentes. Precisamos de saber quanto custam os erros e as omissões.

Precisamos de ter concursos corretos.

Depois da revolução de 1974 vieram as nacionalizações. Hoje já ultrapassámos o efeito dessa época?
É monstruoso que alguém no país tenha podido nacionalizar numa noite 60% da economia. Ainda hoje temos esse custo em cima de nós.

Foi a pior crise que Portugal viveu?
Sim, a Revolução de Abril. Não a revolução em si mesma, mas as consequências nefastas da nacionalização de mais de 60% da economia do país. É um passivo que ainda temos, e que os nossos filhos continuarão a pagar. Uma coisa era nacionalizar uma ou outra atividade.
Outra coisa foi nacionalizar a maioria da economia de base portuguesa, desde a reforma agrária a tudo o resto.

E a que é que levou a reforma agrária? Em 18 anos perdemos 23% da matéria-prima que o país tinha. Por má gestão, corte de árvores, má limpeza...

E a União Europeia, também ajudou a destruir a agricultura em Portugal?
Não tenho essa sensibilidade. Vieram recursos enormes para Portugal, mas nunca foram bem gastos.

PERFIL

Fundador da Corticeira Amorim – juntamente com os seus irmãos – partiu de um negócio familiar e transformou-o no maior conglomerado mundial do sector. Tem projetos imobiliários em vários continentes, estando os maiores no Estado da Baía, no Brasil. É acionista de bancos em Portugal, Espanha, Brasil, Angola e Moçambique. A 15 de junho de 2009 recebeu o grau de Doutor Honoris Causa em Ciências Comerciais pela Universidade de St. John, em Nova Iorque.