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Porque continuo anticastrista

FOTO RUBEN PEREZ / AFP / GETTY

Neste fim de semana em que nos despedimos de um ano e nos preparamos para outro, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Não vale a pena fazer aqui a arqueologia da minha história política, porque é sobre Fidel Castro que quero escrever. Vale a pena apenas dizer que a minha militância comunista, que durou dos 12 aos 20 anos, além das razões familiares, prendeu-se muito com o passado antifascista do PCP. Estar no PCP era, aos meus jovens olhos, estar do lado certo: dos que defendiam os oprimidos e dos que resistiam corajosamente ao poder do mais forte. E olhando para o bloco de leste, para a Polónia, para a URSS e mesmo para Cuba, isso parecia não fazer grande sentido. Tão pouco que, desde muitíssimo cedo, esta contradição começou a ditar a minha inevitável dissidência. Não com grande sofisticação ideológica, mas por via de uma espécie de instinto democrático e até um pouco libertário (o último abandonei entretanto).

Pude confirmar este sentimento, muitos anos mais tarde, quando, já longe da militância na Juventude Comunista, vivi por um ano em Praga. E aí verifiquei que aqueles que saboreavam a liberdade recém-conquistada e que tinham sido, poucos deles, ativistas contra a ditadura comunista eram muito mais parecidos comigo do que cinzentos herdeiros da burocracia conservadora do marxismo-leninismo instalado. Divergiam de mim em quase tudo, mostravam-se fascinados por Reagan, Thatcher, João Paulo II e por tudo o que fosse diferente do que tinham tido. Mas respiravam o mesmo alívio que os meus pais respiraram nos anos seguintes ao 25 de Abril. Não com o mesmo fervor, que a ideologia individualista que abraçavam não lhes pedia empenhamento cívico, mas com a mesma intransigente esperança e a mesma intolerante impaciência de quem saíra de décadas em que nada acontecia ou parecia poder acontecer.

FOTO AFP / GETTY

E foi por este sentimento de fraternidade internacionalistas (que aprendi no movimento comunista) que, em 2005, sobre as manifestações das mulheres e mães dos presos políticos cubanos (“damas de branco”), escrevi aqui no Expresso: “Acredito que muitos dos opositores que, em Cuba, se batem contra Fidel Castro serão gente de direita. É normal. O que conhecem da esquerda não é lá muito animador. Mas são quem, no seu país, corre todos os riscos pela decência e pela liberdade. Para mim, chega e sobra. São a minha gente. Eles e as suas damas”. Porque, por mais estranho que pareça a quem julga que a ação política se resume à interpretação prática de construções teóricas, não percebendo as dinâmicos históricas e culturais que levam a cada filiação, o que me levou a ser militante comunista foi o mesmo que levou muitos jovens e intelectuais cubanos a querer derrubar o comunismo: uma vontade instintiva de estar do lado dos que resistem a um poder mais forte.

Desta generosidade nasceu, à esquerda, uma cultura romântica que se foi afastando da realidade à medida que foi sendo derrotada. E não há melhor exemplo disso mesmo do que Cuba e os seus ícones. Quando iniciei a minha militância partidária nem Cuba era uma referência fundamental para os comunistas – a autonomia castrista face à URSS era olhada com desconfiança por um PCP alinhado com Moscovo –, nem Che Guevara era apresentado como exemplo de virtudes revolucionárias. Pelo contrário, Che era visto como um aventureiro individualista, enquanto Fidel era retratado como um patriota responsável e sólido.

Fidel e Che

Fidel e Che

EPA

Devo dizer que, pelo menos nisto, o PCP tinha toda a razão. Se há ícone revolucionário que me indispõe é o de Che. Porque o ideal romântico que o torna apelativo é tudo o que é inconsequente na esquerda: o voluntarismo no lugar das condições materiais que levam a uma mudança revolucionária (como se viu no Congo e na Bolívia); o revolucionário egocêntrico no lugar do povo e das suas aspirações; o sonho no lugar da proposta; a atração quase religiosa pelo martírio no lugar da melhoria das condições de vida das pessoas. E se Che é o melhor retrato da atração pela derrota, a iconografia que se construiu em torno dele é o apogeu da idolatria vazia de política. Não há símbolo revolucionário mais inofensivo do que o de Che Guevara. Entre a sua cara e o símbolo da Apple não me parece que haja hoje grande diferença.

Acho, sempre achei, nas suas contradições e no seu enorme talento político, muitíssimo mais interessante a figura Fidel Castro. Um homem que chegou a bater à porta da Casa Branca em busca de apoio e acabou de braço dado com os comunistas (e ele próprio se transformou num comunista convicto) depois de perceber que os norte-americanos não dispensavam os seus miseráveis e medíocres capachos. Como todos os verdadeiros líderes comunistas, Fidel Castro foi um revolucionário pragmático, não um aventureiro sonhador. E isso faz dele, muito mais do que Che Guevara, uma figura com a densidade política. Che ficará nas t-shirts, Fidel ficará na História.

AFP/ GETTY

Sei que nestes momentos se espera que haja dois lados claros: os que recordam que Fidel Castro foi um ditador, que esmagou a liberdade do seu povo, e os que se despedem dele com o beato “Hasta Siempre, Comandante!”. Se é preciso escolher lados, o meu resume-se a uma afirmação de facto: Fidel Castro foi um ditador. Para mim, isso chega para traçar uma fronteira. Tudo o que diga – e direi – depois disto é a análise que recusa a mera proclamação moral.

Dito isto, vem a frase que não se tolera, porque há coisas sobre as quais só se podem dizer coisas planas, simples, sem “mas”. Mas eu gosto de todos os “mas”. E o meu “mas” é perigoso: a de que as ditaduras não são todas iguais. Para que não se julgue que quero desculpar seja o que for, não acho que a ditadura de Salazar tenha sido igual à de Mussolini e muito menos à de Hitler. Teve pontos comuns, mas a sua natureza era tão diferente como foi a sua génese, o seu contexto e os seus protagonistas. Dizer que as coisas que se assemelham não são todas iguais não é desculpar nada, é não prescindir da inteligência. Assim como espero que os neoliberais que apoiam quase todas as políticas económicas impostas por Pinochet não defendam (pelo menos alguns deles) a impiedosa ditadura que impôs ao Chile.

A vida não é plana e a história, ao contrário do que gostamos de dizer nestes momentos, não tem de absolver ou condenar

Há quatro coisas que os detratores de Fidel, entre os quais me encontro, têm de reconhecer: que o processo revolucionário que ele liderou começou por ser libertador; que resultou de uma enorme coragem de muito poucos; que Cuba teve de viver com um cerco insuportável à sua independência; e que foram atingidas algumas conquistas sociais, de que se destacam o seu sistema de saúde e a educação para todos.

Fulgencio Batista era um ditador em nada melhor do que Fidel Castro, apenas mais corrupto, antipatriota e sem qualquer tipo de preocupação com a qualidade de vida do seu povo. Incluir nas vítimas da ditadura castrista, que as houve e não foram poucas, aqueles que se bateram para defender a ditadura de Batista é uma desonestidade intelectual e um ato que revela um assombroso relativismo moral.

OFF / AFP / GETTY

O processo revolucionário liderado por Fidel Castro revelou, na sua fase anterior à conquista do poder, uma enorme coragem política e física que torna possível atribuir a Fidel Castro e aos seus companheiros, especialmente Che Guevara e Camilo Cienfuegos, o título de heróis. A vida não é plana e a história, ao contrário do que gostamos de dizer nestes momentos, não tem de absolver ou condenar. Tem de olhar para os homens com as suas contradições e na irregularidade das suas biografias. Um ditador pode ter sido um herói e é por isso mesmo que, por mais que admiremos um heróis, devemos ter o cuidado de não lhe dar demasiado poder para que não se torne um ditador.

Temos de reconhecer que Fidel Castro teve de lidar com um inimigo vizinho e invencível que tornou a independência real de Cuba numa impossibilidade prática. As tentativas falhadas de assassinato (Fidel ter vivido até aos 90 anos é, por si só, sinal de uma assinalável de resistência), as tentativas falhadas de invasão e o bloqueio imoral a que Cuba foi sujeita durante décadas são variáveis que não podem ser ignoradas em nenhum balanço do legado de Fidel Castro. Sabendo que o comportamento dos EUA nada teve que ver com um imperativo moral em defesa da democracia. São os mesmos EUA que derrubaram o presidente eleito do Chile, Salvador Allende, para colocar Pinochet no seu lugar, que tinham apoiado Batista, que apoiaram a sanguinária ditadura argentina e as forças saudosistas de Anastasio Somoza. Quem apoiou financeira, política e militarmente décadas de despotismo na América Central e do Sul nunca poderá reivindicar para si o papel de defensor da liberdade e da democracia naquele continente. Falando de Somoza Garcia (ditador nicaraguense e pai de Anastácio Somoza), Roosevelt terá dito: “Somoza pode ser um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”. Fidel Castro não era o “filho da puta” dos EUA. Apenas isso.

Mas isto leva-me a um velho debate que, à esquerda e à direita, está sempre esquecido. Que os nossos filhos da puta não o são menos por serem nossos. E o facto de Fidel Castro ter liderado uma revolução contra uma ditadura cleptocrata, ter resistido ao imperialismo norte-americano – que na América Latina usou roupagens quase coloniais –, ter investido em saúde e educação e ter correspondido a uma melhoria das condições de vida dos cubanos nos primeiros anos da revolução, não faz dele um bocadinho menos ditador. Um ditador não o deixa de ser por se aproximar das nossas convicções políticas. A não ser, claro, que as nossas convicções políticas não incluam a democracia e a liberdade. As minhas não só incluem como as têm como elementos centrais.

As ditaduras não são todas iguais. Existe uma falsa convicção que a todos os ditadores interessam povos embrutecidos e ignorantes

Quando, em 2005, fui a Cuba, ainda Fidel Castro governava, confirmei as minhas piores expectativas. Enquanto os cubanos esperavam em filas para comprar o que não havia, enquanto os turistas eram higienicamente separados dos cubanos para poderem ter o que a eles faltava, enquanto todos os que podiam fugiam, deixando para trás uma revolução falhada, enquanto Havana caía em ruínas belas e decadentes, milhares de cartazes explicavam, nas cores alegres de uma revolução moribunda, que “tudo va bien”. Tantas vezes como as vezes que Fidel aparecia para os seus intermináveis sermões, sempre impecavelmente mascarado do guerrilheiro que fora há meio século. Mas, acima de tudo, pairava no ar um sentimento que resultava de um crime e de uma conquista: a frustração. Uma insuportável frustração.

E esta é a parte onde volto a recordar que as ditaduras não são todas iguais. Existe uma falsa convicção que a todos os ditadores interessam povos embrutecidos e ignorantes. Esta convicção nasce de uma simplificação psicológica e política: a de que os ditadores querem, antes de tudo, ser ditadores. Claro que há ditadores, como democratas, a quem apenas interessa a manutenção do seu próprio poder e os seus próprios privilégios. Mas acredito que muitos, onde incluo Oliveira Salazar ou Fidel Castro, acreditaram genuinamente que governavam pelo bem do povo. E há diferenças ideológicas que levam a diferentes comportamentos e prioridades em diferentes ditaduras. Um ditador conservador acredita na desvantagem da mobilidade social e no mérito do privilégio. Um ditador de cariz marxista é, pelo menos do ponto de vista teórico, um igualitarista com uma enorme fé no progresso. E isso levou a que quase todos os regimes comunistas tivessem feito grandes investimentos na educação. Como bem sabemos pelo embate que o alargamento da União Europeia a leste teve para a nossa economia.

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Mesmo nos seus piores momentos, o acesso à educação e à saúde esteve muitíssimo mais generalizado em Cuba dos que em praticamente todos os países da América Central. Mesmo quando tudo faltou, incluindo medicamentos, Cuba conseguiu ser exportadora regional (e até, em algumas áreas, internacional) de cuidados médicos. Mesmo quando tudo faltou, até livros, o cubano médio espantava-nos com a sua cultura geral, que contrasta com as enormes dificuldades em que vivia. Não é inato, é o outro lado da moeda.

Isto pode parecer um pouco herético, mas é muito mais difícil a pobreza a quem quase toca no bem-estar, é muito mais difícil a falta de liberdade a quem tem os instrumentos culturais e intelectuais para a exercer de forma plena, do que a quem não sonha com mais do que o mínimo. Salazar sabia-o e por isso acreditava que quanto menos o povo ambicionasse mais feliz seria. Mas Salazar não se via como um libertador. Fidel sim. E a real prioridade que deu à educação fez com que os cubanos sofressem muito mais nesta ilha que se fechou, por imposição externa e autopreservação do regime, do mundo. Ainda mais quando o mundo os visita para lhes fazer pirraça. E este foi o sentimento mais forte que vi nos cubanos, há 11 anos: claustrofobia. Uma insuportável e dolorosa claustrofobia. Nós falamos-lhes das escolas que têm e eles falam-nos do mundo e da liberdade. Nós falamos-lhes dos hospitais e eles falam-nos de tudo o que não há e que não faz qualquer sentido que não haja. Incluindo o mais básico.

A escolha de Raul Castro foi a mais extraordinária prova do esgotamento do regime: ao fim de cerca de meio século de poder, Fidel Castro só confiava no seu próprio sangue

Em Cuba, tudo piorou depois do bloco de leste desmoronar. Porque Cuba aceitou substituir uma dependência semicolonial em relação aos EUA por uma dependência aproximada em relação à URSS, optando pela monocultura da cana do açúcar que, associada ao sistema ultra-estatizante quase sem paralelo com outros países socialistas, era a receita para o desastre. Quando a URSS ruiu foi como se o sol tivesse deixado de nascer, terá dito Fidel Castro a Lula da Silva. Cada vez mais isolado e disfuncional, o regime alternou entre cedências reformistas e picos de repressão. Seguindo o exemplo chinês, a abertura económica, indispensável para que o país não sufocasse, não foi acompanhada por verdadeiras aberturas políticas que permitissem liberdade de expressão e de imprensa ou multipartidarismo. O castrismo aprendeu com a Perestroika e percebeu que no momento em que permitisse mais liberdade estaria provavelmente condenado. A escolha de Raul Castro foi a mais extraordinária prova do esgotamento do regime: ao fim de cerca de meio século de poder, Fidel Castro só confiava no seu próprio sangue.

Khrushchev com Fidel em maio de 1963

Khrushchev com Fidel em maio de 1963

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O mais estranho do que vi e ouvi em Cuba foi a sensação de que, de todos os responsáveis pelo beco sem saída em que o país está, o mais poupado pelo povo era, apesar de tudo, Fidel Castro. Porque carrega em si a aura de um tempo em que a revolução foi largamente popular – e o meu problema com muitas das análises sobre Cuba é ignorarem que esse tempo existiu. Tinha a autoridade, a história e o carisma de um líder. E o mais fácil para contornar a desilusão perante alguém que se agarrou ao poder como uma lapa é dizer que o problema está nos que o rodeiam. Incluindo nestes o seu próprio irmão. E isso ouvi de muitos cubanos, sobretudo mais velhos: o regime não presta, Fidel está mal acompanhado.

Fidel sofreu da mesma ilusão de todos os ditadores: julgou que o povo lhe pertencia

Sem Fidel Castro, morreu o pai que muitos não queriam desrespeitar. Sem Fidel, morreu a arqueologia de uma revolução que chegou a ser libertadora, que deu mais saúde e educação aos cubanos e resistiu aos EUA e ao seu cerco. Morreu a memória do que poderia ter sido a revolução e ficou um regime em ruínas, como os edifícios de Havana e a economia cubana. Foi-se o sonho que talvez ainda vivesse na cabeça dos idealistas mais abstraídos da realidade e ficou a repressão e corrupção de um sistema que consegue a proeza de estar ainda mais podre do que aquele em que vivemos. Com Fidel, foi-se a memória dos barbudos da Serra Maestra que derrubaram Batista e ficaram os burocratas corruptos do partido. Com enorme injustiça para Raul Castro, terá ido a revolução e ficado a situação. Isto apesar do atual Presidente de Cuba também ter sido da revolução e o irmão que agora morreu ter sido o principal construtor da situação.

As ditaduras têm sempre uma enorme desvantagem sobre as democracias: não se regeneram. Mesmo que governem o povo, mesmo que pretendam governar para o povo, nunca poderão governar com o povo. E estão condenadas a lutar apenas pela sua própria sobrevivência. Fidel poderia ter construído um país novo. Até o construiu e em bastantes coisas será melhor do que país que conquistou há quase 60 anos. Mas sofreu da mesma ilusão de todos os ditadores: julgou que o povo lhe pertencia. Se Cuba não conseguir o milagre de se regenerar e democratizar por dentro, num processo quase impossível de controlar, chegará o momento do desembarque da escumalha do passado, desejosa de receber o seu quinhão num renascido bordel americano. Apesar de todas as ditaduras serem diferentes umas das outras, não há bons ditadores. Porque mesmo que as intenções sejam boas, eles são os carrascos do mundo novo que anunciam.