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Uma fortuna sem passado

rui duarte silva

Isabel dos Santos, a mulher mais rica de África, tem feito tudo para deixar para trás a ideia de que a sua fortuna se deve ao pai, o Presidente de Angola. Mas há sempre alguém para lhe lembrar de onde ela vem Neste fim de semana em que nos despedimos de um ano e nos preparamos para outro, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Gustavo Costa

em Luanda

Correspondente em Luanda

O Instagram tem destas coisas. Aproxima instantaneamente quem é rico de quem é pobre. Os ricos parecem pessoas normais e os pobres sentem-se mais próximos. Em novembro, Isabel dos Santos postou uma imagem sua como uma das 100 mulheres escolhidas no mundo inteiro pela BBC por servirem de fonte de inspiração em 2015. "Todos os dias acordo e penso o que mais posso fazer, o que posso fazer melhor", escreveu a filha mais velha do Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, ao lado da sua própria imagem. "Como posso transformar para melhor o que me rodeia? E assim o meu trabalho é uma paixão e deixa de ser um fardo e torna-me feliz."

Isabel é popular no Instagram. Tem 29 mil seguidores. As primeiras imagens que publicou, a 11 de janeiro de 2015, não podiam ser mais generosas para os seus admiradores de instintos voyeuristas. Fotografou o lugar na primeira classe do avião da Emirates em que viajou para a Tailândia, mostrando-se de seguida com o marido, Sindika Dokolo, em Banguecoque, à porta do Nahm, eleito o melhor restaurante da Ásia em 2014.

A conta está acessível e toda a gente pode acompanhá-la no dia a dia, apesar do risco que corre de receber um ou outro comentário mais ácido, considerando o nível de pobreza em que o país ainda se encontra. Em 2015, Angola ocupava o 149º lugar em 188 posições possíveis no ranking de desenvolvimento humano das Nações Unidas, à frente de Moçambique mas atrás de Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe, ainda que seja o segundo maior produtor de petróleo da África subsariana.

Poucos dias antes da distinção dada pela BBC, quando postou a 12 de novembro uma imagem do Google com a bandeira angolana, para comemorar o aniversário redondo da independência do país, Isabel dos Santos escreveu: "Até aqui!!! Angola 40 anos sempre a subir." Teve logo troco. "Pena que ficou independente para virar ditadura", replicou alguém. "Filha do papai", acrescentou outra pessoa. Mas debaixo das selfies que vai colocando, muitas delas tiradas ao lado do marido, entre elogios dos seguidores sobre o "casal lindo" que os dois formam, a maioria das vezes o que acontece é pedirem-lhe trabalho. É habitual deixarem-lhe currículos abreviados de duas linhas, e-mails e números de telemóvel. Isabel, invariavelmente, não responde. Pelo menos, não em público.

Dá para perceber a vida ocupada que leva. Quando está por Luanda, Isabel mora num dos condomínios mais luxuosos de Angola, Morro Bento, projetado pela Sociedade Lusa de Negócios, a SLN, o grupo fundador do BPN. São sete hectares e meio na Samba, junto à praia, onde fizeram 58 casas com vista sobre a baía e as ilhas do Mussulo. Quando foram colocadas no mercado, os preços rondavam os 4 milhões de dólares. Segundo um dos moradores, Isabel "comprou duas moradias e ligou-as através de um quintal comum". Queria ter mais espaço para os três filhos e para as visitas dos amigos. Os vizinhos, contudo, veem-na pouco, e nunca vai às reuniões de condóminos.

Anda sempre a circular. No Instagram via-se qual era o ritmo a que ia no último verão. A 17 de setembro, estava numa festa no Oon.dah, o restaurante de luxo que possui na torre Escom, o prédio mais alto de Luanda. A 18, encontrava-se em Bali, na Indonésia, com Sindika. A 24, reaparecia numa varanda do Ritz Four Seasons, em Lisboa. A 25, dava um salto a um ateliê de arquitetura em Londres, a cidade onde mora a mãe, a russa Tatiana Regan. E a 29, de novo em Luanda, lançava a campanha de imagem da sua futura rede de hipermercados, os Candando, depois de meses antes ter rompido com a Sonae, com a qual esteve para importar o conceito do Continente, mas não sem antes aliciar dois quadros de topo do grupo de retalho português para irem trabalhar com ela. A sua conta na rede social é bem a prova de como está em todo o lado. Um pouco como nos negócios.

IMUNE À CRISE

Com a economia angolana em sérias dificuldades desde que o preço do petróleo começou a descer de forma acentuada, Isabel dos Santos tem mostrado uma aparente imunidade à crise do seu país. Numa lista atualizada da revista "Forbes", surgia em janeiro de 2016 com 3,4 mil milhões de dólares, mais 400 milhões do que lhe era apontado há um ano e mantendo a oitava posição no ranking 50 de África. Aos 42 anos, além de ser a primeira bilionária africana da história, é a figura mais rica da sua geração no continente inteiro. Três vezes mais rica do que Mohammed Dewji, da Tanzânia, de 40 anos. E quase tão rica como o mais rico dos portugueses, o seu sócio Américo Amorim, cuja fortuna a "Forbes" calculava em 4 mil milhões de dólares em 2015.

Quase 100% das exportações em Angola assentam no petróleo, mas as atividades de Isabel são diversificadas e não dependem diretamente da cotação dos barris de crude. É dona de empresas de telecomunicações (Unitel e Zap em Angola, NOS em Portugal), bancos (BPI e BIC Portugal em Lisboa; BIC Angola, BFA e Banco Económico em Luanda), energia (Galp em Portugal, associada a Américo Amorim), imobiliário e cimentos (tem a única fábrica do país). Apoiada já significativamente em Portugal, os seus dividendos vão demorar mais tempo a ressentir-se.

Em outubro, quando em Luanda o Ministério das Finanças estudava uma forma de contornar os cofres vazios do tesouro para poder pagar o subsídio de Natal dos funcionários públicos em três tranches, depois de já ter promovido um corte a fundo no início de 2015 de um terço das despesas inscritas no Orçamento do Estado, a empresária abria os seus interesses a mais um sector de atividade em Lisboa, a seguir à banca e às telecomunicações. Formalizava a compra por 195 milhões de euros de 65% da maior companhia em Portugal de eletrónica e eletromecânica, a Efacec Power Solutions.

A notícia era dada na imprensa com alguns detalhes: a compra tinha sido feita através da Winterfell, uma sociedade criada na Zona Franca da Madeira de propósito para concretizar o negócio, e 40% dessa sociedade tinha sido adquirida em agosto pela empresa nacional angolana de distribuição de eletricidade, a ENDE. Sendo que a Efacec iria entretanto fornecer equipamentos elétricos para três barragens que estão ser construídas em Angola. Ou seja, o Estado angolano tinha ajudado Isabel dos Santos a comprar uma empresa que iria ganhar dinheiro com o próprio Estado angolano.

Família. Com o marido, o empresário e colecionador de arte congolês Sindika Dokolo, em França

Família. Com o marido, o empresário e colecionador de arte congolês Sindika Dokolo, em França

getty

Para concretizar a compra, a Winterfell recorreu a empréstimos do Montepio, do BCP, da Caixa Geral de Depósitos e de dois bancos onde Isabel é acionista, o BPI, onde detém uma quota de 19%, e o BIC Portugal, onde tem a posição maioritária e que corresponde ao antigo BPN, comprado por 40 milhões de euros em 2011, no decurso das exigências do memorando de entendimento assinado entre o Governo português e a troika.

A participação dos cinco bancos portugueses no financiamento do negócio, revelado pelo Expresso na altura, não foi esclarecida por nenhuma das instituições financeiras nem pela empresária angolana, mas os contornos entretanto conhecidos foram suficientes para, logo em outubro, quatro eurodeputados do Intergrupo Parlamentar para a Integridade e Transparência, incluindo a socialista portuguesa Ana Gomes, terem pedido de imediato à Autoridade Bancária Europeia (ABE), ao Banco Central Europeu (BCE) e a uma organização especializada em branqueamento de capitais de que Portugal é membro, o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI), que investigassem o assunto.

A lei sobre branqueamento de capitais que está em vigor em Portugal desde 2008, e que transpõe duas diretivas comunitárias de 2005 e 2006, obriga a que qualquer banco de um Estado-membro, a par de outras entidades, como escritórios de advogados, verifique com especial cuidado negócios que envolvam pessoas politicamente expostas, conhecidas pela sigla PEP, como é o caso de Isabel dos Santos, por ser filha de um chefe de Estado.
Chama-se a isso "dever de diligência reforçado" e implica que os bancos tomem "as medidas necessárias para determinar a origem do património e dos fundos envolvidos nas relações de negócios".

Para Ana Gomes, é difícil perceber como é que a filha do Presidente de Angola, considerado um dos países mais corruptos do mundo, tem as portas tão abertas em Portugal, com tudo o que já foi escrito sobre ela nos últimos anos. "Queremos saber até que ponto as regras estão a ser cumpridas pelos bancos e pelas entidades reguladoras, que têm o dever de fiscalização."

Em dezembro, logo a seguir à BBC ter enaltecido o seu papel como figura inspiradora para outras mulheres, a primogénita de José Eduardo dos Santos era escolhida pela maior organização não--governamental anticorrupção, a Transparency International, com sede em Berlim, na Alemanha, para uma lista final de 15 piores casos de corrupção no mundo inteiro, na campanha Unmask the Corrupt, ao lado do BES de Ricardo Salgado (acusado de alegadamente ter ajudado corruptos em vários pontos do globo), da brasileira Petrobras, do ex-ditador egípcio Hosni Mubarak e do ex-Presidente ucraniano Viktor Yanukovytch.

Quando a campanha terminar, a 10 de fevereiro, um dos nomeados ganhará um primeiro lugar, em resultado da votação do público. Há um outro filho de um Presidente africano na lista, Teodoro Nguema Obiang, da Guiné Equatorial, o mais recente membro da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Teodoro recebeu, no entanto, muito menos votos do que a filha de Zédu, nome por que é conhecido pelos angolanos o Presidente (72 votos contra 1363), apesar de acumular casos com a justiça relacionados com o branqueamento de capitais, ao contrário de Isabel, que até hoje nunca foi arguida em nada. Mas as perceções contam.

IMPRENSA HOSTIL

A imprensa não tem ajudado. Pela menos, na perspetiva dela. Numa resposta a 11 perguntas que o Expresso enviou por causa deste artigo, o assessor escolhido pela empresária na agência de comunicação LPM para a representar resume a forma como ela se sente injustiçada pelos jornais: "Como deve calcular, a engenheira Isabel dos Santos não está disponível para credibilizar uma peça jornalística que, pelas questões suscitadas, aparenta ser apenas um mero reprodutor das campanhas de intoxicação já conhecidas."

Por outro lado, diz o assessor de Isabel, deveria ser "dada aos leitores do Expresso a possibilidade de conhecerem as ligações financeiras entre a referida organização [a Transparency International] e um dos acionistas de referência de uma das sociedades participantes na Unitel, aliás, copatrocinador de conhecidos processos de contencioso com os restantes acionistas". A nota é um pouco encriptada, mas o argumento não é novo. Luís Paixão Martins, o fundador da LPM, escreveu sobre o assunto em abril de 2014 na revista "Briefing". O filantropo e multimilionário George Soros, além de financiador da Transparency International, está ligado, segundo o dono daquela agência de comunicação, a um fundo de investimentos nigeriano, o Helios, que detém indiretamente uma participação na Unitel e estaria alegadamente interessado em lucrar umas centenas de milhões de euros negociando o melhor preço na venda de ações.

Segundo Paixão Martins, ao ser igualmente financiador da Open Society Foundation, para a qual o jornalista angolano Rafael Marques trabalhou, Soros teria levado este a publicar a meias com uma jornalista americana um artigo na revista "Forbes", em agosto de 2013, intitulado "A menina do papá: como uma 'princesa' africana acumulou três mil milhões de dólares num país que vive com dois dólares por dia". Um segundo artigo foi publicado pela mesma dupla na "Forbes", em janeiro de 2014: "Diamantes para a menina do papá: como Isabel dos Santos de Angola adquiriu um joalheiro suíço". É a história de como a empresária se tornou dona, em 2012, da casa de joalharia Grisogono, famosa por vender joias a celebridades como Sharon Stone e Heidi Klum, através de uma sociedade registada na Holanda e cujo beneficiário é o marido, Sindika. E mais uma vez a meias com o Estado angolano, que terá participado na aquisição através da Sodiam, empresa pública de comercialização de diamantes.

Rafael Marques processou Luís Paixão Martins pela insinuação de que o jornalista angolano seria afinal um testa de ferro de George Soros. O julgamento está marcado para janeiro de 2017. E entretanto, logo em dezembro de 2013, Isabel dos Santos comprou os direitos da "Forbes" para Portugal e Angola e é atualmente dona das edições que a revista publica nos dois países. Em Portugal, o primeiro número saiu a 27 de novembro de 2015. E a edição angolana foi para as bancas uma semana antes. "Ter uma revista que consiga espalhar para o mundo o que se passa nas nossas economias, nas nossas empresas, acho que era uma matéria interessante e que não está ainda suficientemente tratada", disse a empresária na altura do lançamento.

No comunicado que divulgou a seguir a ter sido nomeada para a shortlist da campanha Unmask the Corrupt, Isabel diz ser "uma empresária independente e uma investidora privada, representando unicamente os seus próprios interesses", acrescentando que os seus investimentos "em empresas angolanas e portuguesas são transparentes e têm sido realizados através de transações baseadas no princípio de plena concorrência, envolvendo entidades externas, tais como reputados bancos e escritórios de advogados".

A RÉGUA E ESQUADRO

Esse é um dos ponto sensíveis. A transparência. Isabel dos Santos diz que os investimentos que tem feito são apresentados "com máxima transparência", mas, para quem está de fora, uma das dificuldades em entender os negócios da filha do Presidente está no emaranhado de sociedades que foi criando em várias jurisdições, uma para cada negócio, somando participações cruzadas, em que não se entende onde está e de onde lhe vem o dinheiro. Não existe um grupo de empresas reunido numa holding. Falta-lhe uma organização lógica.

Uma fonte ligada simultaneamente a Luanda e a Lisboa diz que a confusão é apenas aparente. "A estrutura das empresas e do controlo acionista de Isabel dos Santos foi desenhada a regra e esquadro pelos melhores que há no mundo a fazer o que fazem: a consultora McKinsey e o escritório de advogados da Clifford Chance. Nada foi deixado ao acaso."

A Clifford Chance é um dos cinco escritórios do Magic Circle, as cinco mais importantes sociedades de advogados do Reino Unido, com uma faturação de 2 mil milhões de euros por ano, e tem sede em Londres, numa torre envidraçada de 32 andares no bairro de Canary Wharf. Esse, o universo das consultoras internacionais, foi o meio onde Isabel dos Santos cresceu durante boa parte do tempo. Não em Luanda. Cosmopolita e fluente em seis línguas, incluindo russo e italiano, a filha do Presidente não é apenas uma angolana.

Isabel José dos Santos nasceu a 20 de abril de 1973 em Baku, a maior das cidades costeiras do mar Cáspio, numa época em que o Azerbaijão fazia parte da União Soviética e em que a sua capital era um posto avançado de formação e doutrinamento de dirigentes dos movimentos independentistas na África de orientação marxista. O pai tinha ido dez anos antes para Baku com uma bolsa de estudo e concluiu a licenciatura em Engenharia de Petróleos em 1969. A mãe, uma russa, Tatiana Cerguevm Kukanova (só muito mais tarde passou a usar o apelido Regan), era uma colega de faculdade que chegou a ser campeã de xadrez. Isabel aprendeu a falar russo em casa. A seguir à independência de Angola, em 1975, José Eduardo dos Santos começou por ser ministro dos Negócios Estrangeiros do MPLA. Com a morte de Agostinho Neto, em 1979, sucedeu-lhe no cargo como Presidente do país. Era reservado e visto como o mais fraco dos mais fortes e tinha por isso o apoio dos que achavam que iriam sempre conseguir controlá-lo.

Antes disso, da ascensão repentina a número um do MPLA e a chefe de Estado, já Zédu e Tatiana se tinham divorciado. O mais velho dos sete meios irmãos de Isabel, José Filomeno dos Santos, à frente do Fundo Soberano de Angola e apontado de forma insistente como o sucessor do pai, nasceu em 1978, poucos antes de ela completar 5 anos. Tatiana, que trabalhava na Sonangol, vivia na altura com a filha no bairro de Alvalade. Moravam numa casa que tinha pertencido na época colonial a um português, Carlos Manuel Aguiar, filho do administrador e dono da indústria de madeiras Jomar, e passavam dificuldades.

Com José Eduardo dos Santos de pedra e cal à frente do Palácio do Futungo, Isabel foi enviada a meio dos anos 80 com a mãe para Londres. Entrou na St. Paul's Girls School, uma das melhores escolas privadas de Inglaterra, completando aí o ensino secundário, antes de transitar para o King's College, onde tirou um bacharelato em Engenharia Eletrotécnica.
A mãe tornou-se cidadã britânica e fixou residência em Londres e, de acordo com a biografia lançada no ano passado pelo jornalista Filipe S. Fernandes, Isabel, com períodos intermitentes em Luanda, passou a trabalhar na Coopers & Lybrand, onde esteve dois anos, até 1997, antes de a consultora se fundir com a PriceWaterhouse, dando origem à PriceWaterhouseCoopers. Ainda segundo Filipe S. Fernandes, isto foi numa altura em que já eram habituais as suas vindas a Lisboa, ficando numa casa perto do Castelo de São Jorge, propriedade de um amigo de Agostinho Neto, Percy Freudenthal, um consultor que ajudou a estruturar a Sonangol nos anos 70.

Em 1997, finalmente, Isabel estabeleceu-se em Luanda. Foi viver para o bairro da Corimba, onde teve a sua primeira casa. À beira da praia, mais uma vez, e muito perto do sítio onde mora hoje. Com 24 anos, teve a sua primeira iniciativa empresarial um pouco por acaso: fez-se sócia do Miami Beach Club, um bar que continua a ser um dos sítios mais famosos da ilha de Luanda. No ano seguinte, conseguiu um trabalho como engenheira na Urbana 2000, uma empresa do grupo Jemba, que tinha a concessão da recolha do lixo em Luanda. Isabel passou a ganhar 1,2 milhões de dólares por mês, com um generoso contrato que durou até 2006, já depois de ter adquirido posições de peso noutros sectores. "A intervenção do pai na operação do lixo foi aberta", recorda um antigo membro do governo da província de Luanda.

DIAMANTES PARA SEMPRE

Quase logo a seguir surgiram os diamantes. Foi a primeira vez que o nome de Isabel apareceu mencionado numa página do Expresso. A 13 de fevereiro de 1999, o jornal publicava um título muito direto: "Eduardo dos Santos tira diamantes a Portugal para dar à filha". A notícia descrevia como uma empresa da filha mais velha do Presidente de Angola tinha recebido "por ajuste direto" a exploração da zona diamantífera do Camatué, na Lunda Norte, "em prejuízo dos interesses portugueses no sector". Jaime Gama, então ministro dos Negócios Estrangeiros, ia discutir o assunto em Luanda. O que estava em causa era aritmético: o Estado português, através do IPE, tinha 49% da Sociedade Mineira do Lucapa, sendo os restantes 51% da Endiama, a empresa estatal angolana responsável por concessionar a exploração de diamantes em todo o país. O primeiro-ministro António Guterres recebera garantias do seu homólogo que a Sociedade Mineira do Lucapa ia ficar com a exploração, mas a palavra dada não tinha sido cumprida, e um despacho do Presidente apontava para a constituição de um consórcio com direitos de mineração do Camatué onde a Sociedade Mineira do Lucapa ficaria com uma posição reduzida de 10%, enquanto a sociedade de que era beneficiária Isabel dos Santos, a Angola Diamond Corporation, teria uma maioria de 60%.

E essa era apenas uma parte da história. Havia ainda a fatia relativa ao comércio dos diamantes. E não apenas do Camatué, mas de todo o país. De acordo com o testemunho prestado num tribunal em Londres, em 2012, por Arcady Gaydamak, um multimilionário israelo-russo sócio de Pierre Falcone na venda de armamento para Angola durante a década de 90, nesse mesmo ano de 1999 um novo modelo de negócio posto em prática no terreno iria acelerar o desfecho da guerra que o MPLA mantinha com a UNITA desde a independência, iniciando em breve uma era de paz e prosperidade. Gaydamak contou ao juiz que a ideia foi sua e era simples: o Governo permitia que fosse criada uma nova sociedade com o direito exclusivo de comercialização de diamantes, e ele garantia, em contrapartida, que os rebeldes liderados por Jonas Savimbi deixariam de vender pedras preciosas, com a ajuda musculada de uma unidade de segurança constituída por antigos elementos de elite da Mossad israelita. Em outubro de 1999, a sociedade foi batizada de Ascorp. Era constituída pela Endiama, a empresa estatal de mineração de diamantes, com 51%, cabendo 24,5% à Welox, que representava, entre outros judeus, um tipo chamado Lev Leviev, o maior comerciante de diamantes de Telavive e alegadamente o testa de ferro de Gaydamak, perseguido pela justiça francesa, tal como Pierre Falcone. Havia depois uma quota de 24,5% para outra empresa, criada em Gibraltar, com o nome TAIS. Tratava-se de um acrónimo, segundo o traficante de armas israelo-russo, e significava uma parceria entre mãe e filha: Tatiana e Isabel. Gaydamak descreveu ao juiz em Londres como naquela época o negócio rendia centenas de milhões de dólares ao ano e como tinha carta branca para encher malas de dinheiro. Não havia qualquer controlo.

Na Stolen Asset Recovery Initiative, uma parceria criada a meias pelo Banco Mundial e as Nações Unidas, através do United Nations Office of Drugs and Crime (UNODC), o único caso que está registado sobre Angola é relativo a esse negócio. Diz o sumário do dossiê que "a Ascorp (Angola Selling Corporation) foi estabelecida para fazer cumprir as sanções das Nações Unidas, ao providenciar um regime que iria garantir o sistema de certificação de origem e assegurar a exclusão dos diamantes da UNITA", conhecido como processo de Kimberley. "Os procedimentos nunca foram no entanto completamente implementados", acrescenta o relatório. "Acabaram por ser monitorizados quanto à sua eficácia pelas Nações Unidas, que concluíram, no final de 2002, que os controlos existentes estão muito longe dos adequados para o comércio de diamantes."

Há apenas dois nomes identificados no dossiê do Banco Mundial e das Nações Unidas: Noé Baltazar, diretor da Endiama, e Isabel dos Santos.

EMPRESÁRIA DE SUCESSO

A licença da Ascorp seria suspensa em 2004, quando também os 75% que Isabel dos Santos detinha na TAIS foram transferidos para a sua mãe. Nessa altura, a filha do Presidente já estava dedicada ao início da sua carreira de empresária de sucesso como acionista de 25% do capital da Unitel, a primeira operadora móvel de Angola, colando-se como sócia à Portugal Telecom. A sua participação no negócio, através de uma sociedade chamada Vidatel, terá nascido, segundo uma fonte da Sonangol, da "subtração dos equipamentos" que a petrolífera angolana comprara para apetrechar a sua própria empresa de telecomunicações, a Mercury, numa época em que não havia licenças para operadores privados. Com o monopólio do mercado, a Unitel distribuiu mil milhões de euros de lucros nos últimos dez anos.

Confrontado pelo Expresso, um dos bancos em Portugal de que Isabel dos Santos é acionista, com 19% do capital social, sobre se o registo de uma pessoa na Stolen Asset Recovery Initiative não influencia os resultados do "dever de diligência reforçado" para com uma individualidade politicamente exposta, a administração do BPI respondeu que "o facto de alguém constar de uma destas listas releva para a análise feita pelo banco para efeitos da abertura e manutenção de relações de negócio com essa pessoa", acrescentando que o BPI cumpre "escrupulosamente todos os preceitos estabelecidos na lei sobre a prevenção e o controlo do branqueamento de capitais".

O Banco de Portugal, que tem a tarefa de fiscalizar o "dever de diligência reforçado" dos bancos, adianta, perante um pedido de esclarecimento do Expresso, que faz inspeções e que pode aplicar medidas corretivas e sancionatórias às entidades financeiras menos escrupulosas com o branqueamento de capitais, mas os relatórios dessas inspeções "estão cobertos pelo dever de segredo". De resto, ressalva o Banco de Portugal, "a lei não proíbe a concessão de créditos e a prestação ou aceitação de garantias bancárias no quadro de relações estabelecidas com pessoas politicamente expostas, dependendo tais operações das decisões das instituições de crédito, tomadas no âmbito da sua autonomia de gestão". A CMVM, que regula empresas com participações qualificadas em Portugal, não acrescenta muito mais do que isso.

Isabel dos Santos parece ter começado 2016 em forma. No Instagram, está de riso aberto, num vestido cintilante, na celebração do Ano Novo. Adotou a atitude persuasiva que tem demonstrado para os negócios. O BPI está a ponderar se aceita vender-lhe por 140 milhões de euros 10% do BFA, em Angola, onde ela já detém 49,9%, pelo que passaria então a ter o controlo da gestão do banco mais interessante no país.

Formalmente, a posição que Isabel dos Santos tem no BFA é representada pela Unitel, onde a empresária surgiu inicialmente como associada à Vidatel - o que deveria significar ter só 25% da operadora e, por isso, apenas um oitavo do BFA. Mas há um outro acionista, a GENI, detentora de mais 25% da Unitel, que tem sido representada ao longo dos anos pelo general Leopoldino do Nascimento mas cuja verdadeira dona é a filha do Presidente, arrastando consigo outros sócios minoritários.

Nada disto é oficial. Através da GENI, Isabel é acionista do Banco Económico, designação com que foi renomeado o BESA depois de o BES ter sido intervencionado em Portugal. E já era acionista do próprio BESA, embora uma fonte ligada ao antigo banco do grupo de Ricardo Salgado dizer que a empresária nunca se assumiu ou apresentou como tal.

Quem quer que seja o dono da GENI, parece ser uma pessoa com sorte. Em agosto de 2014, o BES, que era o acionista maioritário do BESA, chegou tarde a uma assembleia geral em Luanda e viu a sua posição reduzida quase a pó; a Portmill, associada ao general Helder Vieira Dias Kopelipa, foi engolida também pelo aumento súbito de capital para aguentar o banco de pé. Com a luz verde da Sonangol, o novo acionista maioritário, a GENI no entanto ficou. Mantendo os 19% de capital.

Em Luanda, há negócios cada vez maiores, e Isabel dos Santos parece estar ligada aos melhores. Mas como fazer para evitar as suspeitas de beneficiar sempre do instinto protetor do pai?