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20 imagens inéditas do fotógrafo que o patrão mandou à inauguração da ponte

Inauguração. No sábado 6 de Agosto de 1966, a Ponte Salazar era inaugurada. Esta imagem é uma das 38 fotografias tiradas por António Sousa Silva, hoje com 81 anos

Faz este sábado 50 anos que António Sousa Silva foi mandado pelo pai do fotógrafo Nuno Ferrari, dono de um estúdio fotográfico da baixa lisboeta, registar a inauguração da Ponte 25 de Abril. Era a maior ponte da Europa, e as imagens seriam históricas. Lá andaram por casa até um filho achar que mereciam ser divulgadas. Publicamos nesta edição 20 delas e no semanário deste sábado outras imagens desta série Neste fim de semana em que nos despedimos de um ano e nos preparamos para outro, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Quando chegou a Lisboa, aos 13 anos, sozinho, vindo de Vila Chã, concelho de Tábua, António Sousa Silva não tinha ideia nenhuma do que o destino lhe iria reservar. O seu primeiro trabalho foi numa mercearia, em Santa Iria de Azóia, mas não gostou - e calhou-lhe em sorte um segundo sustento que haveria de ser a sua paixão: um estúdio de fotografia, na Baixa Lisboeta, mesmo ao lado do elevador de Santa Justa. Naquele estúdio, o J. C. Alvarez, trabalhou de 1948 a 1969, o suficiente para aprender tudo o que sabe sobre o 'métier'. Começou como aprendiz, a carregar latas de químicos, dos reveladores aos fixadores. Era o estúdio fotográfico de Amadeo Ferrari, pai de Nuno Ferrari, que ficou conhecido como "o fotógrafo de Eusébio".

Foi a mando do patrão, que lhe arranjou o "salvo-conduto", que António foi fotografar a inauguração da Ponte Salazar, no sábado 6 de agosto de 1966. O objetivo era fazer uma montra para a loja, algo comum na época, sempre que havia uma ocasião extraordinária - como era o caso. A inauguração da Ponte Salazar, à época a maior da Europa, constituía um acontecimento estrondoso, a que poucos tinham o privilégio de assistir de tão perto. Por isso, António sentiu a felicidade e a honra de estar a assistir a um momento histórico. "Estava a viver uma situação inédita", resume António, hoje com 81 anos. Com a Rolleiflex do patrão, tirou 38 fotografias, a cores e em formato 6X6, que nunca viram publicação. Mostramos hoje 33 delas. As cinco restantes estão desaparecidas.

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Era um sábado quente de agosto. O dia 6 de agosto de 1966, que assinalou a inauguração da Ponte Salazar, após quatro anos de construção, começou às 10h30, com o hino nacional e uma salva de 21 tiros. Helicópteros da Força Aérea integravam a guarda de honra. O primeiro carro a atravessar a ponte era da Polícia de Trânsito e Viação; o segundo foi o carro presidencial com a mulher do Presidente, Américo Tomás; e às 13h04, o Mercedes-Benz preto, blindado, que transportava António de Oliveira Salazar. Só às 15h a ponte foi aberta à população.

Estavam muitos fotojornalistas presentes, recorda António, assim como dois carros da RTP, na altura, a única televisão existente. Impressionou-o a presença das autoridades, e a proximidade a que esteve de António de Oliveira Salazar, figura habitualmente recolhida, e que poucos Portugueses avistavam na realidade. Ali estava toda a elite governativa, do presidente da República, Américo Tomás, e à mulher, até centenas de militares. Houve um facto curioso para António: "Quando me aproximei do Cardeal Cerejeira para o fotografar, ele tirou os óculos, para ficar melhor no retrato", lembra.

Abençoada a ponte pelo então cardeal patriarca de Lisboa, depois de tocado o hino nacional, às 10h30 da manhã, e dos 21 tiros de ordenança terem sido disparados no forte de Almada, passaram os primeiros carros no tabuleiro da ponte: primeiro, um da Polícia de Trânsito e Viação, depois o carro presidencial com a mulher do Presidente, Américo Tomás, e as suas filhas e netos, e às 13h04, o Mercedes-Benz preto, blindado, que transportava o Chefe do Estado que dava o nome à ponte: António de Oliveira Salazar. A guarda de honra, helicópteros da Força Aérea e esquadrilhas de aviões a jato, rasgava os ares. O povo só atravessaria a ponte às 15h, e foi um Austin verde o primeiro automóvel a ficar na História por esse facto.

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Outro momento marcou António. O momento em que, percorrendo o tabuleiro da ponte a pé, na direção Almada-Lisboa, chegou à outra margem no exato momento em que as bandeiras descerravam as placas com a indicação de "Ponte Salazar". "Esse instante do cair da bandeira foi, para mim, a melhor fotografia. Foi um momento único - os outros fotógrafos estavam todos do lado de Almada..." Nesse instante, Oliveira Salazar carregava num botão elétrico, fazendo descer as bandeiras nacionais que cobriam as quatro lápides colocadas nos extremos da ponte. Na noite de 6 de Agosto, António chegou "maravilhosamente contente" a casa.

O ARTISTA RETRATADO De Rolleiflex ao peito, António Sousa Silva, com 30 e poucos anos, fotografado por Nuno Ferrari, para quem trabalhava. Hoje, tem 81

O ARTISTA RETRATADO De Rolleiflex ao peito, António Sousa Silva, com 30 e poucos anos, fotografado por Nuno Ferrari, para quem trabalhava. Hoje, tem 81

Durante a vida toda, manteve-se na atividade da fotografia. "Não me lembro do meu pai andar sem máquina fotográfica", conta o filho, Nuno Maia. Fosse a Rolleiflex, a Pentax, a Yashika ou a Nikon. Repórter por intuição, fixou centenas de imagens dos bairros de lata da Amadora, ou no outro extremo, paisagens de natureza. Tem mais de 200 taças de prémios ganhos em concursos de fotografia. Ainda hoje fotografa, "sobretudo natureza". Na busca do "momento exato".