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Uma espécie de milagre

rui duarte silva

Frederico Lourenço, Prémio Pessoa 2016, é um dos mais respeitados intelectuais portugueses e tem em mãos um projeto “saudavelmente radical” — a tradução da Bíblia a partir dos textos originais em grego Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre. E continua a sê-lo depois de recordarmos a geografia familiar donde provém: filho de M.S. Lourenço, um dos intelectuais portugueses mais excêntricos e fascinantes da última metade do nosso século XX; afilhado dileto de João Bénard da Costa; crescido entre uma tribo de criadores, melómanos de ouvido absoluto, curiosos vorazes e viajados; maturado nessa elite culta de espíritos disponíveis, inclinados para improváveis aventuras de liberdade, com um balanço constante e apaixonado entre artes, mística e política. Um berço desses tanto pode gerar genialidade como inaptidão completa. Frederico Lourenço é um lídimo herdeiro, claro, mas é também, como se pode imaginar, um admirável lutador, um self-made man, um sobrevivente.

Frederico Lourenço é uma espécie de milagre no contexto português. Pense-se no que ele teve de contrariar para entregar-se a empresas tão desproporcionadas, na ambição e no brilho, empresas no fundo tão humílimas e necessárias, como traduzir sem perder o fôlego o cancioneiro homérico, uma parte da lírica grega e agora adentrar-se no mare magnum que é o repositório bíblico. E realizar isso nas condições possíveis em Portugal, onde a erosão de uma área disciplinar fundamental como a dos estudos clássicos parece um desastre em vias de consumar-se. Certamente é fantástico aquilo que António Barreto sublinhou em nome do júri do Prémio Pessoa que agora lhe foi atribuído, e de que ele é inteiramente merecedor: “Frederico Lourenço é responsável por um fenómeno raro: tornou a ‘Odisseia’ e a ‘Ilíada’ best-sellers entre nós.” Mas como se faria outra justiça ao trabalho do nosso miglior fabbro se, por exemplo, as edições dessas obras pudessem ser ao mesmo tempo best-sellers e bilingues como noutras paragens? Ninguém como Frederico Lourenço lamenta que “a língua de Homero, Platão e do Novo Testamento se tenha tornado, em Portugal, aquilo que em três mil anos de história nunca chegou verdadeiramente a ser: uma língua morta”. Contudo, ele não desiste. Dá o seu melhor. Dá-nos chão. Amplia-nos. Transcende-nos.

Frederico Lourenço é, para quem quiser ver, um milagre em sentido absoluto. Em “Presenças Reais. As Artes do Sentido” (Presença, 1993), George Steiner propõe um território utópico: em vez da cidade dos comentadores, que nos curto-circuitam na tagarelice e na obsidiante espetacularidade, deveria antes emergir “uma cidade de pintores, poetas, compositores, coreógrafos, uma cidade de arte, de música ou de dança, tanto no espaço público como nas universidades”. Uma sociedade de intérpretes, de protagonistas que atravessam o ordálio de fogo da experiência, mais do que o grémio de críticos e analistas que se mantêm sempre a salvo. Ora, como lembra Steiner mais adiante, se a alguma arte se pode chamar interpretação é à tradução, inclusive na sua etimologia. E concretiza: “Não há estudo crítico da inspiração e dos limites do barroco que possa competir com as traduções do castelhano de São João da Cruz feitas por Roy Campbell. Nem nenhuma crítica literária poderá educar o nosso ouvido interior para as transmutações da música do sentido da língua inglesa melhor do que o faz a leitura das sucessivas versões de Homero nas traduções de Chapman, Hobbes, Cowper, Pope, Shelley, T. E. Lawrence e Cristopher Logue.” O que devemos a Frederico Lourenço? Apetece responder com as palavras que aqui George Steiner coloca à nossa disposição: ele educa o nosso ouvido interior para as transmutações da música do sentido. É nessa linha que se deve ler a explicação que Frederico Lourenço dá do seu mester em “Grécia Revisitada” (Cotovia, 2004): “Quando me perguntam a profissão e eu digo ‘professor de grego’, a reação é invariável: ‘Isto serve para quê?’ Houve tempos em que dei por mim a responder “não serve para nada”. Mas agora estou absolutamente convicto da seguinte resposta: ‘Serve para tudo.’”

A tarefa ciclópica do tradutor

Um dos textos mais esclarecedores sobre o ofício da tradução é a carta que São Jerónimo, o mais famoso tradutor da Bíblia, dirige ao seu amigo Pacómio, datada provavelmente de 395/396. A dedicação às traduções bíblicas deu a Jerónimo uma consciência aguda das dificuldades e problemas que um tradutor tem de enfrentar para não cair nem numa fantasia adulterante do original, nem num literalismo servil, igualmente desvirtuador. Todo o texto se revela mutante, um significante em perda no momento da tradução. E há que saber intervir. Por isso, Jerónimo desafia: “Se alguém não reconhece que a graciosidade de uma língua se altera na tradução que traduza palavra a palavra Homero para latim.”

Saber. Frederico Lourenço fotografado na Biblioteca Joanina, em Coimbra, sábado, 10 de dezembro, um dia depois de ter sido anunciado como vencedor do Prémio Pessoa 2016

Saber. Frederico Lourenço fotografado na Biblioteca Joanina, em Coimbra, sábado, 10 de dezembro, um dia depois de ter sido anunciado como vencedor do Prémio Pessoa 2016

rui duarte silva

De certa fora, como defende Paul Ricoeur, a tradução obriga-nos a caminhar por duas vias em simultâneo: por um lado, pede ao tradutor a capacidade de produzir um equivalente (a capacidade de criar numa língua uma realidade comparável ao que nos tinha sido dado noutra) e espera que ele mantenha o choque do incomparável (que é, de certa forma, a prova do estrangeiro ou do amigo: a preservação da distância na proximidade. Um texto só é bem traduzido se vir respeitado o seu carácter intraduzível). Isso mesmo vemos cunhado na sabedoria do antigo ditado rabínico que afiança: “Quem traduz literalmente é um falsário; quem acrescenta alguma coisa é um blasfemo.” Traduzir é, ao mesmo tempo, dizer e aceitar a impossibilidade de dizer. Por isso, ainda São Jerónimo, dá este testemunho: “Traduzi discursos notabilíssimos de dois oradores dos mais eloquentes da Ática, Ésquines e Demóstenes. Não os verti como simples transpositor, mas como homem de letras, mantendo o mesmo fraseado com as suas figuras de linguagem e de pensamento, em palavras correspondentes à nossa tradição.”

Ainda somos gregos

“Fazei a vós próprios esta pergunta — desejaríeis vós viver agora ou na Grécia Antiga?” Ricardo Reis, o mais helenista locatário do universo pessoano, tinha a convicção de que escolheríamos em bloco a Grécia Antiga, se restasse em nós um pingo que fosse de lucidez ou de sonho. Podemo-nos hoje rir, considerando Reis o émulo de um mundo e de um tempo irremediavelmente perdidos. Quem é que, no seu bom juízo, escolheria ser um grego antigo? A verdade, porém, é que não temos alternativa. No pensamento, na sensibilidade, na política, na abordagem do sagrado, na gramática, nos jogos, no informe psicológico e onírico que nos cartografa, dependemos dos gregos. Ou melhor, permanecemos gregos. E da cabeça aos pés, mesmo quando não damos por isso. Basta abrir um dicionário de grego: a experiência do mundo que vem plasmada naquela linguagem soa-nos despida de qualquer exotismo, sentimos a cada passo uma familiaridade, já vimos, já ouvimos, já vivemos anteriormente dentro daquelas palavras, e mesmo quando aparecem inevitáveis elementos de estranheza, eles nunca nos são completamente estranhos. Virginia Woolf dizia que “é ao grego que voltamos quando nos cansamos do modo vago e confuso da nossa época”. O grego antigo sabe ainda mais de nós que nós próprios. Frederico Lourenço gosta de repetir que “há apenas duas razões para aprender grego. Dá prazer. Alarga”. O transporte do que somos à vastidão a que aspiramos. O prazer do reconhecimento.

O grego enquanto língua

É bem curioso o destino do grego enquanto língua. Começou por ser o idioma de uma comunidade relativamente restrita e fragmentada, mas veio a constituir durante séculos o fator mais importante da identidade não só helénica mas do espaço europeu e ocidental. Sem uma organização política unitária (como seria, por exemplo, depois a do império romano) e sem guerras de conquista, a língua e cultura gregas difundiram-se amplamente e estabeleceram uma certa ideia de unidade, que ainda hoje reverbera. Claro que a Grécia afirmou-se com o exército de Alexandre, mas a língua não foi propriamente imposta. Dir-se-ia antes que acompanhou os conquistadores ao longo da metade oriental do Mediterrâneo como ponte lançada a uma recíproca relação. Mas teve de contar mais com as suas armas (a associação entre um poderoso efeito visual e uma capacidade de abstração completamente inovadora; a expressividade ágil que conseguia dar a um pensamento sofisticado; a elegância formal e a descrição meticulosa das tecnicidades emergentes no mundo de então) do que com a imposição de um poder político ou militar. E isto, com instrumentos que parecem muito simples. O recurso a um terceiro género, o neutro (para lá do masculino e o feminino) que substantiva qualquer noção tornando-a uma ideia universal e abstrata. O uso sistemático dos sufixos em “si” para indicar o nome de uma ação, poiesis — poesia, e em “ma” para referir o resultado, poiema, poema. Ou o modo próprio de descrever o tempo e o seu efeito sobre a vida humana que leva os verbos gregos a interessar-se não só pelo tempo em que uma determinada ação acontece mas também pelo modo e consequências do que acontece. A quem os estuda pela primeira vez, os verbos gregos parecerão anómalos, complicados e irregulares. Mas o seu desenho é um amplexo capaz de abraçar, como poucos, a vida, na sua multiforme coreografia.

A cicatriz de Ulisses

Quem um dia foi leitor da “Odisseia” lembrar-se-á para sempre da emocionante cena descrita no canto XIX: a velha ama de Ulisses, Euricleia, mistura a água quente com a fria enquanto fala ao viajante exausto e pensa tristemente no seu senhor ausente, que poderia ter a mesma idade daquele hóspede. Nisto observa que ele traz uma cicatriz na perna, exatamente como Ulisses, e deixa-lhe cair o pé na bacia, de emoção e sobressalto. A ama percebe tudo, e isso na narrativa é relatado com vagar e modelado com exatidão.

Se a “Odisseia” tivesse tido o mesmo destino de tantas obras da Antiguidade grega que desapareceram antes da invenção da imprensa, argumenta Frederico Lourenço, o nosso conceito de literatura seria muito diferente do que é hoje. Este livro que “apesar da sua idade vetusta de dois mil e oitocentos anos, lê-se ainda hoje como se tivesse sido composto ontem, ao nascer do sol”, operou como nenhum outro da tradição ocidental, excetuando a Bíblia, uma influência tão grande. Sem ele, talvez fossemos (ainda mais) estranhos a nós mesmos, talvez nos faltassem (ainda mais) as palavras para dizer a vida e a morte, a demanda e os regressos. Na transparência visual das palavras de Homero, palavras tão impressivamente próximas e vindas de tão longe, o próprio amor transita de desejo a visão: “Tal como a vista da terra é grata aos nadadores / cuja nau bem construída Posídon estilhaçou no mar / ao ser levada pelo vento e pelo inchaço das ondas / (...) assim, para Penélope, era grata a visão de Ulisses”. (“Odisseia”, trad. Frederico Lourenço, Cotovia, 2003).

Encontro marcado com a Bíblia

A aproximação entre a “Odisseia” e a Bíblia foi trabalhada por um dos ensaístas referenciais da contemporaneidade, Erich Auerbach. O seu volume “Mimesis. O Realismo na Literatura Ocidental” é ao mesmo tempo um dos livros de crítica literária mais influentes que se escreveram e um testamento deixado ao futuro. Quando a máquina do terror hitleriano perseguia e exterminava em massa os judeus, este judeu-alemão que ocupara já o prestigioso lugar de bibliotecário na antiga biblioteca prussiana de Berlim e dirigira a cátedra de Filologia românica na Universidade de Marburgo, erguia a sua voz para recordar a importância literária da Bíblia hebraica e o seu impacto irremovível na história da civilização. Inscrever a Bíblia na grande literatura parece hoje algo de tão óbvio, mas era no entanto uma tarefa por fazer, e Auerbach abraça-a. Ele vai então confrontar dois regimes literários identificando neles paradigmas fundamentais de vasto lastro na criação ocidental posterior: a “Odisseia” e a Bíblia. A grande surpresa é que, na comparação, a Bíblia sai a ganhar. Na economia das narrações bíblicas, há uma profunda (e, diga-se, conseguida) intencionalidade artística e uma conceção muito elaborada do real. Nos poemas homéricos o destino das personagens está claramente fixado. Ocorrem as peripécias mais díspares, irrompem paixões violentas, enunciam-se perturbações e desfechos — mas tudo dentro daquela linearidade dos enredos pré-determinados. Basta pensar que a grande odisseia do herói grego é uma viagem de regresso à sua própria casa, enquanto que a fundadora viagem que a Bíblia narra é o envio de Abraão para uma terra desconhecida, só divisada pela promessa desmesurada de Deus: “Ergue os olhos e olha, do lugar em que estás, para o norte e para o sul, para o oriente e para o ocidente. Toda a terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua posteridade para sempre” (Gen 13,14-15). O texto helénico é restrito e estático, e coloca a existência heroica a desenvolver-se nos limitados confins de um mundo senhoril. Na Bíblia, o enquadramento social é mais extenso e diversificado. São heróis o rei e o servo; o sacerdote, o profeta, a mulher, o guerreiro e o pastor. Todos os componentes da sociedade aparecem representados. E o sublime tem por expressão um realismo quotidiano.

Um outro ponto de distinção, observado por Auerbach é a construção das personagens. Em Homero só raramente é percetível a complexidade psicológica, a fina película que deixa entrever os contrastes da sombra e da luz, a ondulação interior, indireta e lacerada de figuras bíblicas como Saul, David ou Absalão. As personagens da Bíblia são narrativamente desenhadas com uma incerteza maior de consciência e de destino. A sua presença não é tornada circunscrita, não gera um retrato exaustivo. Às vezes basta um traço, um detalhe, uma pulsão da personagem, alguma coisa que se entrevê na distância, para recolher isso que cada um é de único. As personagens do mundo homérico são, sem dúvida, melhor descritas, mas as da Bíblia conservam uma impenetrabilidade, o que as torna mais concretas, mais próximas do real.

Livro sagrado para crentes de mais de uma religião, superclássico da literatura, chave indispensável de decifração do pensamento e da história, objeto interminável de curiosidade, receção e estudo, a Bíblia é incontornável. Mais do que um livro, é uma biblioteca: pode ser lida como cancioneiro, livro de viagens, memórias de corte, antologia de preces, cântico de amor, panfleto político, oráculo profético, correspondência epistolar, livro de imagens, texto messiânico. E colada a esta humana palavra... a revelação de Deus. Na modernidade europeia, a Bíblia tornou-se, além disso, o nó fundamental para a reconfiguração das relações entre a experiência religiosa e a consciência individual. O seu debate atravessou o interior de comunidades e pertenças, deslocou o traçado dos valores, implodiu e inaugurou conhecimentos, numa composição imprevista que continua o seu caminho. Não é, assim, de estranhar aquilo que lembra Frederico Lourenço no prefácio ao primeiro volume da Bíblia (“Novo Testamento. Os Quatro Evangelhos”, Quetzal, 2016): a tendência internacional crescente nas grandes universidades (Harvard, Yale, Princeton, Oxford, etc.) para que a Bíblia esteja cada vez mais presente como matéria de estudo, perspetivada de uma forma não-confessional. E que ele próprio justifique deste modo a empreitada a que agora se lançou: a Bíblia é “um marco da cultura universal que — pelo seu valor religioso, estético e histórico — urge conhecer”.

O projeto radical de Frederico Lourenço

O projeto de Frederico Lourenço é saudavelmente radical. Radical tanto na extensão (quantas infinitas jornadas de solitário trabalho o aguardam!) como na compreensão do objeto que escolheu traduzir. Há um lado temerário, de ardente aventura, na história do académico que se abandona ao gigantismo de uma tarefa deste género. Ele explica que a sua ambição se concentra na materialidade linguística do texto bíblico: “O intuito desta tradução é que se possa perceber, em português, exatamente o efeito que as frases têm em grego.” O que faz todo o sentido. Como diz o provérbio cunhado pelo humanista reformador Philipp Melanchthon, “Scriptura non potest intelligi theologice, nisi antea intellecta sit grammatice” (“a Escritura não pode ser compreendida teologicamente, se antes não for compreendida gramaticalmente”). Mas para decifrar a semântica de um texto que é cem por cento religioso não se pode ficar apenas pela gramática: é ingente recorrer a uma biblioteca teológica monumental. Como mostram já, aliás, as notas de Frederico Lourenço neste volume.

Tradução. Frederico Lourenço está a traduzir a Bíblia a partir dos textos originais em grego, um projeto que o ocupará nos próximos anos

Tradução. Frederico Lourenço está a traduzir a Bíblia a partir dos textos originais em grego, um projeto que o ocupará nos próximos anos

rui duarte silva

Por outro lado, é igualmente radical a abordagem que Frederico Lourenço faz à língua do Novo Testamento, na linha, diga-se, de nobilíssimos estudiosos anteriores como A. Deissmann ou A. Thumb. E o tradutor é perentório: “Um mal-entendido que convém desde já esclarecer é a suposição, errónea (repetida por biblistas que desconhecem a forma como atualmente se encara a história da língua grega no âmbito da Filologia Clássica), de que o grego em que foi escrito o Novo Testamento é um grego diferente da língua que foi utilizada (a título de exemplo) por Aristóteles, Platão ou Xenofonte. Não é. A língua em que escreveram Mateus, Marcos, Lucas e João é a mesma dos autores helénicos de séculos anteriores (e posteriores). É grego.” É verdade que deixa espaço para alguma matização do seu juízo aceitando que “os quatro evangelistas estavam naturalmente sob a influência de um ambiente linguístico que não era cem por cento helénico” (justificando assim algumas marcas semíticas de estilo). Mas garante: “Houve toda uma vivência mental no espírito destes homens que aconteceu, não em hebraico, mas em grego»”

É uma questão apaixonante e complexa, se não mesmo insolúvel. Outros ouvidos, e não propriamente de biblistas devotos, como os de Giorgio Agamben, colhem, por exemplo, por detrás do grego de Mateus e de Marcos, múltiplos indícios de uma língua de tradução, uma latência e um ritmo provenientes do aramaico. E Agamben conta uma história referida por Jacob Taubes, o eminente filósofo judeu, autor da “Escatologia Ocidental”: “Certo dia durante a guerra, passeava, em Zurique, com Emil Staiger, que era ótimo helenista. Caminhávamos ao longo da Ramistrasse, quando Staiger confessa: ‘Sabe, Taubes, li ontem as cartas do apóstolo Paulo.’ Depois acrescenta com profundo desgosto: ‘Aquilo não é grego, é hebraico!’ Ao que retorqui: ‘Certamente, professor, é exatamente por isso que eu o entendo.’”

A verdade é que se está a dar ainda os primeiros passos no conhecimento do grego pós-clássico, seja o grego literário seja o popular, e só isso poderá dar ao grego bíblico a sua justa colocação. Possivelmente, como defende Agamben, o grego do Novo Testamento não é bem grego, nem bem hebraico; não é bem língua sagrada nem profana — e é precisamente daí que brota o seu interminável fascínio.

Mas, para todos os efeitos, a tomada de posição de Frederico Lourenço é um extraordinário benefício para os leitores do Novo Testamento. Creio mesmo que quanto mais radical ele for melhor. Coloco-me, por isso, do lado daqueles que esperam que Frederico Lourenço reforce ainda mais nos próximos volumes a forte marca autoral da sua tradução. Nenhuma tradução, por si só, transmitirá a torrente verbal, o infinito de linguagens, a proliferação de ritmos, a montanha santa de paradoxos, a sofisticadíssima vibração semântica ou até aquilo que o romancista Julien Green apelidava de “bárbara beleza” a propósito da Bíblia. A Bíblia precisa sim de múltiplas traduções, operadas de pontos de vista diferentes, e dessa complementaridade (e mesmo desse conflito) é que uma compreensão mais ampla se pode tecer. Gregório Magno, o último dos padres da Igreja do Ocidente, como habitualmente é chamado, dizia uma das frases hermenêuticamente mais certeiras: “Scriptura cum legentibus crescit” (“A Escritura cresce com os que a leem”).

O gesto intensíssimo e maravilhoso de Frederico Lourenço faz-me tornar ao que o escritor Oscar Wilde conta em “De profundis”, e com isso termino: “No Natal, consegui apoderar-me de um Novo Testamento em grego, e todas as manhãs, depois de ter limpo a cela e de ter polido os pratos, leio um pouco dos Evangelhos... Nós perdemos a naveté, a frescura e o encanto dos Evangelhos. Ouvimos lê-los demasiadas vezes, e mal demais, e toda a repetição é antiespiritual. Quando regressamos ao grego, é como se entrássemos num jardim de lírios, depois de sairmos de uma casa estreita e escura.” Razão para concluir: quando nos vemos gregos é que nos vemos.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 17 de dezembro de 2016