Siga-nos

Perfil

Expresso

Arquivos Expresso

Em busca do paraíso perdido

Nicolas Guerin/Contour by Getty

Será este ano que Leonardo DiCaprio vence um Óscar? A popularidade de "O Renascido", filme pelo qual conseguiu a quarta nomeação como Melhor Ator, coloca-o na linha da frente dos favoritos. Mas a sua guerra é outra: as alterações climáticas Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

TEXTO STEPHEN RODRICK*

Os pais de Leonardo Wilhelm DiCaprio puseram-lhe um quadro por cima do berço no bairro de Los Angeles onde viviam - o abandonado East Hollywood dos anos 70 - quando ele era bebé. O quadro não era um fotograma de Peter Rabbit ou de Curious George. Não, era uma reprodução do tríptico do pintor holandês Hieronymus Bosch, "O Jardim das Delícias Terrenas", uma descrição visual distópica do Éden a ser encontrado e perdido. É uma das primeiras memórias de DiCaprio.

"Vê-se literalmente Adão e Eva a receber o Paraíso", diz DiCaprio, com os seus olhos azuis a espreitar sobre os óculos escuros num restaurante de Miami Beach que de algum modo conseguiu pôr "SoHo" no nome. Por baixo da mesa, calça e descalça os seus mocassins. Por um momento, distrai-se. Acabou de gravar uma entrevista para um filme sobre alterações climáticas que está a fazer (título de trabalho: "Estamos Fodidos?"). Já esteve nas planícies aluviais da Índia e na calote polar da Antártida e agora não anda longe dos recreios em Miami, onde se conta que um dia saiu de um nightclub com todas as mulheres da secção VIP. Tudo, segundo DiCaprio, pode ser levado pela água.

Oscar. Será desta que DiCaprio acerta no coração dos membros da Academia?

Oscar. Será desta que DiCaprio acerta no coração dos membros da Academia?

Regressa à pintura. "Então, vê-se no meio esta superpopulação e este excesso, pessoas a gozar os frutos que este ambiente nos deu." Solta uma gargalhada triste, pontuada pelo 'sorriso DiCaprio', que pode ser confundido com escárnio. "E o último painel é apenas céus chamuscados, pretos, com um apocalipse carbonizado." Detém-se um segundo antes de encolher os ombros. "Era o meu quadro preferido."

A meio caminho entre mãe e criador, Leonardo DiCaprio encontra-se, não tristemente, entre a luz brilhante da sua vida - um Óscar a aproximar-se, uma coleção pessoal de fósseis, um [carro elétrico] Tesla alugado com chofer - e a negrura do mundo sobreaquecido onde coabita com republicanos negativistas e a linha costeira do Bangladesh, um quarto da qual poderá encontrar-se debaixo de água em 2050. Ele quer afastar-nos completamente dos combustíveis fósseis e pergunta onde poderíamos estar se tivéssemos gasto milhares de milhões de dólares em energias renováveis em vez de o termos feito na Guerra do Iraque.

"Ele tem uma agitação intelectual", diz o seu colaborador de longa data Martin Scorsese. "Devora livros e textos e informação."

Um amigo diria a DiCaprio para relaxar, mas isso não vai acontecer. "Há muito poucos civis com a mesma compreensão das alterações climáticas que este tipo tem. O Leo é um entusiasta", garante o ator Mark Ruffalo, que acaba de juntar forças com DiCaprio no Solutions Project, um grupo de cientistas e estrelas de cinema que espera conseguir levar toda a América a usar energias renováveis. "Ele está a arriscar a sua imagem."

A perspetiva de 'vida brutal e curta' de DiCaprio tem permeado as suas escolhas fílmicas depois de "Titanic", em especial o seu trabalho com Scorsese, desde "Gangs de Nova Iorque" até "O Lobo de Wall Street". Agora é protagonista de "O Renascido", a história negra do caçador Hugh Glass, cujo corpo é desfeito por um urso muito zangado e que perde a família por causa da maldade do homem branco (para tornar tudo pior, tem de andar com uma barba à Moisés pelo pescoço).

Glass acaba por ser traído por um homem com metade do escalpe. É abandonado como morto, mas consegue montar um cavalo até cair num desfiladeiro. Dorme na carcaça do animal e mastiga fígado de bisonte para sobreviver. Durante semanas, permanece mudo. Estes são os momentos ligeiros, por entre flechas a rebentar com artérias e facas a arrancar testículos. Durante a filmagem 'fitzcarraldesca' nas [montanhas] Rockies canadianas e na Argentina, o realizador Alejandro González Iñárritu foi substituindo membros da equipa. Iñárritu conta que, nos intervalos, ele e DiCaprio mastigavam as próprias barbas para passar as horas.

Após essa experiência, que tal arranjar uma comédia estilo "Apanha-me Se Puderes" para Di-Caprio? Era o que faltava.

Nomerações I Os filmes que levaram Leonardo DiCaprio à corrida aos Óscares: “O Aviador”, Melhor Ator, 2005

Nomerações I Os filmes que levaram Leonardo DiCaprio à corrida aos Óscares: “O Aviador”, Melhor Ator, 2005

"Adorava fazer algo ainda mais negro", diz DiCaprio com um sorriso malandro. Ele sabe que parece um pouco maluco. "Não sei, por exemplo, como se entra na mente de alguém como Travis Bickle em 'Taxi Driver'. Há uma palavra em alemão que não tem equivalente na língua inglesa, Schadenfreude. Significa humilhação para outas pessoas." Faz um sorriso de desprezo. "É o que vejo às vezes quando olho para certos políticos, mas pode ser feito em filmes, como quando o Travis Bickle leva a Cybill Shepherd ao cinema porno na primeira vez que saem juntos. E nós pensamos: 'Oh, Deus, por favor, não faças isso'."

Nem tudo é tão deprimente. Ainda há jovens starlets, mergulhos com garrafa e industriais amigos chamados Vlad com iates enormes. Pergunto-lhe mais tarde se tem receio de se afundar no crepúsculo, como um certo personagem de um filme sobre um barco de cruzeiros amaldiçoado em 1912.

"Esforço-me bastante para criar um equilíbrio."

Com sucesso?

"Veremos."

Pede desculpa e levanta-se. É tempo de saltar para um helicóptero e ir ver o alastramento suburbano que ameaça os Everglades [um parque natural da Florida]. Tira uma fumaça num vaporizador em forma de cachimbo, exalando um cheiro a xarope de ácer que me faz desejar panquecas. Puxa um boné sobre os olhos e escapa-se pela porta de serviço do restaurante. O seu Tesla com chofer segue para o aeroporto. Um tipo que ficou na retaguarda fala para um aparelho no pulso, provando sem querer que Leonardo DiCaprio não é apenas um homem mas também uma matéria-prima orgânica que pode ser usada para o bem ou para o mal.

"A encomenda deixou o edifício. Repito: a encomenda deixou o edifício." Eis a pergunta temporária na mesa: será este o ano em que Leonardo DiCaprio finalmente ganha um Óscar, após quatro nomeações?

"Claro, toda a gente gosta de ser reconhecida, mas não está nas minhas mãos - outras pessoas controlam essas coisas", diz-me DiCaprio enquanto se prepara para uma entrevista com um especialista em furacões. "Digo apenas que ajudaria o filme, levá-lo-ia a mais pessoas."

"O Renascido" é como guacamole gratuito para críticos de cinema famintos, com Iñárritu (realizador de "Birdman") ao leme e o melhor diretor de fotografia do mundo, Emmanuel Lubezki, a filmar cenários que são mais Malick do que Terrence Malick. Mas pode ser difícil convencer a clientela a gastar dez dólares no multiplex de West Des Moines em noite de engate. Existem apenas duas personagens femininas. Uma é assassinada, a outra violada por um grupo de caçadores franceses. O filme dura 156 minutos, e depressa se torna evidente que qualquer homem branco que não se chame Hugh Glass fará as piores escolhas morais que se possam imaginar. Mas a performance de DiCaprio aguenta esta paisagem infernal. (Quando Iñárritu o viu com a sua longa barba, exultou: "Este homem é um caçador do caralho.") DiCaprio permanece bastante tempo em silêncio durante o filme, um feito mais difícil do que parece.

"Ele usa o seu corpo ferido e um par de olhos para transmitir imensas emoções em sequências de seis ou oito minutos", revela Iñárritu. "Tem de nos fazer crer que está ferido, que está destroçado, que está zangado, que está sem esperança... Sem uma palavra, temos de entender o que este gajo está a sentir e a pensar." Há uma cena onde DiCaprio encontra o filho morto e fica devastado. Mas ouve um corvo a grasnar algures nas árvores. Podemos vê-lo a absorver a vida e a morte simultaneamente.

Nomeações II “Gilbert Grape”, Melhor Ator Secundário, 1994

Nomeações II “Gilbert Grape”, Melhor Ator Secundário, 1994

"Estava a interagir e a ouvir cada bocado da natureza e do vento", recorda Iñárritu. "É a coisa mais difícil de fazer, e, no momento em que o fez, eu disse: 'Este gajo está realmente presente. Tem este ritmo, e controla esse ritmo'."

Para DiCaprio, as raízes de "O Renascido" e do seu trabalho ambiental remontam a um encontro com o então vice-presidente Al Gore em 1998. DiCaprio crescera com um fascínio por criaturas extintas - uma vez impressionou o dr. Kirk Johnson, diretor do Museu Nacional de História Natural, com o seu conhecimento sobre uma ave há muito desaparecida, a alca-gigante, caçada até à extinção no século XIX.

"Lembro-me de que aquilo que mais me entristecia em pequeno era a perda de espécies resultante da intrusão da Humanidade na natureza", diz DiCaprio, cuja casa em Los Angeles alberga uma enorme coleção de fósseis. Refere três espécies, entre as quais uma de que eu nunca tinha ouvido falar: "Como o quaga, ou o tigre da Tasmânia, ou o pássaro dodô..."

"Titanic" foi estreado em 1997, e DiCaprio passou de ator promissor da sua geração a um dos rostos mais famosos do planeta. Houve as notícias da praxe sobre comportamento vulgar e uma sucessão de namoradas que eram modelos, algumas das quais ainda andam pelos tabloides, mas ele continua solteiro. Pode-se falar-lhe sobre isso, mas ele é evasivo: "Eu gostava do tempo em que se ia ver um filme e não se sabia tudo sobre o ator."

Tal como Warren Beatty, Robert Redford e Paul Newman antes dele, DiCaprio ansiava por ser visto como algo mais do que um conquistador de mulheres. Um amigo arranjou-lhe um encontro com Al Gore. O vice-presidente esboçou o estado do planeta e da atmosfera num quadro, dizendo ao ator: "Quer envolver-se em assuntos ambientais? É a coisa mais importante para a Humanidade e para o futuro."

Ao princípio, foram só presenças em eventos do Dia da Terra e a ocasional conferência, e a seguir houve a narração do seu filme sobre alterações climáticas, "A 11ª Hora", em 2007. Mas, na última década, a paixão passou a obsessão. "Estou consumido por isto", confessa DiCaprio. "Não há um único momento do dia em que não esteja a pensar no assunto. É este fogo lento. Não é 'extraterrestres vão invadir o nosso país na próxima semana e temos de nos erguer e lutar para o defender', mas é esta coisa inevitável, e é aterrorizante."

Há uns anos, DiCaprio encontrou-se com um amigo casual, o ator Fisher Stevens, em tempos conhecido como o 'ex' de Michelle Pfeiffer e a estrela etnicamente duvidosa de "Curto-Circuito 2" mas agora um produtor de documentários bem-sucedido. Os dois tinham retomado contacto quando foram filmar os recifes das Galápagos, que estão a desaparecer. O evento ficou memorável pelo mau funcionamento de uma botija de mergulho durante a filmagem, com DiCaprio a procurar desesperadamente alguém que o ajudasse a voltar à superfície. Claro que encontrou [o ator] Edward Norton, que partilhou ar com ele enquanto os dois subiam devagar para evitar os efeitos da descompressão.

Stevens e DiCaprio falaram em fazer um filme sobre alterações climáticas onde DiCaprio aparecesse como um homem numa busca global pela verdade. Seria em partes iguais gonzo, absurdo e com testemunhos arrepiantes de cientistas e líderes. (Há uma certa qualidade Joaquin Phoenix nele, com DiCaprio, completamente desgrenhado como em "O Renascido", a entrevistar um imaculado Bill Clinton com a paisagem de Nova Iorque por trás.)

Justamente quando estava a começar a pré--produção para o documentário, chegou o financiamento para "O Renascido". Mas, em vez de renunciar a um dos projetos, DiCaprio decidiu ver uma certa simetria entre Hugh Glass, que representa um homem na frente de batalha da destruição da Terra e do extermínio de outras culturas pelo Ocidente, e o documentário, que se passa dois séculos depois, quando o mundo recebe a 'conta' por todas as violações e pilhagens. Os laços intensificaram-se quando o ator visitou os infernais campos de areia betuminosa que ficam algumas horas a norte dos avassaladores rios e montanhas que servem de cenário a "O Renascido". Entretanto, a filmagem era constantemente bloqueada pela falta de neve, com Alberta a 'desfrutar' o verão mais quente desde que há registos. As ligações punham Iñárritu e DiCaprio a abanar a cabeça devido aos múltiplos atrasos.

"Era um universo paralelo", recorda Iñárritu. "Discutimo-lo bastante. Fazia medo ver como tudo começou neste país. E agora estamos a sofrer 200 anos de consequências por isso. Era um espelho. Era divertido e aterrorizador."

"Fomos para lá com o propósito de descobrir alguma coisa e ver o que a natureza dizia", explica DiCaprio sobre a filmagem. Abre e fecha as mãos em frustração. "Nunca foi diretamente articulado, mas era tipo: 'OK, o que acontece se nos pusermos a nós próprios nos elementos?, o que vamos descobrir?' A impressão com que fiquei foi esta mensagem louca da natureza a lutar e essencialmente a parar a produção." Mais tarde, disse sem rodeios: "A grande questão é: será demasiado tarde?"

Nomeações III 1994 “Diamante de Sangue”, Melhor Ator, 2007

Nomeações III 1994 “Diamante de Sangue”, Melhor Ator, 2007

À medida que o documentário viaja de um lugar global deprimente para outro, Stevens tem por vezes de lembrar a DiCaprio para não se deixar levar demasiado pela falta de esperança. "Sou muito mais a luz e ele o escuro", confessa Stevens com um sorriso. "Estou sempre a dizer: 'Não sejas tão pessimista, homem. Se fazemos um filme em que mostramos que já é demasiado tarde, para que é que o fazemos?'" Stevens sorri com esperança. "O Leo percebe."

Veremos. DiCaprio tem a palavra final na montagem.

É o domingo após o Dia de Ação de Graças, e Miami Beach encontra-se num interlúdio sonolento entre o peru e as hordas que vão acorrer dentro de dias à Art Basel, que é uma espécie de Sundance [um festival de cinema independente] para o pessoal da arte. Stevens e a sua equipa estão na Câmara Municipal, no escritório do mayor Philip Levine, para lhe perguntar de que modo a subida das águas ameaça a cidade (uma linha de perguntas inspirada em parte por um artigo de Jeff Goodell na "Rolling Stone"). DiCaprio chega com ar cansado, vestindo uma camisa de manga curta azul com pintas e jeans descaídos que deixam ver uns shorts azul-bebé. Estica-se teatralmente.

"Acho que dormi de mais a noite passada."

Stevens ri-se. "Seria a primeira vez."

DiCaprio tem dois tipos de obrigações, uma vez que detalhes de "O Renascido" começaram a tornar-se públicos e a sua equipa tem de acabar com os rumores de que ele foi sexualmente assaltado por um urso pardo numa das passagens sangrentas do filme ("Não foi o que aconteceu"). A seguir, um blogger cinéfilo veterano escreveu que adorou "O Renascido" mas que as mulheres não aguentariam o festim sangrento. "Acho que isso é tonto, porque as mulheres com quem falei gostaram realmente do filme", diz DiCaprio.

Após uma sessão rápida no cabeleireiro, DiCaprio muda para o registo de guerreiro ambientalista. Stevens dá-lhe uma lista de perguntas, mas ele em boa parte improvisa. Primeiro, DiCaprio e Levine falam de amigos comuns, incluindo o bilionário de construção russo Vladislav Doronin.

"O nosso bom amigo comum Vlad manda dizer olá", declara Levine, antes de contar uma história sobre Doronin a oferecer-se para o levar a dar um mergulho no oceano e ele a brincar sobre o seu medo de não voltar.

"O Vlad é muito divertido", admite DiCaprio, acrescentando quanto aprecia os Aman Resorts de Doronin, discretas instalações de sete estrelas espalhadas pelo globo.

Então começam a falar. DiCaprio pergunta a Levine se está preocupado com a queda nos preços do imobiliário.

"Não vou presidir a Miami Beach e vê-la tornar-se Veneza", diz Levine. "Acho que o valor das propriedades vai continuar a subir."

DiCaprio não concorda, revelando que já se livrou da sua casa na praia: "Não quis arriscar."

Levine quer mostrar a DiCaprio algum do trabalho que o resort de luxo está a fazer para diminuir o impacto da subida das marés, pelo que nos metemos no Tesla enquanto Levine viaja num SUV preto. DiCaprio compreende que nenhum mayor vai aparecer em público a dizer: "Vendam o vosso andar, estamos lixados", mas não partilha o otimismo dele. "Sabe o que estão agora a fazer?", pergunta. "Estão a construir arranha-céus em sítios em que a entrada pode ficar alagada mas o resto do edifício simplesmente fica ileso. Mas ele tem razão: os preços vão continuar a subir. É inacreditável."

Paramos numa zona de ruas onde a cidade ergueu uma barreira com mais de um metro de altura para travar o avanço do mar. Os dois são filmados a andar e a falar. Pessoas a tomar o seu brunch olham estarrecidas e começam a segui-los a uma distância segura.

Finalmente, chegamos à praia - e é luxuosamente horrível. O nível da água é quase igual ao dos cais dos barcos, tornando irrelevantes as escadas que entram no oceano. DiCaprio e Levine caminham sobre um ténue paredão e olham sobre a baía até ao ponto onde, por coincidência, o iate do amigo comum Vlad brilha na luz matinal. O mayor admite que a cidade precisa de 400 milhões de dólares para construir novos paredões e um sistema de bombas e para elevar as estradas. E essa quantia nem sequer inclui areia das Baamas.

DiCaprio quase cospe.

"As Baamas?" O mayor acena e diz que a areia das Baamas pode ser mais barata do que a americana.

Durante uma pausa na entrevista, DiCaprio aponta para um cavalheiro de idade, bronzeado, a pentear o seu vistoso cabelo prateado na varanda de um arranha-céus próximo.

"Olhe para aquele tipo. Não faz ideia do que se está a passar", comenta. DiCaprio observa-o fascinado durante um momento e faz uma piada. "Provavelmente, sabe que em breve estará morto e não vai ter de se preocupar." Despede-se sombriamente do mayor e atira a sua grinalda de bonés e botões de punho de Miami Beach para a bagageira do carro.

Instala-se no banco de trás do Tesla.

"As Baamas, ouviram?"

A conversa segue para lugares como o Bangladesh, que não tem dinheiro para lidar com a subida das águas. "A história das alterações climáticas vai consistir nos países com mais poder militar a proteger os seus recursos", garante DiCaprio, chupando o vaporizador. "Os milhares de milhões de pessoas que não contribuíram para este problema serão os primeiros a sofrer."

Nomeações IV. “O Lobo de Wall Street”, Melhor Ator, 2014

Nomeações IV. “O Lobo de Wall Street”, Melhor Ator, 2014

Lá em cima, o sol tenta furar por entre nuvens matinais e iluminar o telhado opaco do Tesla. Não consegue.

A imagem de DiCaprio como um libertino vazio a ingurgitar o seu próprio jardim das delícias terrenas - que se tem mantido desde que andava, nos anos 90, com um bando de rufias chamado depreciativamente Pussy Posse - não é mais verdadeira nem mais falsa do que a de outros atores que o antecederam, como Redford e George Clooney. (Di-Caprio terminou recentemente uma relação com a modelo Kelly Rohrbach, segundo relatos; antes disso, o melhor rumor referia um caso passageiro com Rihanna.) Houve affaires sórdidos? Talvez, mas DiCaprio era e é solteiro, e podem-se ver affaires sórdidos no Buffalo Wild Wings na quinta-feira à noite. E ele acabou por pagar por isso: em 2005, teve de levar mais de uma dúzia de pontos na sua cara de um milhar de milhão de dólares quando, numa festa em Hollywood Hills, uma ex-modelo a cortou com um vidro, um golpe que talvez se destinasse a outra pessoa.

Para lá dessa reputação tem estado um ator dedicado à sua arte desde a tenra adolescência. DiCaprio foi criado em parte por um artista underground, o pai, George DiCaprio, autor e distribuidor de banda desenhada. Leo cresceu em Los Angeles, viu drogados nos becos e prostitutas no hotel vizinho. Após uma passagem feliz por uma escola progressista perto da UCLA, regressou ao liceu do seu bairro, onde foi regularmente espancado.

"Eu era um pouco fala-barato e estava num ambiente em que os elementos se alinhavam para que os miúdos me chegassem a roupa ao pelo de vez em quando", diz-me com um sorriso.

Encontrou refúgio nas aulas de teatro e começou a ir a audições, incentivado pela mãe, a sua apoiante e crítica mais paciente. (Sabe-se que critica a autenticidade do guarda-roupa dos filmes do filho.) Houve provas abertas, um anúncio da Matchbox e um ano em que não foi escolhido para nada. Em vez disso, meteu-se no quarto e passou o tempo a ver filmes sob a direção do pai, desenvolvendo um gosto por obras como "A Leste do Paraíso" e "Um Rosto na Multidão".

Ele sabia que o que queria era representar e começou a fazer amizades nas audições com outros sonhadores, tais como Tobey Maguire. "Fiz muitos amigos novos ao longo dos anos, mas mantenho alguns desde há 25 anos", revela DiCaprio. "Há um nível de conforto inerente que não pode ser duplicado nem fabricado. Não tenho de contar as novidades - eles estão a par."

Nos anos 90 houve a sitcom "Growing Pains", da ABC, em que fez de rapaz sem casa, um clássico papel para aumentar as audiências. Mas tudo mudou quando venceu Maguire e outros atores na competição para o protagonista de "A Vida Deste Rapaz", a par com Robert De Niro. O pai de DiCaprio tinha levado o filho a ver um filme de De Niro, "Fuga à Meia-Noite", e disse-lhe que se queria ser ator era para aquele que devia olhar. DiCaprio achou que tinha estragado a audição ao gritar as falas, mas De Niro apreciou-lhe a intensidade.

De Niro recomendou DiCaprio a Scorsese, e quando o ator e o realizador trabalharam juntos pela primeira vez, em "Gangs de Nova Iorque" (2002), foi um DiCaprio de 26 anos que enviaram a casa de Daniel Day-Lewis em Nova Iorque para o aliciar a interromper o seu retiro. DiCaprio sentou--se com ele num banco do Central Park e esperou em silêncio que Daniel tomasse a iniciativa.

DiCaprio é cauteloso a respeito do próximo filme, mas anda à procura de um projeto que tenha a ver com a sua política. Sonha lançar o documentário em simultâneo com o vídeo de "O Renascido" e já comprou os direitos de um livro ainda não escrito sobre o escândalo de emissões da Volkswagen. Há um grande filme narrativo para ser feito sobre o ambiente, insiste DiCaprio. É só uma questão de arranjar o projeto certo.

"Ainda não descobri como, mas adorava fazer algo que não seja sobre ondas a chocar contra o Empire State Building", diz.

Estamos a comer num restaurante chique de Miami. Uma menina entra, mas nem repara que está ali uma das estrelas de cinema mais famosas do mundo. DiCaprio tira os óculos de sol e solta um longo "aaahh". Pergunto-lhe se vê tempo na sua vida para uma família. Ele responde abruptamente pela única vez durante os dois dias que passámos juntos.

"Quer dizer, se eu quero trazer crianças para um mundo como este? Se acontecer, acontece.
Prefiro não ser específico sobre isso, porque depois torna-se algo que é mal citado. Mas sim." Mexe-se desconfortavelmente na cadeira. "Não sei. Dizer como me sinto em relação a isso vai ser mal entendido."

Uma coisa é certa: não se vai reformar e prender-se ao portão de uma instalação da BP. Tem de arranjar uma estratégia.

"Um amigo meu desafiou-me: 'Bem, se és assim tão apaixonado pelo ambientalismo, deixa a representação.' Mas depressa compreendemos que uma mão aperta a outra, e ser um artista dá--nos uma base." E estende as mãos abertas. "Não que as pessoas levem necessariamente a sério o que quer que seja que eu diga, mas ser ator dá-me uma voz."

Uma tarde, DiCaprio vai no Tesla a caminho de outro compromisso e quer deixar uma coisa muito clara.

"Isto não é a minha vida", afirma, vestido com a mesma roupa do dia anterior para dar continuidade às filmagens. Olha diretamente para mim. "Não sou seguido por publicistas, seguranças, motoristas e tudo isso. Não é a minha vida no dia a dia - é a minha vida profissional."

A conversa vira para o que gosta de fazer: mergulhar em locais exóticos. Já foi à Austrália, às Galápagos e a múltiplos lugares nas Caraíbas. E nem o facto de ter dependido do oxigénio generoso de Edward Norton fez 'afundar' o seu amor pelo mergulho.

"É um ecossistema hipnótico, inacreditavelmente belo, que está sob a superfície do mundo em que vivemos", descreve DiCaprio, a voz a relaxar--se claramente. "É um escape total de tudo."

Hoje é um escape de um tipo diferente. DiCaprio está de pé numa passadeira junto a um tanque de vidro gigante, na Universidade de Miami, onde se simula um furacão. Enquanto as águas fustigam a miniatura de uma casa numa praia em miniatura, faz uma piada: "Passei uma data de tempo num tanque como este para o 'Titanic'." Durante 45 minutos, um cientista fala com DiCaprio sobre a devastação que a Florida sofrerá com o próximo furacão. DiCaprio suga o vaporizador durante uma pausa e troca com Stevens um olhar que sugere: "Tenta pôr um final feliz nisto."

DiCaprio despede-se da equipa e diz-lhes que os verá em Paris, na conferência sobre alterações climáticas. Sabe que uma das primeiras coisas que os conservadores lhes atirarão à cara será a quantidade de combustível usado pelos milhares de participantes na conferência.

"Não há maneira de não sermos todos hipócritas. Construímos isto. Toda a nossa sociedade é baseada no petróleo. Tudo o que se vê é por causa dos combustíveis fósseis. No dia em que houver um modo sustentável de viajar, serei o primeiro da fila."

Para DiCaprio, a viagem valeu a pena. Após o Acordo de Paris ser assinado, declarou: "Isto dá--nos uma hipótese de salvar o planeta. Não há tempo a perder. Isto marca o fim da era do combustível fóssil."

Mas o Acordo será daqui a uma semana. Para já, tem umas horas de relaxe com os amigos das galerias de arte. A caminho da baixa, menciono que a sua intensidade no aquecimento global é... bem... intensa.

"Reparou, hem? Isto tem de ser o maior movimento humano na história, e é preciso cada religião, cada país, cada indivíduo a contribuir."

Chegamos a uma galeria chique que não mostra quaisquer sinais do apocalipse que se aproxima. Começo a despedir-me, mas DiCaprio põe a mão no meu braço. "Não se preocupe, não vou saltar do carro." Continua a falar durante mais uns minutos, sobre um novo aliado na luta. "Finalmente, temos um Papa pela primeira vez que fala pela sua encíclica e se alinha com a ciência moderna."

Alguém bate na janela. É altura de ir. DiCaprio abre a porta, e o provável próximo vencedor do Óscar de Melhor Ator é imediatamente rodeado por assistentes. Volta-se e grita sobre o ombro, com um sorriso: "Gostei de falar contigo, mano!"

Por um momento, Leonardo DiCaprio parece um miúdo sem quaisquer preocupações no mundo.

Exclusivo "Rolling Stone"/Tradução de Luís M. Faria

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 13 de fevereiro de 2016