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A vida e o poema

tiago miranda

Um país, três concertos, cinco dias. Por estradas e palcos da Bélgica com Gisela João, a voz mais diferente do fado Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Ricardo Marques (texto), Tiago Miranda (fotos) e Gabriela Pinheiro (produção)

As flores estão na jarra, a jarra está na mesa, a mesa está no palco, mas o palco está vazio. Os palcos estão vazios a maior parte do tempo e, na verdade, ninguém se importa muito com isso. Vazios e escuros, como a rua lá fora numa madrugada de inverno. São apenas a ideia de algo que há de vir, uma primavera anunciada que, quando por fim chega, tudo transforma. O palco torna-se o centro das atenções, cheio de som e de palavras, e os humanos contemplam-no como se esperassem algo. Como se precisassem de parar. Agora, todos se importam e procuram ajeitar-se o melhor que conseguem nas cadeiras. A civilização obcecada com a luz anseia pela escuridão na sala. O tempo pára no exato momento em que a viagem começa. Estão as flores na jarra, está a jarra na mesa, a mesa no palco — e o palco já não está vazio. Gisela chegou.

“O meu desejo é que as pessoas parem um pouco e sintam”, tinha explicado na noite anterior, estendida num sofá, a improvável miúda de Barcelos que tomou de assalto, e com um par de ténis, o mundo do fado. “O tempo é o bem mais valioso que temos. E temos de ter tempo para sentir, para sentir a falta de alguém que já partiu, para nos sentirmos bem ou mal. É isso que canto.” Só que o fado não parece ser a música deste tempo feito de velocidade e rapidez, e ausência de amarras e por vezes de memória. O fado é outra coisa. “Talvez. Mas é a música necessária, não é?”, pergunta ela. Dali perto, do outro lado da porta entreaberta do camarim, vem o som da guitarra portuguesa.

Gisela João chegou à Bélgica na quarta-feira à noite, 23 de novembro, para uma microdigressão de quatro dias, com três concertos seguidos noutras tantas cidades. Trazia duas malas e um disco novo — “Nua”, o seu segundo álbum — para apresentar a um público que, salvo raras e ruidosas exceções, não entende uma palavra de português. “Haar concert sloeg in als een bom. De zaal ging helemaal uit de bol”, lê-se sobre a fadista no programa, em flamengo, distribuído à entrada da charmosa sala da cidade de Lovaina — um teatro de formato octogonal que no próximo ano fará 150 anos e que, na estreia, recebeu “Romeu e Julieta”. “O amor é a coisa mais importante do mundo”, diz Gisela aos belgas, em inglês, antes de voltar às flores.

tiago miranda

Toca nas rosas do jarro na mesa no palco ao de leve, como se estivesse sozinha em casa, no mundo. “Queixo-me às rosas, mas que loucura/ As rosas não falam/ Simplesmente as rosas exalam/ o perfume que roubam de ti, ai…” (da autoria do brasileiro Cartola). Gisela João adora flores. Antes do concerto, agarra-as, cheira-as, gaba-as a quem estiver por perto, arruma-as em bouquets que pousa na jarra e depois, à frente de todos, canta fado para elas. Tudo faz sentido, até aquele “ai” que se ouve no banco de trás da carrinha, horas depois de as luzes do palco se apagarem. “Ai, que me esqueci das flores.” E o lamento fica ali, sem resposta, dentro de um carro a cem à hora na autoestrada a caminho do hotel.

Aconteceu demasiado rápido. Em 2013, o primeiro álbum nasceu com o nome dela e o país abriu a boca de espanto. Vieram as vendas, os prémios, as entrevistas e as salas cheias, os fãs e os convites para tudo e mais alguma coisa e passam três anos num instante. Ficaria bem escrever agora que foi o realizar de um sonho, mas ela diz que não. “Não sei se alguma vez foi um sonho. Rio-me muito da minha vida, a sério. Apesar de tudo. A minha vida é como uma daquelas noites em que não te apetece nada sair e acaba por ser uma das melhores noites da tua vida.” O novo disco tem uma canção chamada “Naufrágio” (Cecília Meireles/Alain Oulman) que fala disso, de um sonho que foi posto num barco e escondido no mar: “Chorarei quanto for preciso/ para fazer com que o mar cresça,/ e o meu navio chegue ao fundo/ e o meu sonho desapareça.” Gisela explica o resto quando conta, em palco e em inglês, que a avó lhe dizia que nem todos os sonhos são sempre para quem os sonha. Fala muito da avó. Por vezes, há que esquecê-los e esperar que novos venham. Um belga na primeira fila faz que sim com a cabeça, sem tirar as mãos do queixo, mas ela não vê.

Mas o que fica se à vida se tira um sonho? Um dom, assegura ela. Passa da meia-noite e o bar do hotel, em Antuérpia, vai ficando vazio. “As pessoas dizem que cantar é o meu dom. Acredito que todos temos um dom, mas nem todos temos oportunidade de o descobrir. Dizem que o meu é este, cantar. É efémero, imaterial. E eu canto...” Também escreve, e tem uma gaveta cheia de letras espalhadas em folhas de papel. Gosta de bordar, de fazer roupa, de estar com amigos. Adora cozinhar e adora ainda mais os dois gatos; repete várias vezes que fala demasiado, acha que nunca dorme o suficiente e se tivesse mais uma tarde livre, como por vezes acontece, ia para a praia ler um livro de poesia.

tiago miranda

Maurice Maeterlinck, o único Nobel da Literatura belga, nasceu em Gent, a poucos mais de 60 quilómetros do bar do hotel, e tem dezenas de obras, incluindo vários poemas e até um que fala de sonhos (“Heures ternes”). Mas nenhuma é como “A vida das abelhas” — um estudo minucioso sobre os insetos e a sua relação com a colmeia, capaz de levar o pensamento a refletir bastante acerca da vida dos homens e da sua relação com as diferentes colmeias. É desnecessário entrar em pormenores — até porque não é fácil escolhê-los num livro com mais de uma centena de páginas — mas há dois que batem as asas e se elevam diante dos olhos do leitor.

A primeira é a homenagem de Maeterlinck a Francois Huber (nasceu em Genebra, em 1750), o homem que, após uma vida inteira dedicada ao estudo das abelhas, escreveu aquela que, nas décadas seguintes, foi considerada a bíblia da apicultura. “Nenhum das suas descobertas foi alguma vez posta em causa”, escreveu Maeterlinck em 1901. O que é ainda mais espantoso porque Huber ficou cego na juventude e nunca viu sequer um favo de mel. Trabalhou a vida toda com François Burnem, as mãos que o seu cérebro comandava. Huber não via, mas sentia como poucos.

Há depois algo a que Maeterlinck, ele próprio um apicultor apaixonado, chama o espírito da colmeia, uma espécie de desígnio misterioso que rege todos os momentos da vida das abelhas: o nascimento, as tarefas que desempenham, o amor incondicional pela rainha, a importância do grupo, a defesa do seu espaço e a preocupação absoluta e obsessiva com a geração seguinte. E, por fim, o instante em que, juntas e cumprindo o destino, ou fado, abandonam para sempre a sua casa. Não é algo que o apicultor consiga ver, ouvir ou explicar. É, diz Maeterlinck, uma força que apenas é possível sentir.

O casal Van der Wyngoerk experimentou algo parecido na quinta-feira à noite, no moderno anfiteatro de Heist-op-den-Berg. “Não entendi uma única palavra, mas sinto-me verdadeiramente feliz”, diz a mulher. Nunca estiveram em Portugal, mas é o terceiro concerto de fado a que assistem na Bélgica. “Sentimos a tristeza das músicas, claro, mas também a alegria pela música dela.” Sentaram-se numa das primeiras filas, onde estavam espalhados panfletos com a tradução das letras das músicas. “Não quero. Prefiro não o fazer. Prefiro sentir”, garante o marido. Gisela fez aqui a primeira grande digressão internacional com o primeiro disco e lembra-se de, no fim de uma atuação, ouvir algo parecido. “Não tinha percebido nada, mas tinha sentido muito. É isso que conta. Que as pessoas parem e sintam.”

É impossível não acontecer. É impossível que o público não perceba o que é ser português. No concerto de Heist-op-den-Berg, o primeiro dos três, Gisela chegou formal, como se fosse convidada para uma festa. Entrou em palco de saltos altos vermelhos, vestido preto curto, com lantejoulas. Cantou três músicas e à quarta já estava descalça a contar a história de um extraterrestre que aterrou no quintal lá de casa (ela jura que, um dia, lhe perguntaram se era verdade). Se dúvidas ainda restassem sobre o que é Portugal, a fadista descalça e de tatuagens escondidas cantou a história de “O Senhor Extraterrestre” (de Carlos Paião, popularizada por Amália Rodrigues) e lá veio o bacalhau e as sardinhas, o ‘entre um pouco e converse lá’, a roupa estendida e a vizinha curiosa. No fim, o estranho-feito-amigo, verde ainda, bebeu um copo de vinho e lá foi aos ziguezagues no óvni. Sem piar, mas após ter feito alguns “pis”.

“Vou contar-vos uma história/ que não me sai da memória”. Começa assim a letra de Carlos Paião. A história de Gisela João é uma viagem. Primeiro lenta, rápida depois. Provavelmente já foi escrita vezes suficientes e os nomes e as datas voam por aí como abelhas. Uma menina de Barcelos que foi para o Porto, depois para Lisboa e que agora está aqui. Fala essa história de como a vontade de não querer ficar para sempre no mesmo lugar é o único bilhete para ir para longe, cada vez para mais longe, e é também o que faz crescer a flor do regresso, a necessidade de voltar ao ponto de partida — para perceber que ele nunca mais será o mesmo. É a história de uma menina, a mais velha de sete irmãos, e de todos aqueles com quem se vai cruzando até ser hora de voltar a casa. Sempre para o Natal.

Lá está a dona da loja onde trabalhou, o senhor dos fados de Barcelos que lhe chamava menina e que conhecia um senhor nos fados no Porto que a podia ajudar. O cão que a perseguiu e a fez chegar ofegante de tanto correr, o brasileiro que lhe chamou rouxinol em Lisboa e que ficou ali a ouvi-la cantar e ela de bolsos vazios e com o jantar para pagar, o amigo que a convidou para gravar um disco — e que ainda hoje vai com ela para todo o lado — o senhor do táxi que não a deixou ficar no carro nem voltar para o Porto no comboio da noite e a empurrou para uma fila enorme de miúdas parecidas com ela, mas nenhuma com a voz assim. E o funcionário da CP que não lhe vendeu um bilhete mais barato e que, por isso, a impediu de passar o Natal com a família. Esses e outros, muitos outros. Os pormenores. Gisela perde-se nas palavras, entra nelas e deixa de ver a saída.

“Labirinto” (David Mourão-Ferreira/Francisco Viana) é um dos poeas mais belos de “Nua” e um dos momentos memoráveis do concerto. Gisela canta fado, canta amor e traição, canta desgosto. “Não foi nada, não foi nada:/ Podia ter sido amor.” As pessoas ajeitam-se nas cadeiras, rendidas à imensidão da voz e à genuína dor que nela ouvem. No palco para onde todos olham, a rapariga de ténis leva a mão à cara, cerra os olhos, encolhe-se, agita-se, estende o braço e atira as notas para o céu como se as estrelas a ouvissem. É ela, mas não é ela. “É difícil explicar o que me vem cá de dentro. O objetivo do fadista é sentir o mundo, a vida e fazer com que as pessoas a sintam também. O fadista vive a vida dentro de poemas. Eu sou assim. Gosto de sentir sem sentir a necessidade de explicar. Sem perguntar porquê. Quero lá saber se as pessoas acham que é fake…” Depois, aplausos. E a estrela agradece.

tiago miranda

Há uma semana, no sábado, 26 de novembro, após o concerto em Beveren, Gisela João entrou a cantar o “Ne me quittes pas”, de Jacques Brel, belga, o seu músico preferido e sentou-se diante da enorme mesa dos camarins para jantar. Passava das dez. O responsável do espaço estava encantado com a atuação e a conversa lá foi parar onde pára sempre quando pára o fado. “O teu fado não é o fado tradicional”, diz-lhe. “Esse não me cativa tanto.” Nesse dia, um jornal belga chamou à fadista portuguesa “fado-babe” e chamou a atenção para o jazz que se pode encontrar na sua música. Dyrk Seymus, o agente belga, tem a mesma opinião, vê nela algo novo. Gisela acha que não. “As músicas que canto são quase todas mais velhas do que eu. O fado que canto é simples, é feito de simplicidade”, responde-lhes. No início está o poema — e a música ampara-o, puxa-o para cima ou empurra-o para fundo. Dá-lhe luz e escuridão também.

A discussão sobre o novo fado é velha. Na véspera, em Lovaina, Francisco Gaspar tinha aproveitado os minutos livres antes do concerto para caminhar pela rua principal da cidade. Há muitos minutos assim, horas inteira à espera, no carro. Em noite de black friday as ruas estavam cheias. De gente e de luz, de gente atraída para a luz como insetos. Montras, iluminações de Natal, pequenas fogueiras que ardiam em cestos de ferro na rua. “Há tempos li num livro que um determinado fadista era um dos poucos a respeitar a tradição do fado”, conta, com uma pausa para o suspense. “Esse livro era de 1910.” Passou um século e a conversa ainda é a mesma. O problema é o de sempre: até onde é possível ir sem que o fado deixe de o ser? Os três músicos de negro vestidos marcam uma linha.

Ricardo Parreira nasceu a tocar guitarra portuguesa e fá-lo com a precisão de um samurai chamado a usar a espada. Impassível, incisivo, decisivo. Nelson Aleixo, na viola de fado, aproveita por vezes os instantes livres e fecha-se no camarim para levar a viola em viagens a outros géneros musicais — e isso nota-se da melhor maneira. Por fim, a viola baixo. Nunca por ser menos importante (e não é, não importa o que alguns digam), mas apenas porque já se falou de Francisco Gaspar, o extraordinário músico que fica ao meio, o fiel da balança. Aliás, pergunte-se a qualquer um dos três o que pensa dos outros dois e a resposta é sempre a mesma. “São os dois ‘muita’ bons. Mesmo.” Pergunte-se a Gisela o que pensa deles e ela sorri. “Os meus muchachos”, suspira. Também lhes chama “meninos”, também se preocupa quando eles se atrasam e chega a desabafar, divertida, sem que eles a ouçam. “Quando era nova tomava conta dos meus irmãos, agora tomo conta destes.” Eles agradecem e retribuem.

Nenhum dos quatro anda longe dos 30 anos. Um pouco mais, um pouco menos. Gisela tem 33. Passam horas de telefone na mão, contam anedotas, lembram histórias antigas (algumas mais antigas do que eles), peripécias de digressões idas. Falam de roupa, de namoradas e das mulheres, e da filha de Ricardo, que nasceu há quatro meses. Falam de fado e de fadistas. Muito. Quase sempre. Brincam, gozam, comem sanduíches e sopas e chocolates. “Isto foi o que sempre quis quando pensei na minha equipa. Esta cumplicidade, este empenho e profissionalismo”, diz Gisela. Só que a equipa não está completa. Quando chegam para tocar, enquanto os quatro descansam no camarim, Frederico Pereira, o produtor e diretor musical, está diante do palco a testar o som ou está no palco a colocar as cadeiras no sítio certo ou a fazer outra coisa qualquer. Foi ele o amigo que um dia convidou Gisela para cantar e que está ao seu lado desde então. Falta Zé Bi, José Benigno, um feiticeiro bom dessa magia que é o som.

“Venham sombras do passado/ Venha tudo o que eu te dei”. “Sombras do passado” (Ana Sofia Paiva/Frederico Pereira) começa assim. Gisela João tinha lançado sobre si própria uma sombra com o seu nome. Havia quem lesse no sucesso do primeiro disco o risco do segundo. “Aconteceu tudo tão depressa e foi tão forte que este segundo disco foi nascendo aos poucos. Por vezes sentia-me cheias de dúvidas, mas no fim fiquei contente porque fiz o álbum que queria e não aquele que as pessoas esperavam que eu fizesse”, revela. “Tenho de gostar do que canto, tenho de sentir o que canto. Serei sempre tão boa quanto mais sincera for. Não o faço para agradar a ninguém.” Gisela revela-se pela poesia, pela música. Um fado de cada vez.

Há quem fique espantado ao olhá-la mais de perto. “Ela é baixinha”, espanta-se um belga que acabou de ver uma “gigante” no palco e agora tem à sua frente alguém que lhe dá pelo ombro. É o ritual do fim. Gisela vem do camarim para assinar discos e tirar fotografias. Em Beveren, na última das três noites de concerto, Teresa Pancas deu por si no fim e a meio de uma viagem. Professora de Português, casada com um belga, deixou Portugal há 20 anos. Trouxe os filhos e o marido e, no final, não cabia em si de contente. “Adorei, adorei, adorei. Foi tão lindo.” O miúdo mais novo tem 14 anos e chega-se perto de Gisela João, à espera que o irmão lhe tire uma fotografia. “Somos do mesmo tamanho”, diz ela, envolvendo-o com um abraço. Ele sorri, envergonhado. “Gostei tanto”, repete Teresa, que há pouco tempo ensinou aos alunos o que era o fado. “Em março, quando a Gisela voltar, vou trazê-los todos ao concerto.” A aventura ainda só vai a meio.

Não falta quem veja brilho no futuro de Gisela, mas ela é mais cautelosa ao falar dele. “Tudo é um bocado efémero, tudo passa. As pessoas que me vão dar um beijinho no fim do concerto, se for preciso passam por mim no dia a seguir na rua e nem me conhecem. E eu, no fim da noite, depois dos aplausos e das luzes e da ribalta, estou sozinha no hotel, cansada e com contas e impostos para pagar. As pessoas por vezes têm uma ideia demasiado glamorosa da vida de um artista.” Não é lamento, garante, porque tem a vida com que nunca sonhou. “Gosto de cantar. É o que gosto de fazer. Quem não gostar, paciência. Eu também não gosto de tudo.” Passos seguros, um de cada vez, resume Frederico Pereira. “Trabalhámos muito para estar aqui. O que estamos a ver agora é o resultado de tudo o que fizemos. E já estamos a trabalhar no que virá a seguir”, explica, como se falasse do eco de um verso que só chega a meio do verso seguinte.

O mundo dela não é um moinho, nem sequer parece um. “Ainda é cedo, amor/ Mal começaste a conhecer a vida/ Já anuncias a hora da partida/ Sem saber mesmo o rumo que irás tomar” canta Gisela João a abrir “O Mundo é um Moinho” (Cartola). Gisela João não tem hora de partida. Está para ficar, tal como é. “Se sou fadista ou se canto o fado? Há pessoas que dizem que são fadistas e que cantam fado, mas não acho que sejam. Pode até parecer uma frase feita, isto é algo que se sente. É uma forma de sentir a vida, de sentir o que nos rodeia, de reagir quando a vida nos põe à prova. É algo com que nasces, uma melancolia”, explica.

“Quando canto, quando estou ali a cantar, sou mais eu do que em qualquer outro momento. Estou livre, como se fosse uma criança a brincar. Depois, quando acaba a música, naquele silêncio entre o último acorde e as palmas, regressa tudo, volto a ter de ser a menina direita. Era algo que a minha avó me dizia. Tens de ser uma menina direita. Disse-me um dia, quando quis ir para a escola com uma sapatilha laranja e outra cor-de-rosa. Não. Tens de ser uma menina direita. E eu não percebia o que era aquilo, não percebia porque tinha de ir trocar os ténis. E chorei o dia todo na escola, com a professora Manuela. Quando canto é um sonho.”

As meninas direitas vão para o céu, mas Gisela mostra-nos o que ele pode ser. Um fado de cada vez.

O Expresso viajou a convite

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 3 de dezembro de 2016