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A incrível viagem de Nujeen, que fez 5.000 kms em cadeira de rodas para fugir à guerra

str/afp/getty images

No verão de 2015, a adolescente Nujeen Mustafa fugiu da cidade de Alepo, na Síria, e atravessou meia Europa numa cadeira de rodas à procura de asilo na Alemanha. Nos últimos meses, o Expresso conviveu de perto com ela e relata aqui uma extraordinária história de coragem Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

Paulo Anunciação

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em Londres, texto

Correspondente em Londres

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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Infografico

Jaime Figueiredo

Jaime Figueiredo

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Infográfico

Na manhã de 22 de agosto de 2015, Nujeen Mustafa despediu-se uma última vez dos pais, Yaba e Ayee. O pai, Yaba, estava choroso. A família é a coisa mais importante na vida, costumava repetir o velho. A mãe, Ayee, tirou com todo o cuidado o colar de ouro de Alepo que Nujeen trazia no pescoço, a única coisa de valor que a miúda alguma vez possuiu. O colar podia chamar a atenção de ladrões durante a longa viagem, disse ela. A mãe guardou a joia e começou a chorar. Na noite anterior, Ayee cozinhara o prato preferido de Nujeen, uma refeição típica curda, pedaços de peru acompanhados de triguilho e salsa para aliviar o picante das especiarias. Nujeen ajudara a irmã, Nasrine, a preparar a pequena mochila para a viagem: uma muda de roupa para cada uma delas, pijamas, escovas de dentes e o carregador para o telemóvel — provavelmente o objeto mais importante na curta lista de essenciais de todos os refugiados e migrantes que no ano passado tentaram entrar no espaço da União Europeia.

Quatro semanas mais tarde, Nujeen e a irmã Nasrine cruzaram finalmente a fronteira entre a Áustria e a Alemanha. Pediram asilo. Foram fotografadas, observadas por mulheres de bata branca à procura de doenças infecciosas como a tuberculose ou a sarna. Ofereceram, sem hesitar, os dedos para as impressões digitais. A Alemanha era, na altura, um dos poucos países da União que ainda acolhiam os refugiados sírios de braços abertos. A Alemanha era, ainda, o país onde as meninas Mustafa tinham alguns familiares próximos, incluindo dois irmãos mais velhos. Nesse dia, 21 de setembro de 2015, Nujeen e Nasrine pegaram no telemóvel e ligaram para Yaba e Ayee para lhes dizer que tinham chegado finalmente à Alemanha. A chamada foi curta, como sempre, mas desta vez os velhos disseram pouca coisa. Os soluços constantes apertavam-lhes a garganta e encravavam-lhes as palavras. Nujeen e Nasrine também choraram e, tal como elas, dezenas de homens, mulheres e crianças que na altura enchiam o pavilhão desportivo de Rosenheim, na Baviera, convertido à pressa em centro de acolhimento de refugiados.

Para trás ficou uma viagem de quase seis mil quilómetros de Alepo, na Síria, até à Alemanha. No ano passado, mais de um milhão de refugiados fizeram o mesmo percurso — longo e perigoso — entre a Síria e países da União Europeia. Mas o caso de Nujeen Mustafa foi diferente: ela fez a viagem sentada numa cadeira de rodas.

A aventura das irmãs Mustafa não passou despercebida. Ao longo da jornada do verão de 2015, elas foram entrevistadas e fotografadas por jornais europeus. Um dos jornalistas mais conhecidos da BBC, Fergal Keane, destacado para cobrir a crise dos refugiados, acompanhou durante dias a caminhada das duas irmãs sírias. Apesar dos contratempos, Nujeen mantinha sempre, nas reportagens de Keane, o mesmo sorriso nos lábios e explicava, num inglês perfeito, os últimos obstáculos ultrapassados. A história da menina na cadeira de rodas (Nujeen tinha, na altura, 16 anos) — frágil, delicada, mas sempre otimista e bem-disposta — chegou, inclusive, às televisões dos Estados Unidos. O humorista e comentador político John Oliver, um dos maiores nomes das noites da televisão norte-americana, dedicou um segmento de vários minutos a Nujeen. E no início do mês, a editora HarperCollins publicou o livro que ela escreveu em parceria com a minha mulher, a jornalista inglesa Christina Lamb (o livro “Nujeen” foi igualmente lançado em Portugal, no mês passado, pela HarperCollins Ibérica).

As irmãs vivem desde novembro de 2015 num rés do chão de uma moradia em Wesseling, uma cidadezinha feia e industrial, à beira do Reno, situada entre Colónia e a antiga capital federal, Bona. Nos últimos meses, tive oportunidade de acompanhar a minha mulher e visitar a família Mustafa na Alemanha. Estive pela primeira vez com elas em abril passado durante um passeio de domingo pelo Jardim Zoológico de Colónia, um dos mais antigos do mundo. Nujeen nunca tinha estado num zoo e queria ver ao vivo — pela primeira vez — um leão, o animal preferido dela. Os últimos 15 meses da vida desta adolescente, aliás, estão cheios de “primeiras vezes”. Ela andou pela primeira vez de avião (num voo doméstico na Turquia, entre Gaziantep, perto da fronteira síria, e Esmirna). Viu pela primeira vez o mar. Andou de barco pela primeira vez (num insuflável entre a costa da Turquia e a ilha de Lesbos, na Grécia) e de ferry (de Lesbos para Atenas). Viajou de comboio pela primeira vez (em alguns trajetos, curtos, na Grécia, Eslovénia, Áustria e Alemanha).

No caminho para a jaula dos leões do Jardim Zoológico de Colónia, passámos por dois grupos de girafas. Nujeen olhou para elas de forma intensa e em silêncio. E depois disse: “A girafa é um dos poucos animais que não emitem qualquer som porque não tem cordas vocais. Eu gostava deste facto, até ao dia em que as pessoas na Síria começaram a chamar ‘girafa’ ao [Presidente da Síria] Bashar al-Assad por causa do pescoço muito longo que ele tem”. Nujeen gosta de factos. Ou melhor, ela é uma colecionadora de factos.

Nujeen não consegue andar porque tem um tipo de paralisia cerebral que a deixa totalmente dependente nas atividades de vida diária. Ela passou a maior parte da vida fechada num quinto andar de um bloco de apartamentos sem elevador no bairro curdo de Alepo, a maior cidade da Síria. Raramente saía de casa e quando o fazia — transportada ao colo, escadas abaixo, por um dos oito irmãos —, era para uma visita breve a médicos, a fisioterapeutas ou a hospitais ou para participar, com a família, em algum casamento ou festa tradicional dos curdos.

Ela nunca foi à escola na Síria. No prédio de Alepo tinha muitos vizinhos da idade dela, mas poucas vezes brincou com eles. A família que vivia dois andares abaixo tinha um cágado em casa e por vezes traziam-lhe o animal de estimação e colocavam-no no colo. Nujeen nunca se sentiu confortável ou bem-vinda no mundo das crianças. O substituto para a falta de entretenimento era a televisão por satélite. Ela via tudo, até às três horas da madrugada, programas para crianças, futebol, concursos, filmes e sobretudo documentários sobre história e ciência. Mais tarde, quando a família comprou o primeiro computador, ela descobriu o mundo maravilhoso do Google e começou a colecionar todos os pedaços de informação que encontrava. Para cada animal do zoo de Colónia ela tinha um fragmento de informação que queria partilhar: sobre as piranhas, “que podem devorar um ser humano em menos de 90 segundos” ou sobre o castor-europeu “que tem um único parceiro ao longo da vida toda”. A certa altura, uma ave azul e cinzenta com uma enorme crista chegou-se perto da cadeira de rodas. Nujeen riu-se: “O pássaro deve julgar que eu também sou uma ave estranha”.

Nesse mesmo dia, sentada numa mesa à volta de um gelado enorme, Nujeen continuou a debitar informação. Factos e mais factos. Sobre a história dos Romanov, que sempre a fascinou. Ou sobre as viagens de exploração dos portugueses, as propriedades dos quarks ou sobre todos os 39 monarcas que reinaram em Inglaterra desde 1066. “Outras crianças fazem coleções. Eu coleciono factos! Talvez por causa das minhas limitações físicas, sempre tentei expandir os meus horizontes intelectuais”, diz Nujeen. A conversa salta inesperadamente de Petrus Gonsalvus (o espanhol do século XVI que sofria de hipertricose e terá inspirado a história de “A Bela e o Monstro”) para o jugoslavo Gavrilo Princip (que assassinou o arquiduque Francisco Fernando em 1914), do Mundial de 2010 (o último que os Mustafa puderam acompanhar, em família, no apartamento de Alepo) à longa descendência da rainha Vitória, que ela consegue enumerar em pormenor e sem falhas.

Além de factos, Nujeen também gosta de datas. Por exemplo, 19 de abril de 1770 foi o dia em que o capitão James Cook descobriu a Austrália (ela não acha que os portugueses tenham chegado lá antes de Cook). Ou 4 de setembro de 1998, dia da fundação da Google. “A data de que menos gosto é o dia 16 de março”, diz ela, com o semblante subitamente carregado. Nesse dia, em 1988, os aviões de Saddam Hussein lançaram bombas de gás mostarda e armas químicas sobre os curdos da cidade de Halabja, no norte do Iraque. “Morreram milhares de homens, mulheres e crianças. Ninguém sabe ao certo quantos foram, talvez cinco mil. Nós, curdos, chamamos-lhe ‘A sexta-feira sangrenta’”, diz.

Nujeen aprendeu a ler e a escrever em casa, com a ajuda de uma irmã mais velha (os pais são analfabetos). Um dos livros preferidos continua a ser “E Tudo o Vento Levou”, de Margaret Mitchell, porque a fez sonhar. “Mas nunca imaginei que alguém pudesse apaixonar-se por mim, porque nos livros e filmes que lia e via nunca existem pessoas com problemas motores”, diz. Também gostou de “O Amor nos Tempos de Cólera”, de Gabriel García Márquez, um livro que ela terminou no dia em que festejou 14 anos, ainda na Síria. “Festejar não é a palavra certa, porque foi a primeira vez que não tive bolo e doces. Recusei-me a ter [bolo]. Acho que há qualquer coisa de errado em fazer uma festa de anos quando se vive debaixo de uma guerra”, diz.

Quando falei com Nujeen no final das férias de verão, via FaceTime ou Skype (ela não gosta de telefone), andava a ler “À Espera no Centeio”, de J. D. Salinger. Nas férias ela tinha lido, também, dois livros de Charles Dickens e clássicos de Tolstoi como “Anna Karenina” e “Guerra e Paz”. Nujeen lê sobretudo em inglês, uma língua que aprendeu sozinha, frente à televisão, assistindo a concursos como “Masterchef” e “America’s Got Talent” ou seguindo a telenovela norte-americana “Days of Our Lives”. A novela, aliás, teve muito mais do que uma função didática. Assistir ao episódio diário de “Days” era o ponto alto do dia, sobretudo quando a guerra se intensificou em Alepo. “Nas últimas semanas [em que vivemos em Alepo] havia sempre um helicóptero sobre as nossas cabeças, ouvíamos bombas, tiros. Imensos bombardeamentos bem perto da nossa casa. Os meus irmãos e eu tornámo-nos especialistas em armas. Pelo barulho que faziam, conseguíamos identificar os [jatos] MiG-21 ou MiG-23 ou os helicópteros e distinguir entre bombas, bombas de fragmentação e mísseis”, diz Nujeen. “As últimas noites foram um suplício. Ia para a cama, mas nunca dormia. Tentava não pensar na guerra. Seguia o conselho da canção ‘My Favorite Things’, de Julie Andrews [em “Música no Coração”] e só pensava nas minhas coisas preferidas”.

Quando a primavera árabe chegou à Síria em janeiro de 2011, Nujeen e os irmãos e irmãs ficaram entusiasmados com a possibilidade da queda do regime do Presidente Bashar al-Assad. A irmã, Nasrine, juntou-se às manifestações organizadas na Universidade de Alepo, onde ela estudava Física. Mas o pai, Yaba, tentou desde cedo esfriar o entusiasmo: “Vocês acham que um punhado de estudantes vai derrubar o regime? Vai tudo acabar mal. Eles vão calar-vos dentro de muito pouco tempo”. Yaba tinha razão. Tal como previra, o regime de Assad respondeu com força. Quando começaram a bombardear Alepo, em 2012, Nujeen não tinha possibilidade de se esconder em abrigos. Muitas vezes refugiava-se na casa de banho, porque tinha um teto mais robusto. “Eu acredito no destino. Não queria mostrar fraqueza, queria ser forte. Quando as bombas caíam, pensava para mim: espero que elas poupem a minha família ou que, pelo menos, me matem só a mim já que eu não sirvo para nada”, diz Nujeen.

A família Mustafa acabou por deixar o apartamento de Alepo em julho de 2012 e mudou-se para Manbij, uma cidade do norte da Síria a poucos quilómetros do rio Eufrates. Manbij estava sob o controlo das forças rebeldes anti-Assad, mas dois anos mais tarde foi invadida pelo Estado Islâmico. A vida tornou-se insuportável. As condenações à morte e o rapto de mulheres jovens eram frequentes. A família voltou a reunir os poucos trapos que ainda lhe restavam e no verão de 2014 fugiu para Gaziantep, no sul da Turquia. Uma das últimas coisas de que Nujeen se recorda, antes de atravessar a fronteira sírio-turca, foi ler um longo rabisco numa parede: “A vossa Pátria não é um hotel que podemos abandonar quando o serviço não presta”. Ficou-lhe gravado na memória.

Um dos irmãos de Nujeen, Bland, seguiu para a Alemanha, através da Bulgária. Bland reencontrou o irmão mais velho, Shiar, que vive na Holanda e na Alemanha desde os anos 90. Nujeen e Nasrine decidiram arrancar no verão de 2015. O voo de Gaziantep para Esmirna foi a primeira etapa de uma longa jornada cheia de sustos, avanços e recuos. “Eu tinha visto tantos documentários sobre quedas de aviões, passei o voo a explicar à Nasrine todas as coisas que podiam acontecer de errado. Ela ficou furiosa!”, diz Nujeen entre risadas. Em Esmirna, elas juntaram-se a outra irmã, Nahda, que tem quatro filhas pequenas. O bloco familiar incluía ainda alguns tios e primos direitos cujos pais tinham sido assassinados por atiradores na Síria. O passo seguinte foi encontrar um contrabandista ou traficante que os ajudasse a entrar na Grécia.

A travessia da Turquia para a ilha grega de Lesbos foi a etapa mais perigosa da viagem. O pequeno barco insuflável usado pela família Mustafa tinha remendos e três vezes mais passageiros do que o devido. A cadeira de rodas era um risco e um peso adicional, mas também seguiu viagem apesar da oposição de alguns passageiros que olhavam para ela como um estorvo desnecessário. O comandante da frágil embarcação era um dos tios de Nujeen, um capitão improvisado à última hora que nunca entrara num barco. Ele aprendeu as noções básicas de navegação no dia anterior com a ajuda de uns vídeos do YouTube.

O cenário poderia ser aterrador, mas não para Nujeen: “Lembro-me do chuveirinho de água salgada na minha cara e de como me senti como Poseidon na crista das ondas. As crianças à minha volta choravam, mas eu não. Era a única que estava sempre a sorrir no barco”. No mesmo dia em que tantos membros da família Mustafa atravessaram, com êxito, o Mediterrâneo, um menino de três anos — curdo sírio, como eles — morreu afogado não muito longe dali. A fotografia do cadáver de Aylan Kurdi numa praia turca — com os seus calções azuis, T-shirt vermelha e a cara imóvel lavada pelas ondas do mar — foi primeira página de jornais de todo o mundo.

Quando o grupo chegou a Atenas, Nujeen e Nasrine ficaram para trás. Os familiares pensaram que seria impossível ela fazer o percurso até à Alemanha numa cadeira de rodas. Um dos planos de um dos irmãos consistia em tentar comprar passaportes falsos para Nujeen e Nasrine e voar diretamente para a Alemanha. Os passaportes eram muito caros. Decidiram arriscar ir por terra, como tantos milhares de sírios. “Foi a primeira vez na minha vida em que fiz a mesma coisa do que todas as outras pessoas”, diz Nujeen.

História. O livro que retrata a extraordinária aventura da jovem síria foi publicado com o título de “Nujeen” e a edição portuguesa tem 
a chancela da Harper Collins Ibérica

História. O livro que retrata a extraordinária aventura da jovem síria foi publicado com o título de “Nujeen” e a edição portuguesa tem 
a chancela da Harper Collins Ibérica

DANIEL ROLAND/AFP/Getty Images

A viagem levou-as através de oito países. Sempre que possível, quando havia dinheiro — enviado pelos irmãos Shiar, Bland, Farhad (que vive em Sheffield, na Inglaterra) e Mustafa (que trabalha na Turquia) —, Nujeen e Nasrine fizeram percursos de táxi, autocarro ou comboio. Gastaram mais de cinco mil euros. Mas muitas vezes Nasrine teve simplesmente de empurrar a enorme cadeira de rodas da irmã através de estradas, caminhos ou meros campos de milho. A cadeira era demasiado grande para o corpo frágil da miúda de 16 anos e os solavancos constantes deixaram-lhe marcas. Apesar do desconforto, Nujeen insistia em partilhar com a irmã mais velha todas as informações históricas e geográficas de cada lugar por onde passavam. Nasrine muitas vezes perdia a paciência.

A rota inicial, através da Grécia, Macedónia e Sérvia, esbarrou no muro que o Governo da Hungria começou a construir em meados de setembro de 2015 na fronteira. Nujeen e Nasrine não chegaram a tempo e não conseguiram passar a fronteira blindada. Com a ajuda do Google Maps e dos fóruns nas redes sociais onde os refugiados partilhavam todo o tipo de informações sobre rotas e sobrevivência nas estradas europeias, as irmãs optaram de imediato por uma via alternativa através da Croácia e da Eslovénia, em direção à Áustria. Foram os dias mais complicados — mais complicados, talvez, do que a própria travessia do Mediterrâneo. “O pior momento [da viagem] foi ser presa na Eslovénia. Puseram-nos num campo fechado, tinha janelas com barras. Não podíamos sair ou telefonar. Nem me quero lembrar. E sempre aquele medo enorme de sermos registadas antes de chegar à Alemanha”, diz.

No dia 21 de setembro, por fim, Nujeen e Nasrine entraram na Alemanha. Desde novembro que elas vivem no piso térreo da casa em Wesseling com a irmã mais velha, Nahda, e as quatro sobrinhas pequenas. Duas mulheres, uma adolescente numa cadeira de rodas e quatro crianças partilham três divisões onde sobra pouco espaço e é preciso gritar para que alguém consiga fazer-se ouvir. Mas ninguém se queixa. Os serviços sociais alemães pagam todas as despesas com a habitação, mais um subsídio mensal de 180 euros por criança e 325 por adulto.

No começo do ano, Nujeen passou a ir à escola todos os dias — uma novidade, aos 17 anos. Ela frequenta a LVR-Christophorusschule, uma escola de Bona para crianças com dificuldades motoras. Um ano depois de chegar à Alemanha, Nujeen domina já por completo a língua alemã, dá entrevistas em alemão e irrita-se quando as irmãs não fazem um esforço por usar a pronúncia correta. Recentemente foi pela primeira vez numa visita de estudo com os colegas do liceu. A escola arranjou-lhe uma cadeira de rodas apropriada e agora Nujeen até joga basquetebol. No mês passado puseram-lhe um aparelho dentário. “Um pouco tarde, é certo, mas agora faço todas as coisas com que sempre sonhei”, diz. “Tenho uma vida normal de rapariga da minha idade: uma rotina diária, levantar cedo, ir para a escola, fazer os trabalhos de casa”.

Nujeen reaprendeu a viver em segurança. Admira a pontualidade e a organização dos alemães, mas queixa-se de que eles escondem os sentimentos. “Os alemães são como máquinas. Nunca vi um alemão chorar, nem mesmo durante o Euro que Portugal ganhou”, diz. Nujeen continua a ter os mesmos sonhos de sempre: conhecer a rainha de Inglaterra, estudar Física para ser astronauta e poder flutuar no ar graças à ausência de gravidade. “No espaço, a minha deficiência não seria um problema”, diz. “Quanto a plano B (os alemães têm sempre um plano B, não é?) talvez seja voltar a escrever livros”.

Mas a vida não é fácil. Ela tem imensas saudades do pai e da mãe, que preferiram não arriscar a viagem pela Europa e ficaram a viver no sul da Turquia. Fala com eles todos os dias via Skype. Tem saudades das noites em que a família se juntava no salão de Alepo, em frente da televisão — em frente da sua televisão —, para comer, beber chá e assistir a um jogo entre Real Madrid (Nasrine, de 27 anos, é uma fã dedicada de Cristiano Ronaldo) e Barcelona (Nujeen adora Lionel Messi). “A minha vida poderá estar agora mil vezes melhor do que era na Síria, mas isso não quer dizer que eu não queira voltar a ser aquela rapariga que se sentava na varanda de Alepo. Quem me dera poder voltar um dia para a minha rua”, disse-me Nujeen quando falei com ela, no fim de semana, via FaceTime. “Eu costumo dizer que nada dura para sempre. Nem mesmo a guerra dura para sempre. Aqui [na Alemanha] serei sempre uma refugiada, uma cidadã de segunda classe. Muita gente pensa que somos uns intrusos. Mas a verdade é que nós viemos porque não tínhamos alternativa. Não é fácil recomeçar a vida do zero. Não vim para cá porque queria aprender a falar alemão”.

Nujeen evita os noticiários. Não gosta de olhar para as reportagens televisivas da guerra na Síria. “Custa muito assistir à destruição da minha cidade querida. O pior é que deixei de sentir aquele ardor na garganta sempre que via alguém morto nas ruas [de Alepo]. Passou a ser normal e isso não é bom. A morte em série nunca deveria ser normal. Mas será que alguém no mundo está realmente preocupado com isso? As pessoas com poder deveriam assumir a responsabilidade e fazer o trabalho de casa. Não é matemática — é simplesmente salvar vidas humanas”

Em meados de outubro, ela aproveitou as férias escolares de outono para passar uns dias na Feira de Frankfurt a promover o livro “Nujeen”. Deu muitas entrevistas — em inglês, alemão e inclusive em curmânji, o dialeto curdo — a jornais e televisões de todo o mundo. No domingo à noite, quando falei com ela, Nujeen parecia cansada. Como sempre, falava depressa, embrulhando as palavras. Estava feliz. E muito excitada. Dois representantes da HarperCollins Ibérica pediram-lhe que autografasse um livro para Lionel Messi, porque iam estar com ele dentro de dias. “O Messi! O Messi vai ter o meu livro, sabes?”, disse-me ela. “Mas não digas nada ao Cristiano, senão ele vai ficar chateado comigo”. Nujeen prometeu-me que também vai mandar um livro para Madrid.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 12 de novembro de 2016