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A fé canina de Gonçalo Amaral

Ex-inspector da PJ conta a sua versão da história e descreve como os cães ingleses Eddie e Keela foram decisivos para sustentar a tese de morte da criança. O comportamento de Gerry e Kate é criticado do início ao fim: sedavam as crianças, gélidos ao lidarem com o desaparecimento de Maddie, comportamento sexual bizarro.

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Três dias depois do despacho de arquivamento do 'caso Maddie', sem qualquer acusação nem luz sobre o que aconteceu à criança inglesa a 3 de Maio do ano passado, o antigo coordenador da investigação do caso, Gonçalo Amaral, apresenta hoje em Lisboa a sua tese: Maddie sofreu um acidente no apartamento do Ocean Club; morreu ao cair das costas do sofá da sala; os pais e os amigos simularam um rapto; ocultaram o cadáver da criança e construíram uma mentira que a polícia inglesa e portuguesa não conseguiram desmontar até hoje.

Uma mentira que a Justiça não conseguiu provar mas que para o inspector reformado é inequívoca. E a sua convicção assenta "na experiência profissional, em factos e indícios recolhidos e da sua interpretação à luz do direito":

"1. A menor Madeleine McCann morreu no apartamento 5A do Ocean Club, da Vila da Luz, na noite de 3 de Maio de 2007;

2. Ocorreu uma simulação de rapto;

3. Kate e Gerry são suspeitos de envolvimento na ocultação do cadáver;

4. A morte poderá ter sobrevindo em resultado de um trágico acidente;

5. Existem indícios de negligência na guarda e segurança dos filhos";

Esta é a conclusão, na última das 214 páginas do livro hoje lançado em Lisboa. Mas a ideia de que os pais estão afinal por trás de tudo começa a fazer sentido antes. Muito antes. Em boa verdade, desde o primeiro dia e logo desde praticamente a primeira página da obra.

Gonçalo Amaral diz mesmo que a tese de rapto lhe foi "imposta" (página 151), acabando por ser afastada só em Setembro, quando foram conhecidos os resultados dos exames às amostras recolhidas no apartamento, no carro dos McCann, entretanto alugado, e na roupa da família.

Estas amostras foram recolhidas depois do trabalho de Eddie e Keela, os dois cães da polícia inglesa especialistas em detectar odor a cadáver e vestígios de sangue. Eddie e Keela, os dois Springer Spaniel, acabam por dar a Gonçalo Amaral e à sua equipa os indícios que procuravam. Primeiro Eddie ladrava quando encontrava o cheiro a cadáver. Em seguida, colocava-se Keela no mesmo local (por exemplo na sala do apartamento) para se confirmar se o segundo cão detectava vestígios de sangue no local inicialmente identificado.

A tese já existia e os cães vinham comprová-la, na versão do inspector que durante cinco meses coordenou a investigação do caso mais mediático que a polícia portuguesa já enfrentou.

Apesar disto, a verdade é que os resultados dos exames nunca permitiram confirmar que se tratava inequivocamente de vestígios de Maddie McCann (poderiam ser por exemplo de familiares, dos pais ou irmãos, com quem partilha parte do seu próprio código genético). Ou seja, não havia matéria para sustentar uma acusação em tribunal.

É então que Kate e Gerry, constituídos arguidos como "suspeitos", partem para Inglaterra. A investigação, na sua opinião, fica afectada nessa altura, não se conseguindo, por exemplo, efectuar a célebre reconstituição da noite de 3 de Maio no apartamento, com os pais e amigos, tida como muito importante para deslindar contradições nos depoimentos.

Mas as suspeitas de Gonçalo Amaral começaram com outros dados, e bastante mais cedo: a forma como o quarto de Maddie e dos gémeos se encontrava na noite do dia 3; a roupa da cama da criança que não estava desfeita, o peluche ordenado ao lado da almofada e, sobretudo, a janela do quarto das crianças, sobre a qual as versões apresentadas por familiares e amigos divergem: mais ou menos fechada, com estore para cima ou não, cortinados corridos, etc, etc.

Por isso, afirma (página 39) que logo na manhã do dia 4 sentia "que algo estava errado na descrição do sucedido".

Sobre Robert Murat, o inglês suspeito durante 13 meses, afirma (página 105) que Jane Tanner, a amiga do casal que disse ter visto um vulto suspeito na rua na noite do dia 3, confirmou posteriormente tratar-se de Murat. "Jane é peremptória em reconhecer Murat como o raptor". Esta identificação, refira-se, não é no entanto descrita em momento algum do relatório da PJ que concluiu as investigações e cujo teor o Expresso divulgou na semana passada.

Aliás, mais adiante no livro (páginas 113 e 114), Gonçalo Amaral refere a existência de uma família irlandesa Smith que testemunhou em como o homem visto na noite do dia 3 na rua da Praia da Luz com uma criança ao colo não era Robert Murat. Esta família irlandesa acaba por identificar o "raptor" como sendo o próprio Gerry McCann (página 198). Mas só o faz em Setembro, quatro meses depois do desaparecimento, quando vê o pai de Maddie desembarcar no avião que o levou de volta a Inglaterra.

Sobre Gerry, Gonçalo traça um retrato sombrio. "Chupava descontraidamente um chupa chupa enquanto lia banalidadess e discutia rugby e futebol" (página 92). O problema é que isto aconteceu, afirmou, logo após o desaparecimento e numa altura de "tensão", em que se faziam contactos via email com supostos raptores da menina, que exigiam dinheiro em troca de informações sobre o seu paradeiro. "Ele é cirurgião cardiologista e começa a abrir pessoas logo após o pequeno almoço", afirma Amaral, citando um polícia inglês.

Mais adiante, também se refere (página 129) que Gerry só se ajoelhou quando viu a GNR chegar na noite de 3 de Maio para sujar as calças e assim contaminar uma peça de roupa que poderia ser importante para a resolução do caso.

Sobre Kate McCann, Gonçalo Amaral afirma (página 143) que logo desde final de Maio "estava na disposição de, sem se comprometer, indicar o local onde o corpo da sua filha estava, e que o mesmo se situaria na zona da Vila da Luz".

Outro dado revelado no livro agora lançado é a descrição de férias dos McCann e dos amigos em Maiorca em 2005 (quando Maddie tinha dois anos). Aqui, um deles, David Payne, o melhor amigo do pai de Maddie (que conhecia desde a Universidade), é apontado como tendo um comportamento sexual bizarro, com tendências pedófilas. Esta descrição é feita com recurso ao depoimento de uma testemunha feito à polícia inglesa, mas que só tardiamente chegou às mãos da Polícia Judiciária.

Por diversas vezes no livro "A Verdade da Mentira" é feita alusão ao facto de não se saber ao certo quanto tempo esse tal Payne terá estado no apartamento dos McCann no final da tarde do dia 3 de Maio: se 30 segundos se meia hora...