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Arqueologia: Desvendados edifícios que testemunham importância de Beja na Época Romana

Beja, 09 Ago (Lusa) - Um templo imperial e um edifício da praça central da "velha" Pax Julia, descobertos durante escavações que terminaram esta semana em Beja, vêm "confirmar e testemunhar" a importância e o carácter monumental da cidade na Época Romana.
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Beja, 09 Ago (Lusa) - Um templo imperial e um edifício da praça central da "velha" Pax Julia, descobertos durante escavações que terminaram esta semana em Beja, vêm "confirmar e testemunhar" a importância e o carácter monumental da cidade na Época Romana.

Trata-se de "importantes edifícios do fórum da cidade romana de Pax Julia" (designação de Beja na época romana), ou seja, da praça central onde se situavam os edifícios dos poderes político-administrativo, judicial e religioso, explicou à agência Lusa a coordenadora científica das escavações Maria da Conceição Lopes.

Segundo a arqueóloga, o templo imperial agora posto a descoberto, datado do século I ou início do século II d.C., é o identificado pelo arqueólogo Abel Viana em 1939, durante a abertura dos caboucos para a construção do reservatório de água de Beja, junto ao logradouro do Conservatório Regional do Baixo Alentejo (CRBA), onde decorreram as escavações e as descobertas.

Na altura, lembrou a arqueóloga, Abel Viana identificou um "grande edifício, que interpretou como o templo romano de Pax Julia", mas os vestígios foram tapados e no final dos anos 90 Conceição Lopes decidiu avançar com escavações no local para "tentar ver o que Abel Viana tinha identificado".

Nas duas primeiras campanhas, em 1999 e 2006, foram descobertos edifícios de várias épocas, mas só na campanha deste ano, que começou a 14 de Julho e terminou quinta-feira, foi descoberto o templo romano identificado há 69 anos por Abel Viana.

O outro grande edifício da praça central de Pax Julia, também descoberto na campanha deste ano por Conceição Lopes e 12 alunos do Instituto de Arqueologia da Universidade de Coimbra, "refere-se à primeira instalação romana da cidade e foi construído no final do século I a.C., no tempo de Augusto, o primeiro imperador romano".

Os dois edifícios, frisou a arqueóloga, confirmam que Pax Julia "era a mais importante cidade romana do actual Portugal", a "grande colónia do Sudoeste Peninsular" e "a capital do 'conventus pacencis'", ou seja, da região político-administrativa e jurídica que ocupava toda a zona a Sul do Tejo do actual território português.

"Pax Julia era uma colónia, mas tinha estatuto de cidade romana, ou seja, os cidadãos de Pax Julia tinham o mesmo estatuto dos cidadãos de Roma. E, do ponto de vista político, os cidadãos de Pax Julia que tivessem um milhão de sestércios podiam ser senadores em Roma", contou Conceição Lopes, frisando que "nem todas as cidades romanas tinham este estatuto".

A descoberta destes edifícios "vai obrigar os arqueólogos a reequacionar as ideias sobre a organização urbana da cidade romana", porque "algumas estruturas não confirmam, por exemplo, a hipótese de que à Praça da República da actual Beja corresponderia a praça central da velha Pax Julia", admitiu a arqueóloga.

Além dos dois edifícios romanos, as escavações colocaram ainda a descoberto um outro edifício da Idade do Ferro que "confirma a ocupação e revela a importância da cidade na época pré-romana", disse a também coordenadora do Centro de Estudos Arqueológicos das Universidades de Coimbra e Porto.

Apesar de frisar que não dispõe de elementos para dizer exactamente quando foi construído o edifício, "um dos melhores e dos mais bem conservados da Idade do Ferro descobertos no Sul de Portugal", Conceição Lopes referiu que "há a presença de materiais desde o século VII a.C. ao século III d.C.".

Nas anteriores campanhas, já tinham sido descobertas várias estruturas de períodos posteriores à Época Romana, como "belíssimos" edifícios dos séculos XVI e XVII, como "vestígios da antiga cadeia de Filipe III e de algumas casas do tempo de D. Manuel".

Em termos científicos, "o mais interessante" destas descobertas "é perceber que Beja teve uma dinâmica muito interessante ao longo dos tempos", frisou a arqueóloga, referindo que através do núcleo escavado no logradouro do CRBA "dá para perceber que Beja tem sido ocupada desde o século VII a.C." e que "soube reciclar e usar muito bem os edifícios que tem".

As escavações realizadas até agora "evidenciam que é necessário continuar a escavar, se as entidades públicas e privadas quiserem desvendar a história de Beja e colocar à mostra os edifícios importantes das várias épocas da história", sugeriu a arqueóloga.

Caso contrário, as escavações no quintal do CRBA "ficam por aqui", disse, frisando que, "sem apoios, não há condições para continuar a escavar".

Questionada sobre o futuro dos edifícios descobertos, a arqueóloga referiu tratar-se de "uma questão que terá que ser discutida com a Câmara de Beja e o IGESPAR [Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico]".

No entanto, defendeu, "alguns edifícios deviam ficar à mostra, para devolver aos cidadãos de Beja os vestígios do seu passado, da sua memória e que lhes pertencem por história".

Noutro sentido, sugeriu, "seria interessante ligar os edifícios romanos agora escavados com os outros descobertos nas parcelas de escavações que têm sido feitas na cidade, sobretudo na rua do Sembrano e no Castelo", porque, "todos juntos demonstram a dimensão e a importância de Beja na Época Romana".

Nesta lógica, defendeu a arqueóloga, "seria interessante mostrar os vários núcleos romanos que foram descobertos para o público ter a noção de como tudo isto funcionava em rede e como era a cidade Pax Julia".

LL.

Lusa/Fim


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