20 de abril de 2014 às 19:02
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Vila Real

Aprender matemática com latoeiros e tanoeiros

Os saberes empíricos dos artesãos, transmitidos ao longo de gerações, podem servir de exemplo no ensino da matéria.
Maria Meireles/A Voz de Trás-os-Montes
Na construção de um pipo, por exemplo, os tanoeiros recorrem muito à matemática Na construção de um pipo, por exemplo, os tanoeiros recorrem muito à matemática

Desenvolver o gosto dos alunos pela matemática e ao mesmo tempo promover a ligação à identidade da região onde vivem são os objectivos do trabalho de investigação de três docentes da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que estudaram a experiência de cinco latoeiros e três tanoeiros no âmbito da Etnomatemática.

A proposta lançada pelas professoras Cecília Costa, Paula Catarino e Maria Manuel Nascimento, é de "levar para sala de aula a experiência" dos profissionais da latoaria e da tanoaria para ajudar os alunos dos vários níveis de ensino a compreender a matemática.

"Na construção de um pipo, os tanoeiros utilizam muita matemática", explicou Cecília Costa referindo que os conceitos utilizados pelos profissionais podem servir de apoio ao ensino da matemática desde o 1º ciclo, com a geometria elementar, até ao ensino secundário, com, por exemplo, a utilização do Pi.

Outro dos exemplos abordados pelas docentes foi a utilização, por parte de alguns latoeiros, de um conjunto de ferramentas muito parecidas com os instrumentos utilizados pelos matemáticos na antiguidade, como a régua não graduada e o compasso de pontas secas.

No entanto, e apesar de utilizarem "matemática complicadíssima", a maior parte dos profissionais não tem consciência que o faz, simplesmente pratica os ensinamentos adquiridos com os seus mestres. "Dependendo do nível de formação escolar os artesãos têm mais ou menos consciência da matemática que utilizam", referiu Cecília Costa sublinhando que um dos entrevistados, o mais jovem dos latoeiros, que estudou até ao 12º ano, mostrou ter alguns conhecimentos sobre os conceitos que utiliza na criação das suas peças.

O trabalho de investigação das três docentes que envolveu cinco latoeiros (Abel Cardoso Ferreira Gradiz, Joaquim Augusto Santos, Júlio Alves Ferreira, Manuel Silvano Cristino e Rui Manuel Gonçalves dos Santos) e três tanoeiros (António Monteiro Mesquita, Diamantino Carvalho Gouveia e Manuel Augusto Sobrinho), com idades compreendidas entre os 35 e os 28 anos, dá "a conhecer experiências de vida muito curiosas e saberes empíricos acumulados ao longo de várias gerações" e acaba de ser divulgado em dois capítulos da obra "Etnomatemática - Um Olhar sobre a Diversidade Cultural e a Aprendizagem Matemática", coordenada por Pedro Palhares, da Universidade do Minho.

Segundo as professoras, a experiência de levar a matemática prática aos alunos pode também ter um papel importante na aproximação dos mais jovens a estas profissões que hoje estão em risco de desaparecer.

"E se a matemática transformasse a minha terra na capital do Universo", foi outro dos projectos desenvolvidos, já este ano, pelas docentes da UTAD, no âmbito do programa Ciência Viva, e que também levou os jovens a conhecerem melhor as usas terras, as suas tradições e culturas.

Em cinco escolas da região, o trabalho foi desenvolvido levando os alunos a aprender matemática das mais diversas formas. Analisar receitas tradicionais e adequá-las ao números de pessoas a servir, o funcionamento de um lagar de azeite, o estudo e elaboração dos brasões das freguesias e das famílias, a análise dos terrenos e culturas da vinha, tudo isso, e muito mais, sempre sob um olhar matemático.

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