Antuérpia
O topónimo "Antuérpia", apontando a um norte profundo, plano e brumoso, cessa a partir de hoje de convocar ao meu álbum de associações um pintor de génio, ou um cais movimentado, para trazer a noção da ilegível arbitrariedade dos percursos humanos. Cidade de bicicletas pedaladas na chuva, e de bordéis de luz acesa às quatro da tarde, dir-se-ia um burgo naturalmente pronto a servir de cenário a qualquer enredo, mais ou menos negro, da banda desenhada. E aí poderia encaixar-se também um desses romances históricos, a passar agora de moda, que abordam ao de leve, e em dessorada atmosfera, uma saga de judeus expatriados.
Subi uma única vez a Antuérpia, convidado no habitual seguimento à estadia em Bruxelas, para falar já não sei ao certo de o quê, aos estudantes de Literatura Portuguesa, da universidade local. E por isso efectuaria o ritual da praxe em tais enquadramentos, a refeição no restaurante de categoria modesta, mas capaz de oferecer um vislumbre da hipotética cozinha típica, e a visita à obra-prima de pintura, exibida como um tesouro, no caso o Tríptico dos Sete Sacramentos, de Rogier van der Weyden. De pouco mais me recordo, a não ser do diálogo com o responsável pelo leitorado, um homem que associava às suas queixas de solidão, tão recorrentes nos exilados em circunstâncias idênticas, umas quantas, e aterradoras, mágoas atinentes a infortúnios da sua existência privada.
Chamava-se o docente José Carlos Nobre da Silveira, e acabo de receber a notícia do seu inopinado, e precoce, falecimento na lógica, ou na ilógica, de uma crise diabética. O carácter fortuito do nosso encontro adequar-se-ia a que arquivasse eu o sucedido na gaveta dos obituários que nos deixam civilizadamente pesarosos, mas de facto algo indiferentes. Não fora a tal conversa que como é óbvio não reproduzirei aqui, e que me parecera postular, o que de longe a longe acontece, um conhecimento a amadurecer, e não a efémera troca de impressões, não demoraria muito a que por inteiro me esquecesse de José Silveira. Mas naquelas três horas e pico em que estivemos juntos descemos porventura ambos ao fundo mais fundo de nós, despedindo-nos embora logo depois com o aperto de mão que referenda a compra de um automóvel, ou a saída do gabinete do dentista.
Pergunto-me que mistério maior se esconderá nestes mistérios, surgidos in media vista, e sem que coisa alguma os anuncie. E procuro a razão por que tanto e tanto relacionamento se prolonga por anos e anos, mas sem que se transponha a fronteira da frivolidade quotidiana, ou da cordialidade à flor da pele.
É claro que neste instante, e ainda bem, o recentemente "desaparecido" José Carlos Nobre da Silveira se achará na posse da definitiva, e sobretudo da completa, chave para a decifração de semelhantes enigmas. Quanto a nós, os que por enquanto ficámos, que nos assista pelo menos a dúvida que assegura a tranquila continuidade do viver!


