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Isso agora não interessa nada...

António Pires Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 21 de janeiro de 2011

A Justiça não funciona e põe em causa o Estado de direito e a credibilidade da democracia; a economia está estagnada há dez anos e o desemprego atinge 11%, a mais alta taxa de sempre, condenando 25% dos jovens à inactividade; o défice das contas públicas é crónico e o endividamento do Estado é tal que já dificilmente encontramos quem nos financie. Eis o dramático estado da nação: Portugal está prestes a falir e é um país que precisa de esperança. Acompanhando a campanha para a Presidência da República, o mais alto cargo da nação, dir-se-ia que - e como costumava entoar uma conhecida apresentadora de pavorosos reality shows - "Isso agora não interessa nada..."

De que falam os seis candidatos à Presidência da República a eleger dentro de uma semana? Os cinco candidatos que representam a esquerda falam do BPN e de outros incidentes pessoais, da compra e venda (ninguém se atreve a dizer que ilegítima) de umas acções no início da década passada e insinuam sobre o carácter do outro candidato, Cavaco Silva, o único não socialista. São como cinco cães a um osso. A esquerda em Portugal está convertida nisto mesmo; na ausência de qualquer projecto, qualquer ideal, qualquer vontade, qualquer esperança, a única coisa com que se importa é em sujar qualquer debate, enlamear qualquer figura, conspurcar qualquer vontade que pretenda fazer de Portugal um país melhor.

Não gosto de campanhas sujas e já considerei um erro, há ano e meio, a campanha que o PSD fez contra o candidato a primeiro-ministro José Sócrates, também ela fundamentada em ataques ao carácter.

Portugal vive um momento determinante da sua história. É certo que a nossa existência assenta em oito séculos de história e numa língua comum mas o nosso futuro, só por isso, não está assegurado. Que país queremos ser nos próximos 20 anos? Que estilo de vida pretendemos privilegiar, agora que a ilusão da felicidade consumista se desvanece? Como canalizar a energia dos jovens neste esforço nacional? Que papel cabe aos avós (ou aos seniores) na estruturação da nossa sociedade? Como compatibilizar família e emprego e estimular a natalidade? Como se combate a desertificação do interior? Como estruturar a Justiça para que seja um sistema eficaz e com responsabilidades claras? Que tipo de empresas queremos incentivar para equilibrar a nossa balança comercial e combater o desemprego? Que papel social útil podem ter aqueles que caem no desemprego? Como aligeiramos o Estado e o tornamos mais amigo do empreendedorismo? Qual a relação adequada entre livre acesso a serviços de saúde e educação, 'gratuitidade' e sustentabilidade do Estado social? Vale a pena evitar a ajuda externa com taxas de juro superiores a 7%?

A todas estas (e muitas outras) perguntas Manuel Alegre, Francisco Lopes, Defensor Moura, o patusco Coelho e, às vezes, Fernando Nobre apenas dizem: isso agora não interessa nada... Eu acho que a generalidade dos portugueses já percebeu o que está em causa no próximo dia 23: um país que se agiganta e quer aproveitar esta crise para aprender e vencer os desafios com que estamos confrontados ou um país que se consome e apaga, assolado em ódios pessoais, cada vez mais pequeno e medíocre.

Acredito que a 23, e em resposta à mesquinhez dos desesperados, Cavaco vai ter uma votação histórica.

Nota: António Pires de Lima escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 15 de janeiro de 2011

 

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Só com a melhor equipa

António Pires Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 17 de dezembro de 2010

Só uma grande equipa consegue grandes resultados: um grupo de Pessoas unido por uma visão mobilizadora e trabalhando competentemente são capazes de alcançar objectivos excepcionais. É assim no desporto, é assim nas empresas, é assim em todos os grandes empreendimentos colectivos. Ao longo da minha vida profissional tenho trabalhado em bons projectos nacionais e posso testemunhar que, mesmo com menores recursos financeiros, as empresas portuguesas são capazes de competir e vencer grandes empresas multinacionais. Atraindo as melhores pessoas e sob um motivante desígnio comum é possível a uma empresa portuguesa vencer na competição global.

Vêm estas reflexões a propósito daquilo que hoje observo se passa na política. Só por excepção, e em alguns casos por extrema vocação, a política atrai os melhores. Ora se, para um projecto empresarial relevante, atrair os melhores profissionais é condição fundamental para o sucesso por maioria de razão tal condição não deveria ser indispensável ao bom governo da nação?

Dir-se-ia, atendendo à natureza do debate político a que vamos assistindo em Portugal, que talvez não... Pouco é feito para atrair os melhores à política ou para dignificar o trabalho daqueles que se dedicam à causa pública. Conhecendo eu múltiplas excepções a esta regra - tanto no Governo, como no parlamento, como em alguns serviços públicos - a verdade é que a média de qualidade na concepção e execução da actividade politica em Portugal é medíocre. A política parece mesmo afugentar a qualidade: as remunerações praticadas são manifestamente insuficientes, a perda da privacidade familiar é um contratempo, o escrutínio público é cada vez mais ridiculamente inquisidor e, talvez o mais importante... é patente a ausência de lideranças excepcionais e de um projecto mobilizador.

Nem sempre foi assim. Agora que passam 30 anos da morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa é justo reconhecer que nessa altura as lideranças políticas tinham a capacidade de convocar, e construir equipa, com alguns dos melhores de Portugal. Foi assim nos melhores governos que tivemos em democracia: primeiro com Sá Carneiro, depois nos primeiros anos de Cavaco Silva. Não é difícil concluir o óbvio: só com grandes pessoas ao serviço do Governo é possível dar bom destino a Portugal.

Face aos desafios que se colocam a Portugal no presente não deveríamos nós estar a olhar para este problema de frente? Depois de dez anos de estagnação, os portugueses andam angustiados e muito zangados. Com razão. Mas a mim, o que mais a me angustia, não é a crise financeira actual, nem o FMI, nem a falta de capacidade de trabalho e de sacrifício dos portugueses - que por experiência sei que a têm de sobra - para darem a volta à situação presente. O que verdadeiramente me deixa em desesperança é esta incapacidade da política portuguesa em se renovar e atrair os melhores. É este pensar pequenino em que se agita o debate político. É esta ausência de um desígnio comum. Que tipo de liderança se pode afirmar assim? Que líder nos tira deste círculo vicioso?

António Pires de Lima escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 11 de dezembro de 2010

 

A receita chamada soberania

António Pires Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 19 de novembro de 2010

1 Cara leitora e caro leitor, eis um breve resumo do estado económico da nação: dez anos de estagnação que nos colocam como o terceiro país no mundo que menos cresceu na última década. Temos uma dívida pública que se aproxima dos 90% da riqueza criada anualmente - e atinge bem mais de 100% se incluirmos toda a extensão do sector empresarial público e a responsabilidade assumida pelo Estado com todas as parcerias público-privadas. Soma-se uma dívida privada que se situa em 120% do rendimento das famílias, um Estado que é o 7º do mundo com maior risco de incumprimento financeiro e um país que está em último lugar no mundo no indicador confiança dos seus consumidores (AC Nielsen).

Junte-se a esta receita para a desgraça o sabor amargo de sermos uma das duas sociedades europeias com maiores desigualdades sociais e de termos construído um sistema de justiça ineficaz em que a maioria dos cidadãos não confia. Acrescente-se, como cereja em cima do bolo, o facto de sermos o povo que menos se reproduz, com uma taxa de fecundidade atual que nos conduzirá, se não for invertida rapidamente, a um declínio inexorável. Depois de 36 anos de democracia, a inquietação está na cabeça de muita gente: será este regime reformável?

2 Como em qualquer democracia, os partidos dependem do voto dos eleitores. Quem vota gosta de acreditar em ilusões. Não há memória de um político em Portugal ter ganho eleições dispensando promessas irrealizáveis em campanha e assentando apenas as propostas num discurso de verdade, com um apelo a uma ética de esperança baseada no essencial: mérito, austeridade e, sempre que necessário, sacrifício em nome das futuras gerações. As eleições ganharam-se 'vendendo' o contrário: facilitismo, direitos sociais crescentes e uma cultura consumista que gasta hoje comprometendo os impostos das gerações futuras.

Será possível que tudo mude em próximas eleições? Gostaria de acreditar que sim. Porque, de outro modo, estaremos condenados a ser governados desde o exterior. A verdade é que o Orçamento do Estado para 2011 não é do primeiro-ministro eleito, engenheiro Sócrates, nem tão pouco daquele que se anuncia como o seu sucessor, doutor Passos Coelho. Este é um orçamento necessário e até inevitável porque nos foi imposto pelos credores que vão garantindo o financiamento da economia a cada quarta-feira. E é, sobretudo, o orçamento da senhora Merkel que, como consequência da crise, põe e dispõe hoje em toda a Europa sem ter precisado de disparar um tiro.

Na ausência total de credibilidade de qualquer outra promessa, as próximas eleições talvez venham a ser ganhas com uma nova receita: a da soberania. Não estou a defender uma soberania ultrapassada, que nega o mundo global em que vivemos, própria dos partidos de protesto da esquerda vencida com a queda do Muro de Berlim. Pelo contrário, proponho uma soberania que apela à responsabilidade e a uma cultura de mérito, que comece por convencer os portugueses a pagarem as dívidas acumuladas e a viverem apenas de acordo com a riqueza que conseguem criar.

Será que esta 'estranha' noção de soberania pode dar votos? É que se não der, este regime já não será reformável.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de novembro de 2010

 

Portugal não pode parar

António Pires Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 15 de outubro de 2010

Domingo, 3 de Outubro. Tarde de chuva em Vidago, de onde escrevo esta crónica. E que importância tem a chuva se o Vidago Palace tem sempre um encanto mágico, qualquer que seja a estação... Reinaugurado oficialmente nesta última quarta-feira pelo primeiro-ministro e depois de um investimento vultoso da Unicer - que só a coragem e o amor à região dos accionistas portugueses (famílias Violas e Pinho e BPI) viabilizou - o Parque de Vidago faz agora jus à sua história centenária com um hotel, património nacional, fielmente recuperado e maravilhosamente decorado, um campo de golfe com 18 buracos de sonho e um Spa Termal moderno e com o traço genial do arquitecto Siza Vieira. Portugal não pode parar.

A sul, na costa do Guincho, depois de há uns anos ter aberto o Oitavos golf course - um dos melhores da Europa -, o empresário Miguel Champalimaud inaugurou, no mesmo fim-de-semana, o hotel de Oitavos, um cinco estrelas de espaços amplos, exemplo moderno de luxo funcional. Só a visão e a persistência permitiram este resort, um projecto privado bem integrado numa maravilhosa zona natural. Portugal não pode parar.

5 de Outubro, o Presidente da República inaugura, em Lisboa, o Centro de Investigação Champalimaud. Num edifício, numa área esplendorosa, trabalharão cientistas e médicos nas áreas das neurociências e do cancro, hospital incluído. Serviço público por excelência perpetuando a memória de um dos mais discutidos e geniais empresários portugueses do último século: António Champalimaud. Portugal não pode parar.

Três investimentos privados, em sectores estratégicos para Portugal, levados a cabo num momento de crise e inaugurados uma semana depois de o primeiro-ministro José Sócrates ter assumido o óbvio: o Estado está quase falido e só não entrará em bancarrota porque vai seguir uma dieta muito dura anunciada pelo Governo, depois de imposta por Bruxelas e pelos credores que nos sustentam.

Uma última boa notícia: para surpresa de alguns - que não a minha -, numa Europa em crise e num mundo em mudança acelerada, as exportações portuguesas cresceram 13% nos primeiros oito meses do ano. Devido a este resultado brilhante, Portugal não voltou (ainda) a mergulhar em recessão. Mérito sobretudo das empresas que se reconverteram, abriram novos mercados com produtos e serviços mais inovadores e de valor acrescentado. Portugal não pode parar.

É assim esta nação. Num Estado pesado e no limite do descalabro financeiro convive um mundo empresarial privado que, apesar de todas as limitações e num contexto altamente desfavorável, procura fazer e construir, apelando, na ausência tantas vezes de outras razões mais racionais, ao amor que nutre por esta terra. Só à custa do esforço empresarial privado em Portugal se voltará a criar emprego e Portugal sairá deste atoleiro.

Empresários portugueses, uni-vos! Continuem a acreditar, a investir e a exportar: Portugal não pode parar!

P.S. - Confissão de interesses: o redactor destas linhas é presidente executivo da Unicer, empresa promotora do investimento em Vidago. Quem, por esse facto, alimentar dúvidas sobre aquilo que por lá se fez, tem bom remédio: vá ver com os próprios olhos.

António Pires de Lima escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 9 de outubro de 2010

 

Passos trocados

António Pires de Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 17 de setembro de 2010

Não há como uma má forma para matar uma boa ideia. Veja-se só o que aconteceu à revisão constitucional, apresentada pelo PSD.

Portugal tem uma Constituição que é um atentado à liberdade. Desde logo pelo seu preâmbulo, essa 'relíquia' do período revolucionário, em que uma larga maioria dos deputados da Constituinte decidiram, muito democraticamente, que a nação deveria evoluir, obrigatoriamente, para uma "sociedade socialista". Exageros explicáveis pelo contexto da época, dirão. Talvez. Mas, como se explica, quase quarenta anos depois, que esse miserável ditame se mantenha impassível na abertura do texto constitucional ferindo a liberdade eleitoral e de governo das futuras gerações?

O preâmbulo constitucional está longe de ser apenas um detalhe porque dá nota do espírito que inspirou boa parte do articulado seguinte, numa Constituição que é um cardápio de piedosos ideais, ideologicamente marcados, sem qualquer aderência à realidade e que vicia o sistema político e condiciona gerações subsequentes à tirania dos direitos adquiridos no trabalho, à gratuitidade de sistemas sociais e, necessariamente, à insustentável pressão fiscal crescente. A Constituição só não chegou ao ponto de prometer a vida eterna... porque essa seria, convenhamos, uma promessa de inspiração muito pouco socialista!

Foi visível, nomeadamente na Legislatura de 2002 a 2005, a forma como a nossa palavrosa Constituição interferiu com a liberdade de um governo, maioritário e democraticamente eleito, do PSD-CDS. A minimalista reforma das leis laborais, conhecida pelo 'código Bagão Félix', tardou quase dois anos a passar os crivos constitucionais e a estar em condições de ser executada. A regulação do rendimento mínimo garantido, limitando o seu acesso a adultos com menos de 25 anos e em condições de trabalhar, foi bloqueada pela douta leitura dos juízes do tribunal constitucional.

Mas, com esta Constituição, não é só um governo de 'direita' que vê limitada a sua liberdade de governação. A reforma da administração pública, se quisesse considerar a eventual redução de salários na função pública (executada em Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Reino Unido), muito provavelmente esbarraria em preceitos constitucionais. O próprio PS está limitado na sua actuação governativa e não pode fazer tudo aquilo que é necessário no momento actual.

A forma desastrada e inábil com que Passos Coelho apresentou, antes de férias, a sua proposta de revisão constitucional faz desta, provavelmente, uma oportunidade perdida. Uma proposta séria deveria ter sido apresentada no momento certo - depois das eleições presidenciais -, previamente discutida com o PS e o CDS e limitar-se àquilo que é essencial para gerar o consenso dos dois terços necessários do Parlamento. Exactamente o contrário do que Passos Coelho fez, transformando a próxima revisão constitucional numa matéria de arremesso político, demagógica e habilmente explorada por Sócrates em seu benefício eleitoral.

A sustentabilidade económica e financeira de Portugal é anticonstitucional. É necessário rever em profundidade a Constituição. Mas, com líderes políticos destes, não vamos lá. Quem aconselha Passos Coelho???

Pires de Lima escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 11 de setembro de 2010

Serviços mínimos

António Pires de Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 16 de julho de 2010

1- Começo pela história da selecção no Mundial: qualificámo-nos, in extremis, num playoff com a Bósnia. Chegados à África do Sul fomos segundos no grupo, depois de duas exibições contidas e minimalistas com a Costa do Marfim e o Brasil e de uma bela vitória sobre a fraca Coreia do Norte. Acabámos eliminados nos oitavos, sem brilho nem glória, por uma Espanha mais forte. Evitámos, porém, a humilhação! Em quatro desafios, três jogos em branco atestam a dinâmica e o espírito de risco da selecção contra equipas de peso. Há quantos anos não ganha Portugal um desafio a uma selecção de top?

Carlos Queiroz confirmou na selecção aquilo que já se sabia da sua longa carreira de 20 anos a treinar seniores: bom formador, não é um líder e as suas equipas vegetam na mediania sem qualquer ousadia ou espírito de corpo. Os jogadores mais ambiciosos e inconformados, como Ronaldo, não podem estar contentes com a situação. Queiroz está. E como cumpriu com serviços mínimos e tem direitos adquiridos por mais dois anos o seu lugar não estará em causa. Em Portugal, perdem-se oportunidades porque, quem cumpre com serviços mínimos, tem sempre o seu lugar garantido.

2- Há anos que o comboio e as praias da costa do Estoril são vandalizados por gangues juvenis nos meses de Junho e Julho. O epicentro é geralmente o Tamariz, no Estoril.

Depois de pré-avisos sérios nos comboios no ultimo fim de semana de Junho, Julho começou com cenas de faroeste, tiroteios incluídos, na outrora chique Tamariz. Perante a legítima indignação do presidente da Câmara, António Capucho, o Governo anunciou reforço do patrulhamento. Vamos ver se chega mas o mal está feito e era perfeitamente evitável.

Está na cara que os miseráveis bairros construídos permissivamente nos subúrbios de Lisboa só por milagre não geram muitos jovens desintegrados e violentos. Que, com a chegada do calor, esses (e muitos outros) jovens queiram espairecer e refrescar-se nas praias de fácil acesso de Cascais é perfeitamente legítimo. Que a conjugação de tanto calor e alguma juventude violenta gere desacatos, idem. Que o governo aposte numa polícia de serviços mínimos de Inverno para uma situação comprovadamente explosiva no Verão, essa é que já é uma história de incompetência que só pode revoltar os locais.

Para mim, autarca local, a surpresa não é total. Cascais sabe como os socialistas 'gostam' dela. Nos anos 90 tivemos um presidente socialista que tudo fez para descaracterizar urbanisticamente o concelho. Os governos de Sócrates, que noutras geografias algo têm feito pelo turismo, parecem empenhados em desvalorizá-lo aqui, onde constituiu uma riqueza insubstituível. Chegou-se ao ponto de extinguir a Junta de Turismo do Estoril para promover a integração desta Costa única num aglutinado turístico que junta toda a zona de Lisboa e Vale do Tejo, com sede na socialista... Alpiarça!!!

Dir-se-ia que a negligência do Governo nos cuidados com a segurança no concelho de Cascais, em época tão crítica do ano, obedece a uma estratégia. São tantas as 'coincidências' que me pergunto: será esta uma história de desamor político por preconceito social?

António Pires de Lima escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Julho de 2010

De boas intenções está o inferno cheio

António Pires de Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 18 de junho de 2010

1 Na política vivemos um tempo de esperas: o voluntarista e descredibilizado primeiro-ministro já não convence nem o PS e, perante uma liderança exaurida, só se antevê uma alternativa real lá para o princípio de 2012. Uma crise política, agora, seria algo que os nossos credores não poderiam tolerar. Enquanto a crise vai castigando Sócrates, as oposições vão capitalizando na indignação e no descontentamento geral.

O novo 'pacote' de austeridade foi, infelizmente, o previsível, constituindo mais uma oportunidade perdida: o aumento de impostos é a receita socialista habitual quando os credores apertam. Os cortes anunciados na despesa são para estrangeiro ver, meras intenções que vão gerar desorçamentações e atrasos nos pagamentos a fornecedores. Compreendendo que o PSD tenha sentido a necessidade de viabilizar o dito pacote, um conselho daria ao provável próximo primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho: não queira exagerar nas cumplicidades com os governantes actuais a troco de umas fotografias em 'pose respeitável'. Corre o sério risco de passar o próximo ano e meio em ziguezagues mirabolantes - acorda aumentos de impostos no gabinete do PM em S. Bento e no Parlamento, a 500 metros de distância, o seu líder parlamentar critica o Governo por aumentar os impostos - e a pedir desculpa aos portugueses. Ninguém na direita deseja que vire um soufflé político; muito apetecível por fora e de conteúdo vazio por dentro. De bem-intencionados está o inferno cheio.

Uma medida de austeridade realmente necessária e perene seria o corte dos salários da função pública. Foi executada na Grécia, em Espanha e na Irlanda. Em Portugal, uma redução de 5% teria sido suficiente para evitar qualquer aumento de impostos. Ficámo-nos pelo corte nos políticos: caiu bem mas não serve para nada.

2 Portugal não é, no entanto, tão mau como o pintam os tremendistas, um modo de vida cada vez mais auspicioso: estão sempre cheios de razão quando a crise chega. Ainda recentemente a COTEC - agência privada com um percurso notável a dinamizar uma cultura empresarial assente na inovação - revelou que o investimento em inovação atingiu 1,5% do PIB, o dobro daquilo que investíamos há oito anos. Estamos ainda longe das melhores práticas mundiais mas já próximos da média europeia e acima da Espanha e da Itália. Nas empresas privadas o investimento triplicou nos últimos anos.

Por essa e por outras razões, as exportações voltaram a crescer a dois dígitos e estão a puxar pela economia, apesar do alto desemprego e baixo consumo interno.

Com o euro tão desvalorizado, o crescimento em Angola e alguma retoma mundial, esta tendência poderá até intensificar-se.

É certo que, com a crise, muitas empresas vegetam ou já morreram. Era inevitável. Muitas outras, porém, ajustaram-se à crise, reestruturaram-se e sobreviveram. Como se tem visto, a economia privada é bem mais flexível e competente do que o pesado universo público. O mundo empresarial, ao contrário do político, não tolera esperas nem vazios.

Texto publicado na edição do Expresso de 12 de Junho de 2010

1

A grande oportunidade

António Pires de Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 14 de maio de 2010

Era incontornável, a dívida caiu-nos em cima: nenhum país é sustentável consumindo décadas a fio bem mais do que produz, acumulando uma dívida pública galopante que se aproxima de toda a riqueza que cria num ano e um endividamento privado já superior a 365 dias do rendimento das famílias. Como concluía no último artigo, assim sobrevivemos até os credores nos obrigarem a mudar de vida. Chegou o momento, em estado de absoluta necessidade ou - e prefiro assim - de grande oportunidade.

É finalmente necessário cortar a direito na despesa pública, cancelando ou adiando projectos de investimento não vitais, diminuindo realmente os salários e benefícios dos funcionários públicos, ajustando o subsídio de desemprego para que não funcione como um desincentivo à nova oportunidade de emprego, controlando sem piedade o escândalo dos abusos no rendimento mínimo, adequando ainda mais a idade da reforma à moderna esperança de vida, combatendo o desperdício e a má gestão nos serviços públicos. Tudo isto nos é imposto por quem nos empresta dinheiro para renovarmos o stock da dívida pública acumulada, tudo isto o Governo socialista, suprema ironia, está ou vai ter de fazer nos próximos meses! Não existe margem de manobra. O PM e o ministro das Finanças já perceberam, a oposição responsável também.

Mas mudar de vida é, também, uma grande oportunidade. Uma oportunidade para repensar as funções do Estado, concentrando os serviços públicos onde são, por natureza, insubstituíveis: justiça, segurança e defesa. Talvez com maior foco na gestão destas áreas tenhamos, finalmente, melhor justiça e mais segurança. Já nas áreas sociais - educação e saúde, à cabeça - é preciso distinguir garantia a acesso de prestação de serviços com a prestação propriamente dita. Pretender que o Estado continue a monopolizar a prestação de serviços públicos é uma arrogância ideológica que condiciona a eficiência por evitar a liberdade de escolha e a concorrência. E, como se vê, essa arrogância produziu serviços públicos medíocres e já nem sequer sustentáveis financeiramente.

Esta oportunidade de mudar de vida, reduzir o Estado ao essencial, devolver poder aos cidadãos, valorizar aquilo que só o esforço e o mérito podem justificar, acabar com o "caldo de cultura" que transformou gerações e, talvez, metade dos portugueses numa espécie de indigentes irresponsáveis pelo seu destino individual, não está ao alcance dos socialistas. Vai ao arrepio daquilo que foi a governação, pelo menos, nos últimos 15 anos. Por muito que isso irrite a esquerda, transformar Portugal num país de gente decente e que valha a pena é uma tarefa para a nova direita, a direita que está a aparecer.

Texto publicado na edição do Expresso de 8 de Fevereiro de 2010

1

Direitos adquiridos

António Pires Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 16 de abril de 2010

É curioso o desânimo que se abateu sobre a generalidade da classe intelectual europeia que tem as suas raízes políticas na esquerda. Vivemos na ressaca da maior crise do sistema capitalista dos últimos 80 anos. Um período que se julgaria propício para o ressurgimento das teses que advogam a intervenção do Estado na economia e o reavivar da ideologia socialista vencida com a queda do muro de Berlim.

Compreensível este desalento. Como se vai percebendo é na Europa que se torna mais difícil antever um ressurgimento económico que sustente o crescimento e a recuperação de emprego. Os sinais são bem mais positivos nos Estados Unidos, onde a crise financeira se manifestou primeiro, mas também nos países emergentes, todos eles já numa rota de crescimento que parece imparável. A crise veio pôr a nu aquilo que já se intuía: num mundo global a economia da Europa não é competitiva, acelerando a transferência de poder para o mundo emergente.

A ausência de uma unidade política mínima não ajuda a credibilizar o euro, moeda seriamente ameaçada com a crise financeira na Grécia e do mais que a Sul se está para ver. Do ponto de vista político, apesar do muito que foi construído ao longo das últimas décadas, a Europa é um tigre de papel comparada com nações como os EUA, a Rússia ou a China. E o poder político é hoje um factor de competitividade económica. As economias emergentes de maior sucesso têm como base a capacidade de o poder político interagir - ou, descaradamente, interferir - com o poder económico. Para um europeu, não é fácil admitir uma nova ordem mundial com a preponderância das nações emergentes, tantas vezes sustentadas em democracias tão peculiares e com economias de mercado sujeitas a regras tão enviesadas.

Coesão política à parte, creio que na Europa subsistem outras razões de descompetitividade talvez mais passíveis de superação a nível nacional. Desde logo estou a pensar na cultura dos 'direitos adquiridos', de que Portugal é um belo exemplar, contrária à essência da competitividade. Na vida, o único dado adquirido é que nascemos para um dia... morrermos. Ora, uma cultura que dá por adquirido e gratuito o ensino até ao fim da licenciatura, o trabalho uma vez conquistado, o subsídio sempre que o trabalho excepcionalmente falha, é inimiga da competitividade. Sobretudo quando se vê confrontada com outros mundos onde o mérito é valorizado e premiado - às vezes de forma selvagem, diga-se - ou onde cada passo dado por um jovem é conquistado a pulso. A Europa amoleceu no caldo dos direitos adquiridos. Sem risco, tensão e pressão não se formam gerações vencedoras.

Adoro viver na Europa e em Portugal. Adoro muitos dos direitos que nos são reconhecidos e vi recentemente, com emoção, Barack Obama aprovar nos EUA o direito a cuidados de saúde em voga na Europa há décadas. Mas algum equilíbrio precisamos de criar entre direitos e competitividade que devolva à Europa a vontade de se reproduzir, estudar, trabalhar, poupar e investir. Direitos adquiridos em excesso e a esperança perdida no futuro: este é o legado que deixaremos aos nossos filhos se os nossos credores não nos obrigarem a mudar de vida. Será que, ao contrário do que diz Obama, nós não podemos ter esperança?

Texto publicado na edição do Expresso de 10 de Abril de 2010

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A insustentável irresponsabilidade dos seres

António Pires de Lima (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 19 de março de 2010

Portugal precisa de uma alternativa e essa esperança só pode vir de uma coligação do PSD com o CDS capaz de um discurso credível e construtivo.

1. Uma alternativa que não nos devolve a Esperança não é útil, nem é credível".

Assim escrevia eu há dois anos, neste espaço, pouco tempo depois da eleição da dra. Ferreira Leite como presidente do PSD e quando os sinais do seu discurso combinavam já uma seriedade inquestionável com um catastrofismo insuportável. Incrível foi como, face às circunstâncias adversas que o primeiro-ministro enfrentou e à razão que lhe assistia em muitas das denúncias que fazia da situação económica e financeira que Portugal atravessa, Ferreira Leite conseguiu perder as eleições em Setembro.

A sua falta de confiança em Portugal e nos portugueses - "vamos morrer, só não sei se da doença ou da cura", disse recentemente numa conferência - foram fatais. Com Ferreira Leite e ao longo de dois anos sobraram, como legado, as trágicas previsões e as declarações tantas vezes sujeitas a urgentes precisões no dia seguinte. Mais do que razão nas críticas ao governo, a um líder da oposição pedem-se soluções que sinalizem a esperança numa alternativa. Digo-o com pena porque a ainda presidente do PSD, embora sem vocação para a liderança política, é uma excelente pessoa: se Sócrates se mantém como PM a Ferreira Leite o deve! O pior 'crime' que um líder pode cometer é matar a esperança.

Não sei se será pedir demasiado mas desejaria que, com novo líder, o PSD reencontrasse uma nova forma de estar e falar com os portugueses. Portugal precisa de uma alternativa e essa esperança só pode vir de uma coligação do PSD com o CDS capaz de um discurso credível e construtivo.

2. Foram clarificadoras as 'exibições' de alguns jornalistas na Comissão de Ética. É evidente que, como já se intuía e sempre aconteceu no passado, terão existido pressões indevidas e tentativas de influência do poder político sobre algum jornalismo mais incómodo. Os governantes que temos são tudo menos meninos de coro e as suas actuações devem ser fiscalizadas. O interesse público talvez justifique muitas das denúncias publicadas mesmo se eventualmente ilegais.

Mas do que também não sobram dúvidas, depois do que se tem visto no Parlamento, é que nenhum português com um caso de justiça sério por resolver e no seu perfeito juízo confiaria o apuramento da verdade a Felícia Cabrita ou delegaria uma investigação criminal a Manuela Moura Guedes. O ódio e a emotividade fácil nunca foram bons juízes. Numa sociedade civilizada os jornais cumprem o seu papel mas não substituem os tribunais.

O país, é certo, enfrenta uma crise da Justiça muito grave, campo fértil para todo o tipo de justicialismos populistas. Este populismo é, porém, um caminho perigoso.

As soluções para um melhor sistema de justiça passam por respostas mais sérias e serenas e que dão muito trabalho a pôr em prática: responsabilização efectiva dos agentes de justiça, critérios de gestão eficiente dos tribunais e uma revisão profunda do processo de justiça que permita o cumprimento de prazos razoáveis - eis algumas das tarefas que urgem num diagnóstico não exaustivo. Mais do que mudar pessoas é preciso investir e melhorar o sistema e sujeitar a justiça aos princípios da responsabilidade e boa gestão essenciais ao bom funcionamento de qualquer instituição. Só assim poderemos voltar a ter esperança - e confiança - na justiça e em Portugal.

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010

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