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O segundo mandato de Cavaco

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 4 de fevereiro de 2011

A relação entre Cavaco Silva e José Sócrates será uma relação de tolerância zero.

Cavaco Silva vai ter dois mandatos dentro do próximo mandato: um primeiro, em que lidará com José Sócrates, e outro em que lidará com Pedro Passos Coelho. Mais, a parte do mandato em que lidará com Passos Coelho deverá ser mais extensa do que aquela em que ainda lidará com José Sócrates.

Ou seja, a questão política maior não é tanto como se relacionará Cavaco Silva com José Sócrates, mas sim como se relacionará Cavaco Silva com Pedro Passos Coelho.

A relação com José Sócrates parece-me fácil de prever. A indignação de Cavaco Silva na noite das eleições com a campanha de ataque pessoal que lhe foi feita tinha destinatário muito para lá de Manuel Alegre. A sublinhada dicotomia entre dois modos de fazer política e a amplitude que Cavaco Silva concedeu a essa dicotomia, nomeando os que "prometem o que não podem cumprir" e os que "não falam verdade ao povo", dá a entender o conceito ético-político em que o Presidente da República tem o primeiro-ministro.

A relação entre Cavaco Silva e José Sócrates será uma relação de tolerância zero. Será também uma relação mais tensa, porque a magistratura ativa só pode significar que o Presidente falará, em público, de modo mais nítido do que até hoje, impondo custos políticos a José Sócrates que até hoje não impôs.

Cavaco Silva tem uma questão de perspetiva histórica que, certamente, o incomoda. Quando terminou a sua década como primeiro-ministro, Mário Soares ter-lhe-á dito "a década de ouro que ambos fizemos". Hoje, Cavaco Silva tem a noção de que, se Sócrates prosseguir muito mais tempo, no final do mandato apenas poderá dizer a Sócrates "a década de lata que fizemos". Cavaco Silva não quer terminar a sua carreira pública com tão maus resultados ou associado a eles.

A relação de Cavaco Silva com Passos Coelho dependerá muito da agenda governativa do futuro governo e da qualidade do governo que for formado. Uma agenda demasiado turbulenta no plano social não terá vida fácil com Cavaco Silva. Como Pedro Passos Coelho precisará de reunir o máximo consenso político e social possível, a começar pelo Presidente, é crítico que antecipe com minúcia o pensamento de Cavaco Silva, para que um plano reformista inevitável não acabe por ter o Presidente contra.

A qualidade do governo será também decisiva. Passos Coelho terá de motivar Cavaco Silva. A peça-chave será o ministro das Finanças. Eduardo Catroga, algum economista mais novo de fortíssima personalidade? Depois, quatro ministros-chave, todos eles com altíssima capacidade de gestão: na Saúde, na Justiça, na Educação e nas Obras Públicas. Finalmente, um governo sem dependências 'aparelhistas' do PSD, matéria que o Presidente conhece como ninguém e rejeita com intensidade. A corte de Passos Coelho será determinante para a sua credibilidade em Belém.

A distância que existe entre os dois poderá ser benéfica, colocará a relação num plano racional e de Estado. É tão importante que o Presidente não se deixe aprisionar pelo PSD, como o PSD não se deixe aprisionar pelo Presidente.

P.S. - Com este meu artigo, termino a minha colaboração regular no Expresso ao fim de 21 anos.

Texto publicado na edição do Expresso de 29 de janeiro de 2011

 

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D. Sebastião e o médico

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 31 de dezembro de 2010

Para muita gente, a única solução política era e é Cavaco Silva, no quadro de uma leitura presidencialista do nosso sistema político.

Cavaco Silva tem uma pergunta recorrente nestas presidenciais: como chegámos aqui consigo Presidente?

O subconsciente desta pergunta é lisonjeiro para Cavaco Silva: aqueles que fazem a pergunta creem que poderia e deveria ter sido mais interventivo e que essa sua intervenção teria evitado a situação em que Portugal se encontra.

Para muita gente, a única solução política era e é Cavaco Silva, no quadro de uma leitura presidencialista do nosso sistema político. No fundo, seria um alívio se Cavaco Silva governasse Portugal nesta crise, diretamente ou nomeando alguém da sua confiança.

Não é de excluir que Cavaco Silva tivesse hoje mais votos como candidato a primeiro-ministro do que como candidato a Presidente da República. O perfil de estadista experiente, de homem íntegro, de decisor competente e de líder distante fazem de Cavaco Silva o D. Sebastião ideal na crise moral e económica que vivemos. Ora tudo isto é muito lisonjeiro para Cavaco Silva mas não leva a lado nenhum: o centro de gravidade do semipresidencialismo português é o Parlamento ou, em caso de maioria absoluta, o Governo. Partir de outro pressuposto é muito estimulante intelectualmente, mas pura fantasia política.

Portugal chegou até aqui porque o poder estava onde a Constituição queria que estivesse: no Governo, entre 2005 e 2009, e no Parlamento, desde Outubro do ano passado.

Poderia Cavaco Silva ter demitido o Governo, entre 2005 e 2009? Poder podia, mas o Parlamento devolver-lhe-ia o mesmo primeiro-ministro. Poderia, então, ter dissolvido o Parlamento? Poder podia, mas o eleitorado devolver-lhe-ia o mesmo primeiro-ministro. E, depois das eleições de há quinze meses, poderia ter abortado a legislatura, demitindo o Governo ou dissolvendo o Parlamento? Poder podia, mas a situação ficaria ainda mais esfrangalhada do que está hoje. E poderia ter nomeado um governo de iniciativa presidencial? Poder podia, mas não durava mais de cem dias, como Lourdes Pintasilgo ou Nobre da Costa, nos anos 70.

A verdade é que nem o Parlamento nem o povo deram margem de manobra ao Presidente.

Cavaco Silva esteve para o Governo como um médico está para um doente que corre perigo de vida mas que não pode ser operado, porque a operação apenas vai agravar o risco de vida do doente.

Conheço bem esta situação e ela ilumina o mandato de Cavaco Silva. Com Portugal nos cuidados intensivos, remover Sócrates, é disso que se trata, teria sido uma operação com risco superior ao da manutenção de Sócrates no poder.

Podemos imaginar a angústia de Cavaco Silva, perceber que o estado de saúde de Portugal era "insustentável", como chegou a alertar, e não poder operar o doente. A sua intervenção, no entanto, serviu para evitar males maiores, desde logo juntando PS e PSD no último ano.

Com a longa convalescença que espera Portugal e com a crise de qualidade da política, será sensato manter por perto o último grande senhor da política portuguesa. Veremos que espaço de manobra o povo lhe dará.

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de dezembro de 2010

 

Silêncios ensurdecedores

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 3 de dezembro de 2010

É perturbador o silêncio dos pobres, velhos e novos, atingidos no recuo das prestações sociais quando esperariam, com toda a razão, que os sacrifícios não passassem por eles. Mas esta gente não tem voz, não influencia, não se impõe.

A greve geral desta semana evidencia os desequilíbrios da democracia moderna e o seu grande desafio de os corrigir. Somos todos iguais a votar, mas não somos todos iguais a influenciar os caminhos do nosso país. Há uma desigualdade profundíssima e injusta na representação dos diversos interesses sociais. Uns têm voz, outros não têm. Há fortes e fracos e a democracia moderna protege os fortes e não os fracos.

Há etnias sociais com poder reivindicativo e etnias sem qualquer poder reivindicativo. O problema é que aqueles que têm força reivindicativa pedem para eles e não para os outros.

Há silêncios ensurdecedores na sociedade portuguesa. A greve geral tornou esses silêncios ainda mais ensurdecedores.

Entendo o sentimento de desagrado dos funcionários públicos, que não são os responsáveis pela crise, mas eles estão longe de ser a expressão prioritária do sofrimento da nossa sociedade. Pelo contrário, têm direitos que mais nenhum português tem e o custo do Estado tem um impacto devastador na vida dos outros portugueses e no nosso contínuo empobrecimento.

É tremendo o silêncio dos desempregados, feridos na sua dignidade humana e, todavia, sem voz, assistem a greves de quem tem o emprego seguro e desesperam diante de um mercado de trabalho que lhes fecha a porta, protegendo os que têm emprego. Onde está o sentido de justiça para com aqueles que mais sofrem? Mascarada de slogans sindicais, é a lei do mais forte.

É aflitivo o silêncio de tantos dos mais velhos, já indefesos, alguns com pensões miseráveis, que se devem perguntar como pode a sociedade fazer-lhes perder poder de compra e feri-los nos apoios sociais. Pura crueldade, mas, claro, não têm voz, são os fracos da democracia moderna. É a lei do mais forte.

É perturbador o silêncio dos pobres, velhos e novos, atingidos no recuo das prestações sociais quando esperariam, com toda a razão, que os sacrifícios não passassem por eles. Mas esta gente não tem voz, não influencia, não se impõe, pede sopa. Devendo ser o centro de nós todos, os pobres são a periferia da democracia. É a lei do mais forte.

É, por fim, surpreendente o silêncio dos que pagam impostos e alimentam tudo isto. Os milhões de portugueses que trabalham no setor privado, que todos os dia lutam pelo seu trabalho, que todos os dias lidam com o espetro do desemprego, que todos os dias equacionam emigrar, assistem incrédulos e passivos a esta constatação: são os que têm emprego seguro, pago por eles, que parecem ser as vítimas da democracia e da crise.

A democracia tem apenas duzentos anos. Daqui por uns séculos se reconhecerá como era injusta e imperfeita a democracia do século XXI.

Texto publicado na edição do Expresso de 27 de novembro de 2010

 

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A doença dos timings

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 29 de outubro de 2010

Escrevo no início da semana, sem saber o que decidiu o PSD sobre o orçamento. É, no entanto, para mim, evidente, desde o princípio, que o PSD deixará passar o orçamento, por razões simples: primeira, porque sem orçamento os portugueses iriam sofrer ainda mais do que com o orçamento que o Governo propôs e não está no código genético do PSD tolerar isso; segunda, porque sendo Pedro Passos Coelho uma personalidade tipicamente racional nunca deixará que a situação passe de um risco grave, mas conhecido, para um risco desconhecido e fora do seu domínio; terceira, porque esta dramatização é um investimento político muito inteligente de afirmação do líder do PSD e de diferenciação relativamente ao PS.

Desde há meses que o tema não é se o PSD deixará passar ou não o orçamento, nem se tem margem de manobra ou deixa de ter, mas sim qual a capacidade política do PSD para forçar o Governo a esclarecer a verdade e a prestar contas sobre a execução orçamental de 2010 e para Portugal ter um orçamento para 2011 o menos mau possível.

É por isso que não entendo a pressão assustada e assustadiça que se abateu sobre o PSD, da qual apenas resulta um acréscimo de fôlego e de margem de manobra para este Governo em fase terminal de credibilidade.

Realmente, é surpreendente que se peça a Passos Coelho que aprove de cruz e sem ver um orçamento que desconhece, a ser feito por gente que toda a gente conhece.

Gente que não apresenta sequer contas ao Parlamento de como está a gerir os dinheiros do Estado. A situação é tão grave que não me parece descabido perguntar, ponderando os poderes do Presidente da República de demissão do Governo: há "regular funcionamento das instituições democráticas" quando um Governo não esclarece o Parlamento, na véspera de um debate sobre o Orçamento do Estado e apesar das insistências, sobre qual a situação financeira do Estado? Os deputados vão aprovar um orçamento sem saber qual a situação real das contas públicas? Isto é verdade? É esta a qualidade da nossa democracia?

Há em Portugal uma nova doença, a doença dos timings. O que interessa é o timing, não o essencial em si mesmo. O calendário substitui os valores. Tudo é tático, tudo é hoje.

Esta doença também aflorou tempestuosamente em algumas elites quando o PSD apresentou o projeto de revisão constitucional. Em vez de se apoiar uma iniciativa corajosa para recompor o desgraçado futuro da economia portuguesa e do nosso agonizante Estado social, não, discutiu-se, claro, o timing. Acresce, a favor dos 'timinguistas', a autossatisfação de se verificar a descida do PSD nas sondagens, como se fosse possível ser imediatamente popular quando se diz às pessoas o que elas não querem ouvir, mas que é essencial que ouçam: por exemplo, não haverá Serviço Nacional de Saúde justo e capaz se se insistir no "universal e tendencialmente gratuito", isto é, que os dramáticos impostos de uma empregada de balcão de uma mercearia de Condeixa paguem as consultas médicas do sr. Américo Amorim.

Reconheço a Passos Coelho a ética de não querer ir a eleições mentindo e de querer legitimar o que pretende fazer. E louvo-lhe o sentido de risco. Não sei se consegue ganhar sendo tão frontal. Mas sem ética a política é uma vergonha e sem risco uma maçada, como dizia Sá Carneiro.

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de outubro de 2010

Para onde fogem os nossos filhos?

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 1 de outubro de 2010

Os nossos filhos fogem, todos os dias, para países com regras de trabalho flexíveis, essencialmente assentes no mérito e no dinamismo da economia.

A posição do PS sobre a proposta de revisão constitucional do PSD é retrógrada e autocrática.

No início do verão de 1989, era então presidente da Distrital de Lisboa do PSD, fui recebido por Cavaco Silva, na altura primeiro-ministro. Recordo a sua alegria logo ao receber-me: estivera pouco antes com Vítor Constâncio, líder do PS, o qual concordara fazer a revisão constitucional e acabar com o princípio da irreversibilidade das nacionalizações e com o "rumo ao socialismo".

O PS, conservador e atrasado com a história, resistira mais de dez anos (!) a este clamor do PSD. O Muro de Berlim cairia em novembro de 1989, breves meses depois. Teria sido a vergonha absoluta para o PS se o 'rumo ao socialismo' ainda estivesse na Constituição nesse dia.

A reação do PS hoje tem o mesmo perfil de conservadorismo e atraso com a história: o Estado social é uma mentira se não for recriado e redefinido para que possa ser sustentável. Querer o Estado social é ter a coragem e a liberdade de o tornar sustentável.

O PS não gosta das ideias do PSD? Debata no terreno das eleições, não se esconda atrás da Constituição.

Mas a atitude do PS é também autocrática. Como é possível, em consciência democrática, quase 40 anos depois do 25 de abril, negar ao partido alternativo de governo a possibilidade de governar segundo o seu programa? Que democracia é esta, que Constituição é esta, em que o povo está impedido de discutir e de decidir sobre como quer preservar o seu modelo social?

A questão dos despedimentos ainda melhor põe a nu a arrogância dos socialistas.

Como negar ao partido alternativo de governo um texto constitucional alinhado com a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia, segundo a qual "todos os trabalhadores têm direito a proteção contra os despedimentos"?

O PS devia, com seriedade, fazer a pergunta que dói no coração de Portugal: para onde fogem os nossos filhos?

Os nossos filhos fogem, todos os dias, para países com regras de trabalho flexíveis, essencialmente assentes no mérito e no dinamismo da economia.

Tenho filhos a trabalhar em Espanha e em Inglaterra e, santo deus, quem é Portugal para dar lições de direitos fundamentais ou de Estado social a esses países?

Quem explica ao PS que a Inglaterra, pátria europeia da liberdade, é inconstitucional em Portugal? Quem explica ao PS que permitir ao maior partido da oposição governar segundo o seu programa é uma melhoria incontestável da Constituição?

Texto publicado na edição do Expresso de 25 de setembro de 2010

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O drama de pagar a horas

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 3 de setembro de 2010

As empresas portuguesas são, em média, péssimas pagadoras. A tabela do risco de pagamento elaborada pela Intrum-Justitia (European Payment Index-2010), após estudo a vinte e cinco países europeus, é arrasadora para Portugal: somos os piores classificados, com indicadores que nos devem envergonhar.

Os atrasos nos pagamentos, segundo 90% das empresas portuguesas inquiridas, têm vindo a piorar, sendo as faturas pagas, em média, a 88 dias. O sector público, que tinha melhorado, voltou a piorar dramaticamente, demorando, em média, 141 dias (quase 5 meses) a liquidar uma fatura, quando a contratualização, em média, é feita a 57 dias. O estudo revela, ainda, que a maioria das empresas portuguesas acredita que a tendência é para piorar.

Não compreendo que uma empresa possa considerar-se socialmente responsável se nem sequer paga a horas aos seus fornecedores. De pouco valem lindos programas de responsabilidade social ou grandes proclamações de ética e de seriedade, se nem sequer o básico dos básicos, pagar pontualmente, se cumpre.

Líder empresarial que, podendo, não paga a horas os seus compromissos não tem qualidade ética.

E quando não se está em condições de assegurar prazos de pagamento, avisa-se o potencial fornecedor e, eventualmente, acordam-se prazos mais dilatados. É, simplesmente, o que manda o princípio da boa-fé.

A questão é económica e socialmente grave: a Comissão Europeia identificou os atrasos nos pagamentos como uma das principais barreiras ao crescimento das empresas, em especial das de menor dimensão. Num dos seus estudos, refere que o excessivo prolongamento dos prazos de pagamento justifica cerca de 25% das falências verificadas na UE e leva à perda de 450.000 postos de trabalho por ano.

O papel do Estado neste domínio é explosivo: primeiro, porque dá um exemplo desastroso a toda a economia, pagando muito mais tarde do que todos; segundo, porque esfola o IVA às empresas, quer elas tenham já recebido ou não dos clientes; terceiro, porque serve de desculpa recorrente no mundo empresarial para que as empresas não paguem pontualmente uma às outras, quer dependam do Estado quer não.

Pagar a horas é uma questão de cultura empresarial e, sobretudo, de honradez pessoal dos líderes empresariais. Se eu não pagasse a horas aos meus fornecedores coraria de vergonha, não consigo, mesmo, compreender que todos os outros não sintam o mesmo.

Pagar a horas é ser bom cidadão. Os maus cidadãos deveriam pagar uma taxa pelos danos económicos e sociais que causam. Esta questão não é meramente entre particulares, de direito privado, a questão é de natureza social, causa sofrimento, desemprego e pobreza, merecendo a atenção das políticas públicas, desde logo da política fiscal.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Agosto de 2010

 

Harvard e o Estado

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 30 de julho de 2010

Como nos privados, uma boa decisão do Estado seria dar uma ordem de redução de custos administrativos com a indicação: se o objetivo não for atingido, sê-lo-á por via da redução salarial.

Na sua edição de Maio, a "Harvard Business Review" publicou um artigo usual, mas que, lido de uma certa maneira, se transforma num texto brusco e interpelativo.

O artigo tem um título familiar para o sector privado: "When you've got to cut costs". Depois, também familiar para o sector privado, os professores autores do artigo começam sem cerimónias: "Você tem sido até hoje um bom gestor de um grande departamento. Sempre que pôde, reduziu custos. Mas agora recebeu uma ordem do topo da empresa (de alguém relativamente ao qual não pode discutir nem a bondade nem a exequibilidade da ordem) decretando que você tem que reduzir os custos administrativos do seu departamento em 10%, 20% ou 30%, sem incluir despedimentos. Now!"

Logo de seguida é dito: "You just don't see how it can be done".

A reflexão prossegue com as orientações adequadas para obter reduções de 10%, 20% ou 30%.

A brusquidão e a interpelação do artigo é esta: por que razão este tipo de ordem, cuja bondade e exequibilidade não se pode discutir, não é recebida pelos gestores dos múltiplos departamentos do Estado? Sim, reduzam custos, sem despedimentos, 10% ou 20%. Ou 5%, para começar, "now"!

A maioria irá dizer que "I just don't see how it can be done", mas não se preocupem com isso, porque é exatamente o que diz o gestor privado. Fica desorientado, às vezes revoltado. Não é esse o problema, o problema é que a redução de custos tem que ser feita.

O grande ponto está em não dar saída ao gestor, ele tem um problema para resolver que não sabe como, mas vai acabar por resolvê-lo, ou sai para que outro o faça.

Não é justo vivermos numa sociedade a dois tempos e a duas exigências. Como não é justo para tantos excecionais funcionários superiores do Estado não serem tratados com a mesma motivante exigência com que seriam tratados no sector privado, atirando-se-lhes para cima problemas radicalmente desafiantes como este.

Ainda é menos justo ver os portugueses do sector privado, que passam por todo este stresse, a serem sugados por uma instituição, o Estado, que vive falido e à margem da nossa realidade.

O problema reside no facto de os funcionários públicos nada terem a perder. Têm segurança no emprego e a convicção, dramaticamente correta, alimentada por políticos sem qualidade, de que nos aumentarão os impostos e tudo sempre se resolverá.

Uma boa decisão de Estado seria dar uma ordem de redução de custos, com a indicação de que se o objetivo não fosse atingido por via da redução dos custos administrativos seria atingido por via da redução salarial.

Todos teriam a perder, como no sector privado e, como no sector privado, podem ter a certeza, a ordem seria cumprida e excedida.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de julho de 2010

Messização de Ronaldo

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 2 de julho de 2010

O sucesso da seleção nacional no Mundial da África do Sul passa por adotar uma estratégia semelhante à da vitória no Mundial de Juniores de 89.

Portugal dizimou a Coreia do Norte, mas a questão portuguesa neste Campeonato do Mundo mantém-se intacta: como ganhar um campeonato a adversários que são melhores do que nós? É esta a questão.

A resposta para este desafio pode ser encontrada na história do nosso futebol e na história do próprio Carlos Queiroz. Portugal foi bicampeão do mundo sub-20, em 1989 e 1991, das duas vezes liderado por Carlos Queiroz. Vale a pena enquadrar a atual seleção no que então se passou.

Em 1989, na Arábia Saudita, o nível médio da nossa seleção deixava muito a desejar e, mesmo assim, fomos campeões. Que destino tiveram Bizarro, Abel Silva, Valido, Morgado, Tozé, Hélio, Amaral, Paulo Alves, Folha, Paulo Madeira, Resende e outros? A obra notável de Carlos Queiroz foi formar com jogadores médios portugueses uma equipa campeã do mundo. Os princípios eram fáceis de perceber, um sistema com tração ao meio (e não atrás), uma equipa muito competitiva e organizada, trasbordantemente tática, calculista até ao ponto de ser chata, treinada para nunca perder o controlo das situações e maximizando os fatores de excelência que tinha, sobretudo João Pinto. Não éramos a melhor seleção e ganhámos.

Em 1991, com Figo, Rui Costa, João Pinto e outros, a seleção voltou a ser campeã do mundo, em Lisboa, numa versão diferente. Portugal sabia, nesse ano, ser a melhor seleção e assumiu-o. Contra os três médios defensivos de 1989, Portugal chegou a jogar com um apenas (Peixe). Éramos a melhor seleção e ganhámos.

Agora, na África do Sul, a referência de Portugal deve ser a aventura de 1989 e não a de 1991. Parece-me que Carlos Queiroz o percebeu. Não é por acaso que a seleção sofreu apenas um golo nos últimos nove jogos. O sistema defensivo, que envolve toda a equipa, vem sendo afinado nos últimos dois anos e transformou-se num verdadeiro sistema de controlo do jogo, tal como em 1989.

Há males que vêm por bem: a saída de Deco ajudou Carlos Queiroz a encontrar o trio de médios todo-o-terreno que asseguram o tal controlo do jogo. E pode ir mais longe neste conceito. Recordo a forma como Mourinho enfrentou a final da Liga dos Campeões quando era treinador do Porto: os tais três médios que lhe asseguravam o controlo do jogo (Costinha, Maniche e Pedro Mendes), mais Deco. Carlos Queiroz não deve desprezar esta via, colocando Deco como quarto médio.

Sobra um ponto decisivo: como maximizar Ronaldo? Maradona deve ser dos piores treinadores do mundo, mas teve uma ideia genial: colocar Messi escondido no meio-campo, protegido por uma guarda pretoriana, criando as ruturas da equipa e aparecendo várias vezes embalado à entrada da área. Entre ter Ronaldo intermitente nas alas ou entregar-lhe o jogo, como Maradona entregou a Messi, não é de excluir esta segunda solução, sobretudo se Deco não recuperar a forma.

Vamos confiar e torcer. A partir do mata-mata dos oitavos de final só o modelo de 1989 nos pode inspirar. Não é ser pouco ambicioso, é ser realista para poder ser ambicioso.

Texto publicado na edição do Expresso de 26 de Junho de 2010

Bento XVI e o nosso dilema

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 28 de maio de 2010

O dilema central da fé não é o preservativo, o aborto, os casamentos entre pessoas do mesmo sexo, se a Igreja é conservadora ou se os padres falam bem. O dilema central da fé cristã é cada um de nós, resumido a duas palavras: eternidade e salvação. Ter fé significa acreditar numa vida após esta - promessa de Cristo - e ser cristão significa acreditar que essa vida depois da morte pode ser o céu ou pode ser um inferno, pode ser uma alegria ou um suplício, tudo dependendo de termos conduzido a nossa vida na Terra segundo a doutrina do Evangelho ou não.

A nossa fé não prova que Deus existe, assim como a negação humana de Deus não prova que Deus não existe. O mistério permanece enorme nas nossas vidas, com consequências intensas na nossa vida terrena e eventuais consequências dramáticas na vida eterna que nos está reservada. A fé coloca este dilema e oferece esta esperança. Neste mistério estamos entregues à nossa liberdade e às suas consequências.

A mensagem nuclear de Bento XVI aos portugueses procurou, metodicamente, focar no essencial um povo que se diz católico.

Ainda no avião, analisando a questão da pedofilia, confrontou a Igreja com a sua própria salvação: "A novidade que podemos descobrir hoje reside no facto que os ataques ao Papa e à Igreja vêm não só de fora, mas que os sofrimentos da Igreja vêm justamente do interior da Igreja, do pecado que existe na Igreja". A declaração tem efeito político, mas o que é importante é que se aplica à vida de todo o crente: os ataques à nossa salvação vêm do interior de nós mesmos.

Quando pisou o aeroporto de Lisboa, foi à raiz do dilema humano: "A relação com Deus é constitutiva do ser humano: foi criado e ordenado para Deus, procura a verdade na sua estrutura cognitiva, tende ao bem na sua esfera volitiva, é atraído pela beleza na dimensão estética". E, em Fátima, num passo sublime sobre a natureza do Homem: "Deus tem o poder de chegar até nós nomeadamente através dos sentidos interiores, de modo que a alma recebe o toque suave de algo real que está para além do sensível, tornando-a capaz de alcançar o não sensível, o não visível aos sentidos".

No seu encontro com os sacerdotes foi incisivo sobre a missão da Igreja na salvação dos homens: "Somos responsáveis pelo anúncio da fé, da totalidade da fé, e das suas exigências". E ainda mais nítido: "Muitos dos nossos irmãos vivem como se não houvesse Além, sem se importar com a própria salvação eterna. Os homens são chamados a aderir ao conhecimento e ao amor de Deus, e a Igreja tem a missão de os ajudar nesta vocação".

Lendo o Evangelho, a fé é isto. A Igreja é isto, é esta a sua liberdade e a sua solidão diante dos tempos. Cada um de nós é isto, este dilema e esta esperança diante deste mistério.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010

Agenda social e agenda liberal

António Pinto Leite (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 30 de abril de 2010

Pedro Passos Coelho identificou bem o problema português e tem coragem na agenda que defende.

Quando houver eleições, ninguém poderá dizer que Pedro Passos Coelho "é igual a Sócrates", nem que é um "político de plástico". Nem Sócrates nem um "político de plástico" defenderiam, sobretudo antes de eleições, o que Pedro Passos Coelho defende.

Um "político de plástico" não vai ao fundo dos problemas como a agenda de Pedro Passos Coelho vai.

Dar liberdade de escolha na Educação, atacar com recurso aos sectores social e privado a ineficiência do Sistema Nacional de Saúde (30% de desperdício pago pelos nossos impostos, segundo o Tribunal de Contas), reformar de modo incisivo a Administração Pública, rever a lei do arrendamento, ajustar a flexibilidade das leis laborais aos regimes das economias que connosco mais directamente concorrem não são políticas de plástico.

Tem também todo o sentido pedir a revisão constitucional ao PS para permitir reformar o Estado em profundidade. Esta revisão constitucional é tão importante para Portugal como a revisão de 1989, que Vítor Constâncio acordou com Cavaco Silva. Só a reinvenção social do Estado permitirá defender o Estado social a prazo.

Pedro Passos Coelho deve, urgentemente, explicar que a sua agenda é social e não liberal.

O imaginário igualitário da esquerda está hoje reduzido ao mito de que uma agenda social passa e se centra no Estado. Como o Estado está falido e vem arrastando consigo a sociedade civil para a falência, o mito da esquerda é duplamente perigoso: põe em risco o Estado social e põe em rota de agonia lenta a própria sociedade, a economia privada, as classes médias, a própria esperança de progresso.

É por isso que a agenda social portuguesa passa e deve centrar-se na reforma do Estado.

Veja-se a Educação: quase 40 anos depois do 25 de Abril, 59% dos adultos em Portugal têm apenas o ensino primário, apenas 43% das pessoas entre os 25 e os 34 anos completaram o ensino secundário (sendo 77% a média da OCDE) e ainda temos uma taxa de iliteracia de 7% (1% média da OCDE). E gastamos em educação mais do que a média dos países da OCDE!

Este exemplo demonstra como a ineficiência do Estado condenou milhões de portugueses à pobreza e o país ao atraso.

Quem sofre com isto não são os ricos, são os pobres que sonham ver os filhos alterar a sua condição.

Pedro Passos Coelho, com a sua comunicativa tranquilidade, tem de saber aumentar o nível de desconforto dos portugueses perante o contexto desfavorável em que nos encontramos. E deve promover, apostando nos sectores dinâmicos e inconformados da sociedade, o combate de ideias que é condição prévia de sucesso para o projecto que defende.

A agenda de Pedro Passos Coelho é uma agenda dramaticamente social e não uma agenda diletantemente liberal. O primeiro passo do seu combate político é fazer os portugueses tomarem consciência disso.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Abril de 2010

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