22 de maio de 2013 às 18:58
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António, classe média, idiota de serviço

Miguel Sousa Tavares (www.expresso.pt)

Com 600.000 desempregados às costas e atulhado até à alma na total promiscuidade entre a coisa pública e os grandes negócios privados, o Partido Socialista acaba de desenterrar a "ideologia". E, ao que parece, a ideologia é um argumento por si só, que permite dissolver as questões complicadas numa aura de pureza político-filosófica, acima do concreto das coisas. Como se pode continuar a financiar o modelo do Estado social europeu sem rebentar com a economia (a questão mais premente do tempo que vivemos)? Responde o PS: "Está fora de questão pôr em causa esse modelo. Faz parte do património genético da esquerda e nós somos de esquerda". Até quando e com que custos se pode continuar a massacrar fiscalmente a chamada classe média ou média-alta, enquanto tantos outros que podiam e deviam pagar impostos, acima e abaixo, vivem numa suave imunidade fiscal e o Estado vive no desperdício? Responde o PS: "A subida do IRS é uma medida de justiça social e de esquerda, porque nós não somos neoliberais". Eis a ideologia, em todo o seu esplendor. Já a minha mãe dizia que o PS lhe fazia lembrar os animais pré-históricos: tem um grande corpo e uma pequena cabeça. O que mais me preocupa é que, quinze ou vinte anos depois, não se vêem diferenças na desproporção entre o tamanho do corpo e o da cabeça.

Na Assembleia da República, discutindo o estado da nação, o primeiro-ministro parecia um torcicolo político: virava-se para a esquerda e acusava-os de serem demagogos, que se permitem tudo exigir do Estado porque não têm nem querem ter responsabilidades governativas; virava-se para a direita, que o acusa de preferir cobrar mais e mais impostos a quem produz riqueza a cortar na despesa do Estado, e chamava-lhes neoliberais (o palavrão do momento), que querem proteger os "ricos" contra os pobres. Sentado nas galerias do público, assistindo ao debate, António (trabalhador verdadeiramente independente e por conta própria, 7000 euros de rendimento mensal totalmente declarado ao fisco, 46 anos e 46,5 % de IRS mais 11% de Segurança Social) ouvia o primeiro-ministro explicar que cortar nas deduções de despesas com saúde e educação não era aumentar o IRS mas sim "diminuir a despesa fiscal do Estado" e que essa era uma medida justa, porque quem mais deduz é quem mais tem.

"Bem - pensou ele -, pode ser que isso, como diz o PM, não seja tecnicamente uma subida de imposto, mas a verdade é que, se me diminuem as deduções, eu vou pagar mais imposto e isso é o que conta. Também é verdade, como ele diz, que é quem mais ganha quem mais deduz - mas apenas porque a dedução é calculada sobre o que se paga e quem mais deduz é quem mais paga. Ou faria sentido que fosse quem menos imposto paga a deduzir mais?"

Mas depois António ouviu o PM a dizer que esses "ricos" o que querem é recorrer à saúde e ao ensino privado para os filhos e assim não contribuírem para financiar a saúde pública. Ouviu e quase explodiu de raiva.

"Mas então este não é o primeiro-ministro de um governo que financia o ensino privado porque o acha indispensável? Este não é um governo que constrói hospitais para os entregar à gestão privada e ainda lhes paga por cima, porque acha que lhe sai mais barato do que o desastre da sua gestão nos hospitais públicos? E eu, que não sobrecarrego os sistemas públicos, tendo os meus filhos no ensino privado e contrato a saúde com seguradoras do sistema privado, ainda sou acusado de fugir ao público para não ter de pagar? Não ter de pagar o quê - as taxas moderadoras dos hospitais, as propinas simbólicas do ensino público? E como não pago, se me levam 46,5% de IRS, mais 11% de Segurança Social, mais IMI, IVA, IC, IP, taxas urbanas de esgotos, de limpeza das ruas, disto e daquilo? Quer dizer: eu, que pago ao Estado o máximo e lhe peço o mínimo ou nada, ainda sou acusado de ser mau cidadão e um privilegiado que é preciso abater a todo o custo?".

Depois, António ainda ouviu um exaltado socialista bramar contra os que querem derrubar o Estado social europeu em nome do neoliberalismo. Mas já não escutava: estava a divagar. Imaginou-se sueco, dinamarquês, norueguês, cidadão do verdadeiro Estado social europeu, das pátrias da social-democracia, os países mais prósperos e mais justos do mundo. "Aí, pensou ele, com o que ganho, não pagaria mais de 30% de IRS (ganhando muito mais, sendo mesmo rico, até podia chegar a pagar 55%). Mas, em contrapartida, não teria necessidade de recorrer nem à escola privada nem aos hospitais privados. Na escola pública, teria o melhor ensino do mundo, os professores não faltariam com a impunidade com que faltam aqui e não se perpetuariam no lugar e na categoria, sendo incompetentes. No hospital público, não esperaria meses por uma consulta, não veria instalações decrépitas nem médicos irresponsáveis pelo erro. E não pagaria um euro por utilizar os serviços públicos, porque já teria pago tudo o que a sociedade me exige, com o imposto único. Nos tribunais, não aguardaria anos por uma sentença e depois de pagar uma fortuna em custas judiciais; não veria as paisagens naturais do país serem urbanizadas em nome do "interesse público" de empresários privados; não veria os bancos pagarem 7% de IRC sobre os lucros, enquanto eu pagava 30% sobre o meu trabalho; veria as fundações nascerem e crescerem com dinheiros privados e não com dinheiros públicos e nomes privados; teria um Estado apenas com os funcionários necessários ao cumprimento das suas funções e que não se desdobraria em institutos, empresas públicas ou municipais, para multiplicar por três os lugares disponíveis; todos os funcionários do Estado eram avaliados e os incompetentes sumariamente despedidos; os aldrabões eram presos e não condecorados; os vigaristas escondiam-se de vergonha e respondiam perante a Justiça e não andavam em festas sociais e a dar entrevistas aos jornais ou a viajar no avião do primeiro-ministro, em visitas de Estado; haveria um consenso entre toda a sociedade sobre valores e diferenças essenciais cuja apreciação não depende de ideologias políticas: coisas como a honra e a vergonha, o trabalho e a ociosidade subsidiada, o mérito e a mediocridade, o serviço público e o serviço do partido, a iniciativa privada e o favor público. E, obviamente, a regra sobre justiça fiscal seria a oposta da que vigora aqui: porque, por estranho que nos pareça, naqueles países felizes, quem foge ao fisco é preso e quem paga é respeitado".

E foi a pensar nisto que António saiu anteontem da Assembleia da República, depois de ouvir em que estado estava a nação. O estado é de endividamento a perder de vista: financeiro, económico, moral. De nenhum consolo lhe serviu pensar que, ao menos, aos trabalhadores independentes como ele, vivendo apenas do seu trabalho e do seu mérito, não trabalhando, não pedindo e não dependendo em nada do Estado, ninguém podia acusar de terem contribuído para o endividamento do país. Mas, mesmo sem culpa própria alguma, mesmo pagando ao Estado o que nunca gastou nem gastará, ele sabe que a conta vai sobrar para os seus filhos e netos.

À saída da Assembleia, antes de entrar no carro que pagou 40% mais caro devido aos impostos, António olhou um cartaz da extrema-esquerda que dizia: "São sempre os mesmos a pagar a crise!". "Pois são, pensou ele, mas não são os que vocês dizem. Mas um dia, ainda hão-de reparar em nós - se ainda cá estivermos".

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Junho de 2010

Nota
Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Comentários 19 Comentar
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Pagar obrigado...
ou fazê-lo de cara alegre ?!?

Um trabalhador por conta de outrem, que ganhe 7000 euros mês, trará para casa 3080 euros.

No total, descontos feitos pelo próprio e pela entidade patronal chega-se a 80% do valor do salário, cerca de 5600 euros/mês.

Nos países nórdicos estes valores são comuns, mas com uma grande diferença. O que o Estado devolve ao cidadão em Saúde, Educação, Segurança e Velhice, faz com que todos paguem de cara-alegre, e não porque são obrigados.

Acabo de ouvir o Prof Adriano Moreira (suspeito socialista) dizer que a revisão da Constituição quanto ao pagamento da Educação e da Saúde é uma perfeita idiotice e, que retira "esperança" ao povo. Veremos de novo as bichas de pessoas exibindo os atestados de pobreza.

Passos Coelho que se cuide, pois esquece que quem ganha acima da média, já pagou a Educação e a Saúde a que deveria ter direito.
Tono, Tono, Tono...
Eu sou o antónio, assim, com A minusculo e sem acento (nem assento).

Já não tenho paciência para ouvir politicos. Só futebol. Não leio jornais, só pasquins futebolisticos. Costumava ver a novela à hora do noticiário, mas também já me enfada.

Não, não sou classe média alta, sou baixa. E estamos a falar de baixa abaixo de 1000€ por mês. Não vou à assembleia da républica, tenho que trabalhar, não me posso dar a devaneios.

Mesmo com a 4ª classe posso imaginar que os milhares de milhões de euros de lucro dos bancos anuais, taxados a 20%, seriam suficientes para equilibrar as contas do estado,mas como isto afugentaria as receitas provenientes da Lavagem de dinheiro de Angola, da Igreja Universal e de tantos outros empresários dos paises produtores de coca, é melhor deixar como está. Em tempo de crise os moralismos são um luxo. Em tempos de prosperidade seriam uma tolice.

Ou talvez não. Porque não taxam a banca e depois logo se vê? Afinal, assim só ganham os banqueiros, os corruptos, os traficantes e os falsos profetas. Como nada se perde e tudo se transforma, com menos dinheiro na mão desta gentalha, mais haveria de ficar na nossa, ou não?

A mim resta-me esquecer as férias para ver se tenho dinheiro para comprar os livros dos miudos quando as aulas começarem.
Re: Tono, Tono, Tono... Ver comentário
Quais custos? Ver comentário
Re: Quais custos? Ver comentário
Pois há, em vias dextinção. Ver comentário
o antonio.. ( miguel)....
cuidado que com essa "arrogancia" descritiva.. ainda lhe vao cobrar o imposto de " opiniao"!!!
  por acaso ate devia dar uma bela de uma boa quantia....
  com tantos comentadores e jornalistas por ai........
  ou sera que os seus correlioginarios ja nem lhe ligam "peva"?
um dos Antonios...
..que se reve inteiramente neste texto. O Miguel (que a gente ca do norte gosta de tratar por tu aqueles de quem gosta) e um dos portuguese que ainda me dá alguma esperança (cada vez menos e certo!).

Penso que esta na hora dos Antonios's, dos Migueis, dos Mários, e outros mais levantarem a voz e imporem-se contra este estado lamacento a que chegamos. Esta na hora de limparmos a "casa"

Mj
Ja Fui Antonio, mas ja nao sou
Ja fui um dos muitos Antonios, que pagou impostos elevados (e variados) para pagar maus servicos publicos e contribuir para as negociatas do PS e dos seus Comparsas neste maravilhoso "Estado Social". Emigrei ha 6 anos. Hoje vivo num pais "neo-liberal" onde tenho de pagar todas as minhas despesas e da minha familia (habitacao, saude, escola, poupanca reforma, portagens, etc.) mas onde em troca recebo servicos de primeira qualidade. Moral da historia, apesar de viver num pais "neo-liberal" onde tenho de pagar por todos os servicos, gasto 10% daquilo que costuma pagar em impostos quando trabalhava em Portugal e ganho mais 400% do que a minha mais alta remuneracao em Portugal. Hoje sou remunerado por tudo aquilo que os meus pais (antes) e posteriormente eu investi em educacao e trabalho arduo. Agoro acho piada, ver o Sr. Miguel Sousa Tavares que tanto defendeu o actual Primeiro Ministro e Criticou a Dra. Manuela Ferreira Leite antes das eleicoes, vir agora dar esta grande pirueta e queixar-se do Estado da Nacao. Afinal nao e so o Eng. Socrates que deve estar com torcicolos. Ser Antonio? Se Deus quizer nunca mais.
...
Gostei muito.

Conceição Pereira
O EQUIL´BRIO
Nenhuma sociedade pode sobreviver sem a classe média alta!
É A CLASSE MAIS IMPORTANTE!!!
Re: O EQUIL´BRIO Ver comentário
direito a opinião
Todos têem direito a opinião,e não disse nenhuma mentira.
Também não preciso que me liguem «peva»,eu não gosto
que me liguem,porque também não ligo a ninguem.
Re: direito a opinião Ver comentário
Que pena que os portugueses têm do Sr. António!
Apesar de toda a aparente revolta do Sr. António, nós sabemos que ele no dia em que tiver uma macacoa grave preferirá ir para um hospital público porque todos sabemos que é onde ele terá maior probabilidade de sobreviver. Também sabemos que o Sr. António preferirá que os seus filhos tenham médias elevadas no 12ºano porque só assim será possível que eles ingressem na Universidade Pública, que é a melhor para todos aqueles que queiram tirar uma licenciatura, um mestrado ou um doutoramento!
Nós também sabemos que dá muito jeito ao sr. António dispor dos benefícios fiscais porque todas aquelas mordomias de consultas de especialidades médicas para tudo e mais alguma coisa, de intervenções de cirurgia estética, implantes dentários nas clínicas Maló em Portugal e no Estrangeiro, de colégios caros de Inglês, alemão e espanhol, etc,etc,etc...tudo isso tem um retorno nos benefícios fiscaisdo IRS de cerca de 50%.
  Mas será que isso é justo? O Sr. António que ganha quase o dobro de um Ministro, ter todas aquelas mordomias ao nivel da saúde do ensino e depois no fim do ano receber milhares de Euros do Estado de benefícios fiscais?
E depois, o Sr. António, normalmente, apenas dispõe de sete, dez, vinte mil Euros de Ordenado fixo mensal, mas em regra, potencialmente poderá receber, outro tanto ou muito mais em trabalhos individuais remunerados, direitos de autor, publicação de obras, etc, etc,....
Que pena que os Portugueses têm do Sr. António que é explorado pelo Estado até à exaustão!
Desconfie sr. António...
O mal deste país são exactamente esses "Antónios" que por cá andam a lixar os "Zés".
7000€? Num país onde o salário minimo é inferior a 500€ (e os patrões já vêm dizer que - por 0,25€ - não vão lá chegar, faltando ao acordado)? Que pena sr. António!
Provavelmente até ajudou a meter lá o sr. Engº e o sr. Teixeira...
E provavelmente agora tentará lá meter o sr. Coelho...
Mas desconfie sr. António. O "buraco" do Público só é grande, porque é lá que se "esconde" o do Privado.
NUNCA DESISTA...
Miguel Sousa Tavares, como cronista, tem duas características que me agradam e me «forçam» a ler a suas crónicas: Uma, seguramente que não a mais importante, é que escreve bem; a outra é que diz, quase sempre (no futebol, valha-me Deus!…), aquilo que eu gostaria de dizer, se tivesse engenho, arte e tribuna para o fazer.
Eu sei que o «António» que assistiu ao último debate dobre os estado da nação é você. Mas também sou eu. E muitos outros que eu conheço, que continuam adormecidos. Envergonhados de terem um pensamento politicamente incorrecto. Não sou dos que acha que tudo está mal. Mas acho que muita coisa está mal e que a grande tragédia é o não conseguirmos inverter a caminhada para o abismo. Confrange-me ver os políticos (quase todos) deste país, fazerem aquela circunspecta pose de estado, para dizer, sempre e só, generalidade. Banalidades.
Nunca se canse de lhes «bater». Tal como a mulher do chinês…saberá sempre por que está a apanhar. Embora seja pouco provável que eles alguma vez se doam. A avidez de chegarem ao cocho sobrepõem-se à dor do chicote…
Chama o António...MST!!
Não serás tu o António? claro que o desporpoção taxas de imposto entre empresas, neste caso a banca 7% e um trabalhador independente pagar 30% é absurda e injusta.
MST... tu é um no cravo e um na ferradura, tens razão quando falas da sobre taxação e a discrepancia de taxas desses impostos entre banca e os trabalhadores independentes. Completamente de acordo taxação deve ser igual para todos e proporcional aos rendimentos de cada pessoa ou empresa. Agora este apelo aos betinhos e independentes para fugir ao fisco é compltamente irresponsável da tua parte. Se o "tone" tem os filhos na privada e cuidados médicos é por opcção própria. E se os "antónios" começarem a fugir todos ao fisco e depois lembram-se e com direito de usifruir dos serviços publicos? o país ainda fica numa situação mais insustentável...
E és opion maker? tenta a Dinamarca ó "Tóne"!!

abraço!
Coitadinho do António!!!
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