19 de maio de 2013 às 13:52
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Angola e caso Banif

Nicolau Santos (www.expresso.pt)

A história é verdadeiramente extraordinária. Em 1994, altura em que a guerra civil continuava a lavrar, o Estado angolano, controlado pelo MPLA, tentou comprar 49% do Banif por o banco, liderado por Horácio Roque, ser suspeito de financiar a UNITA. Para tal, serviu-se de três supostos testas-de-ferro portugueses e transferiu €104,6 milhões para contas sediadas em paraísos fiscais.

As acções foram efectivamente compradas, mas nunca chegaram a representar 49% do capital do banco, porque entretanto foram realizados vários aumentos de capital. Algumas delas foram adquiridas a preços exorbitantes: dois milhões por €15, quando o valor em bolsa mais elevado no ano em causa foi de €7,68.

Agora, passados quase dez anos sobre o momento em que as sociedades offshores utilizadas na operação venderam os títulos e foram dissolvidas, o Estado angolano descobre que as acções não estão em seu nome e que o dinheiro que transferiu se esfumou.

Como é possível? Como se pode perceber que se invista tanto dinheiro para alcançar um objectivo e que nenhum angolano ligado à operação perceba durante uma década que alguém se locupletou com o dinheiro e que os testas-de-ferro não fizeram o que lhes tinha sido pedido?

Mistério... ou cumplicidades na apropriação dos fundos. Agora, Luanda avança com uma denúncia às autoridades judiciais portuguesas e constitui-se assistente no processo, procurando reaver o que diz ser seu. Acusa os três homens de terem enriquecido de modo ilícito e judicialmente reprovável à custa do Estado angolano.

A história faria rir se não desse uma enorme vontade de chorar. Numa altura em que a população angolana passava por terríveis privações devido à guerra civil, o Estado angolano gastou algumas dezenas de milhões de euros para tentar comprar uma forte participação num banco português, que se supunha estar feito com o inimigo.

Podia tê-lo feito às claras, mas não: optou por um esquema sub-reptício, talvez não ilegal mas certamente eticamente censurável, contratando cabeças-de-turco para realizarem o trabalho sujo. Fez passar o dinheiro por onde não deixa rasto e onde não se pagam impostos. Nunca houve papéis assinados. Tudo funcionou na base da confiança. Numa frase dura: um esquema mafioso.

Esqueceu-se Luanda que o dinheiro cega os homens - sobretudo aqueles que já não são idóneos o suficiente para aceitarem ser testas-de-ferro para operações onde a palavra 'lisura' não cabe. Agora que Luanda descobriu que não tem nem dinheiro nem acções vem queixar-se às autoridades portuguesas, pedindo para lhe ser devolvido o que perdeu num negócio privado e muito pouco transparente.

Não deixa de ser uma enorme ironia - e certamente uma situação que qualquer pessoa espera que o Estado ou investidores angolanos não voltem a repetir. Nos últimos anos, o caminho parece ser esse. No BPI e na Galp está Isabel dos Santos e sabe-se. No BCP está a Sonangol e sabe-se.

Mas, infelizmente, o tique secretista e as operações dissimuladas continuam a existir. Investidores angolanos compraram um semanário em Portugal mas só são conhecidos os advogados que os representam. Os verdadeiros donos não dão a cara. E quando é assim, como no caso do Banif, só se pode pensar que os seus desígnios são obscuros. No final, se não virem a cor do dinheiro, não se queixem.

Confiar em Fernando Pinto

Fernando Pinto chegou há onze anos a Portugal para presidir aos destinos da TAP. Na altura, o primeiro-ministro era António Guterres e desde aí já lhe sucederam Durão Barroso, Santana Lopes e José Sócrates. Ministros das Obras Públicas e Comunicações, que tutelam a TAP, foram ainda mais. Nestes onze anos, houve o 11 de Setembro, a subida exponencial do preço dos combustíveis e a maior recessão económica desde 1929.

Pelo caminho, muitas transportadoras aéreas tiveram de fechar as portas (vide a Sabena e a Varig; e desde Janeiro deste ano 50 companhias faliram). A TAP não só não fechou, como descobriu novas e muito rentáveis rotas (para o Brasil e África) e renovou a frota, além de ter conhecido uma invulgarmente longa paz social numa casa com 14 sindicatos. E os trabalhadores da empresa, mesmo quando não concordam com Fernando Pinto, sabem que

1) ele é um profundo conhecedor do negócio aéreo

2) é conhecido e prestigiado a nível internacional

3) é muito transparente sobre a situação da empresa.

Por isso, o recente relatório da Parpública sobre a TAP pode ser lido de duas maneiras: ou alarmista (a empresa está em situação crítica) ou positiva (apesar de todas as dificuldades, a transportadora está a dar a volta e a inverter os maus resultados). Este ano, os sete primeiros meses foram muito positivos, em resultado da redução dos custos de petróleo e da operação que mais que compensaram a perda de receita no mercado europeu. No último trimestre, adensam-se as nuvens, com possível nova alta do petróleo e os efeitos devastadores que terá uma pandemia da gripe A.

Além de mais, a Groundforce (handling) e a TAP Manutenção Engenharia Brasil continuam a dar um contributo negativo para os resultados da companhia. Mas, pelo menos no segundo caso, é uma questão de tempo até começar a dar dinheiro.

Em qualquer caso, não se vê quem em Portugal melhor possa levar a TAP a pousar em aeroporto seguro do que Fernando Pinto. Ao longo destes 11 anos, ganhou, por mérito próprio e da sua equipa, o direito a que confiemos nele e no que está a fazer.

O Bloco parou no séc. XX

O debate televisivo entre José Sócrates e Francisco Louçã serviu para mostrar duas evidências. A primeira é que a agenda do Bloco de Esquerda, no plano económico, faz hoje tanto sentido como uma viola num enterro. E a segunda é que o Bloco, com Francisco Louçã à frente, nunca apoiará uma solução governativa do actual Partido Socialista.

Em recente entrevista ao Expresso, o ex-líder socialista Ferro Rodrigues colocou o dedo na ferida: o PCP e o BE são partidos que se auto-excluem de qualquer solução governativa. Por isso, o PS, para governar, ou obtém uma maioria absoluta ou acaba por ter de se entender com os partidos de direita.

Esta semana, Francisco Louçã deu-lhe toda a razão. E tornou claro que o principal adversário do BE é o PS.

Mas vamos ao programa económico do Bloco. Em pleno século XXI, e depois de o país ter passado por um período em que quase toda a economia foi nacionalizada, com resultados francamente penalizadores para as empresas, os trabalhadores e os consumidores, o BE vem propor a nacionalização da banca, dos seguros e da energia.

Ora se há sectores onde a concorrência trouxe notáveis melhorias para os clientes e consumidores, a banca e a energia foram dois deles.

Mas Francisco Louçã quer mais. Quer que a Caixa Geral de Depósitos suporte as políticas públicas, nomeadamente de crédito às pequenas e médias empresas que, segundo ele, pagam 12% pelo crédito que contraem quando a taxa indicativa do Banco Central Europeu está em 1%.

O que Louçã não explica é quem vai pagar os prejuízos que a Caixa assim terá, ao actuar num mercado fortemente concorrencial como é o bancário com taxas de juro abaixo das que são praticadas pelos concorrentes. E a resposta é: serão os contribuintes, ou seja, todos nós.

Finalmente, o Bloco propõe que se acabem com todos os benefícios fiscais dos PPR, à saúde e à educação. Mas aí, como lhe disse Sócrates, o que se está a fazer é a retirar à classe média a possibilidade de ainda deduzir algo aos impostos que paga ao Estado.

Nicolau Santos

Comentários 13 Comentar
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Caro Nicolau
Defender o Pinto dessa maneira é que NÃO.

FOI UM PEDIDO DO DELGADO?

Por acaso vc também não é um daqueles que foi ao Brasil?

Começo a duvidar...
Re: Caro Nicolau Ver comentário
LOUÇÃ O BURGUÊS ALIADO DA DIREITA CONSERVADORA
Infelizmente as expectativas criadas á volta do BE começam a revelar-se mínimas, levando inclusivamente muita gente, que exerceu o direito do voto de protesto, a interrogar-se se Louçã é aquele político aureolado pela sabedoria em economia que bem poderia funcionar como catalisador social de certas medidas controversas que o governo tomou.
Os frente a frente revelaram, de facto, que o grande inimigo de Louça é Sócrates, até pela variação entre a cordialidade corrosiva para o líder do PS e o o afecto de compadres que teve com MFL. Na verdade faria muito mais sentido uma coligação entre o BE e o PSD, pelo menos haveria uma relação pessoal facilitadora das decisões e entendimentos governativos. Com Sócrates seria o oposto, daí concordar com Ferro Rodrigues, negociar com o BE é meter uma perigosa cobra na algibeira. Louçã falando em esquerda faz todo o jogo da direita, ganhando sentido que é um burguês falsamente arrependido, como igualmente se compreende as suas posições relativamente a Angola como ex-colono retornado, que lá deixou um pecúlio que porventura foi feito á semelhança de outras riquezas coloniais controversas.
Louçã nunca mais porque é capaz de tudo, traindo a esquerda, para a direita atingir o poder. Historicamente não evoluiu e vive das crises e erros de governação. Acabará como um Lula ex-sem terra, senão mesmo como um Mussolini ex-comunista, é uma questão de tempo, se lhe derem oportunidade de deixar cair completamente a máscara.
Ainda existe colonialismo.
Mais uma vez uma forma de colonialismo expressou-se através do dinheiro. Haja moralidade e devolvam o Kumbu aos seus donos.
Re: Ainda existe colonialismo. Ver comentário
O esquema é mesmo ilícito? Não é mas devia ser!
Se bem entendi, o articulista entende que o Estado angolano se envolveu num esquema ilícito de compra de parte de um Banco português porque o terá feito por meio de sociedades sediadas em praças "off-shore", verdadeiras "shell companies" em nome de três intermediários portugueses. Porém, a verdade é que nada disto é ilegal: nem a existência de praças "off-shore", nem a existência de "shell companies", nem a existência de intermediários. O único pecado do Estado angolano (e não é um pecado pequeno) foi o de ter confiado em quem não merecia confiança.
Voltando ao busílis da questão, quero crer que alguma coisa tem de ser feita relativamente à constituição de sociedades comerciais, sobretudo de feição anónima, e às praças "off-shore". Certamente um especialista em Economia, como o articulista, me dirá que esses instrumentos são um mal necessário numa economia global e que a sua conformação jurídica tem de ser feita, sob pena de se emperrar a circulação do dinheiro. Contudo, um especialista em Direito, como eu, limito-me a ver, todos os dias, as praças "off-shore" e as "shell companies" a servirem de entrepostos na circulação de capital de empresas ou pessoas em dificuldades (muitas vezes falsamente falidas) ou, pior ainda, de origem duvidosa ou declaradamente criminosa. Vejo, igualmente, que nem a polícia nem os tribunais têm meios para accionar a sigla da DEA ("follow the money"). A economia corrompe-se, a justiça falha, o crime e a falcatrua compensam. Tudo por via das SA`s.
Re: O esquema é mesmo ilícito? Não é mas devia ser Ver comentário
XIX
O Louçã parou no séc. XIX, não no XX.
As ideias que esta gente ideologicamente formatada segue, são do séc. XIX, não do séc. XX, e ainda menos do séc. XXI...
Eu acho que é preciso uma dose acentuada de cegueira ou de imbecilidade para ter a presunção de aplicar aquelas patetices a um país europeu no séc. XXI.O meu rico menino fez o trabalho dos 'jornalistas', mais preocupados no Não-caso Freeport, e desmascarou a pandilha!
O tiro foi bem na testa. Francisco Loucã e sua pandilha, não comerão mais criancinhas no caminho da floresta....
Re: XIX Ver comentário
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Re: XIX Ver comentário
Nas pegadas da Historia

3 Temas de tratamento diferente mas que V/Exª. meteu no mesmo saco. (texto)

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Luanda deve fazer como o Detective Colombo faz. Começar a investigação a onde o crime começou.
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A TAP Tendo a monopólio de Linhas para o norte do Brasil e para Luanda como teve muito tempo. Tem por obrigação de ter melhores resultados. As companhias que faliram não tinham de certo essa sorte?

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O Aeroporto de Lisboa esta sempre cheio de passageiros, mas os céus de Lisboa esta limpo de aviões no ar.
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Frankfurt, Paris, Londres os aviões até fazem bicha no ar para poderem a aterrar. Lisboa nada disso acontece. A maioria de aviões que ali aterram é estrangeira.

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O BE é diferente dos outros partidos. O poder é que o poder embebedar como faz a todos os partidos.
O Lula da Silva Presidente Brasileiro também era muito radical, chegado ao poder governou com o trabalho de casa que o outro presidente Fernando Henrique Cardoso tinha deixado feito, e alinhavado e em projecto.

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Lula vai deixar o poder com o Brasil entregue a China.
 
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BE um Histórico Amador.

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