Quando oiço os portugueses debater a contribuição cultural do Reino Unido para o resto do mundo, falam em Shakespeare, Dickens e talvez George Orwell. Gostava de sugerir mais um nome para esta constelação - Monty Python
. A semana passada celebraram-se os 40 anos do primeiro programa na BBC em horário nobre. No começo eram bastante humildes e a fama do sexteto não chegou de um dia para o outro. Mas depois de quatro séries criaram uma marca e um estilo que pegou e que ainda hoje faz parte do nosso imaginário.
De facto, o conceito dos Monty Python é mesmo estranho; seis homens que também interpretavam o papel de mulher, normalmente velhas e feias, uma banda desenhada com um pé gigante, conversas sobre queijo, a Inquisição Espanhola
e carne enlatada; a utilização de animais mortos (recorde-se o "fish dance"
) com os bairros mais banais de Londres como pano de fundo, perto dos estúdios do BBC. Isto é mesmo "very British".
Mas, curiosamente, apesar destas características profundamente nacionais, a série e também os filmes tiveram um grande êxito noutras partes do mundo, incluindo Portugal. A mim interessa-me que o humor ultrapasse tão facilmente barreiras culturais e nacionais. Às vezes o humor consegue trasladar-se porque é feito de gestos, não de palavras (Buster Keaton
, Mr Bean
), sobre situações estereotípicas (Benny Hill). E, de facto, às vezes o humor do John Cleese era mesmo físico (os "silly walks"
). Mas não há nada normal numa conversa entre um homem estranho de gabardina e o dono duma loja dos animais, sobre um papagaio morto
.
Talvez a resposta para a popularidade mundial esteja na anarquia do humor dos Monty Python; um humor que é bastante subversivo, que mina a autoridade, rindo-se de tudo e de todos, até da monarquia. E, talvez também por ser tão inglês, brinca com estereótipos ingleses como o coronel que pensa que todo o humor é demasiado "silly" ou com a vida entediante de um corrector.
Seja qual for a razão, espero que se juntem a mim na celebração deste pequeno pedaço de loucura. E não se esqueçam da ligação portuguesa à série - a música vem dum luso-descendente, John Philip Sousa
.