A ministra da Saúde sustenta que o principal problema do sector é "organizacional", uma doença cujas causas estão nos "administradores e directores de serviço hospitalares".
Para combater este problema, Ana Jorge recomenda "criatividade" mas avisa que "não basta mudar o nome aos hospitais".
Há um ano, quando aceitou substituir António Correia de Campos à frente do Ministério da Saúde - num clima de forte contestação por causa da reestruturação da rede de urgências -, Ana Jorge disse que acreditava no Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Um ano depois, a ministra reafirmou à Agência Lusa a sua aposta nas virtudes do sistema, onde sempre trabalhou em exclusividade, e mostra-se mais conhecedora dos problemas.
"Um dos grandes problemas da saúde em Portugal é organizacional", disse, numa entrevista à Lusa a propósito dos 365 dias à frente do Ministério, que hoje se assinalam.
Na área hospitalar, "tem falhado muito o envolvimento das administrações e dos directores de serviço", disse, considerando que são estes "os grandes responsáveis pelo funcionamento do serviço hospitalar e por envolver os seus profissionais".
Ana Jorge dá como "exemplo de sucesso" o Programa de Intervenção em Oftalmologia (PIO), através do qual foram realizadas mais de 15 mil cirurgias, uma medida que a ministra elege como a "mais emblemática" do seu mandato.
A "chave do sucesso foi o envolvimento dos profissionais e, nomeadamente, dos directores dos serviços de oftalmologia", considera Ana Jorge.
A ministra preconiza mudanças, mas não só ao nível do nome, numa referência à transformação dos hospitais em Sociedades Anónimas (SA) e, mais tarde, em Entidades Públicas Empresariais (EPE).
Para Ana Jorge, "existem alguns hospitais EPE com os profissionais mobilizados e outros que se esqueceram que precisam dos profissionais" de saúde. "Assim não dá, pois só muda o nome", salientou.
Estas instituições dispõem de "todos os instrumentos" para a resolução dos problemas, afirmou a ministra, para quem alguns hospitais EPE padecem de falta de criatividade e não usam a autonomia de que dispõem.
"Porque não mudaram o conceito de organização das equipas de urgência (criar equipas específicas, por exemplo)?", questionou a ministra, lembrando que os hospitais EPE "não precisam da tutela para o fazer".
Ana Jorge não tem dúvidas de que "ninguém ganha com esta inoperância". Pelo contrário, "todos perdem: utentes, médicos e o sistema".
A ganhar ficaram os doentes que foram operados através do PIO. A receita de sucesso deverá aplicar-se, ainda durante a actual legislatura, às especialidades de urologia e dermatologia.
No caso da urologia, as intervenções implicam internamento, ao contrário da oftalmologia que é tratada com cirurgia de ambulatório.
Quanto à venda de medicamentos por unidos e, uma medida anunciada pelo primeiro-ministro no início da legislatura, só deverá avançar no final do ano e a título experimental.
Ana Jorge ultrapassa o primeiro ano à frente da pasta da Saúde sem as polémicas que marcaram o mandato do seu antecessor, mas mantendo as linhas estratégicas traçadas por António Correia de Campos, nomeadamente na reestruturação da rede das urgências.
O encerramento dos horários nocturnos de vários centros de saúde, que ainda não se concretizou porque faltam três helicópteros do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), é o próximo passo desta reestruturação.
Os helicópteros deverão chegar em breve para Macedo de Cavaleiros, Aguiar da Beira e Ourique, mas a ministra não conta fechar ainda os SAP, preocupada com o sentimento de segurança que os mesmos dão às populações.
"Vamos ter que trabalhar muito com a população e os seus responsáveis", disse, revelando que o encerramento não deverá acontecer antes do fim do ano e já com um novo Governo em funções.