20 de setembro de 2014
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Crónica pessimista

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Tem-se falado muito ultimamente de "natureza humana". Que é da natureza humana... Que contraria a natureza humana... A forma acrítica como a expressão é usada paralisa-nos o entendimento e deixa-nos indefesos perante o horror galopante. Não aprendemos nada nem nos livramos de conceitos inúteis. Jean Améry escreveu há muito: "Os homens normais não sabem que tudo é possível."   

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"Disneyland? Fuck, man, this is better than Disneyland!"

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Existe progresso moral? Eis the million-dollar question. Uma vez perguntei infantilmente a Hubert Reeves: "Visto que o Homem está no topo da cadeia alimentar e não serve de sobremesa a ninguém, se desaparecesse quem daria pela sua falta?" Queria com isto dizer: a nossa presumida superioridade não será também a nossa maior vulnerabilidade? 

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"¿Le gusta este jardín que es suyo? ¡Evite que sus hijos lo destruyan!"

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Não lera notícias. Nada. O sapal e era tudo. O horizonte branco. As dunas cor de ouro a reverberar à luz. Adiante um labirinto verde. Um declive abrigado. Mantos vegetais submersos e um trilho de areia húmida que serpenteia indicando o caminho. Plantas aquáticas provisoriamente expostas. Apodrecimento e regeneração. E o ribombar redondo das ondas. Um rumor. E o piar estridente dos pássaros. Uma lâmina. A bondade insólita: "Por favor não mexer. Não estraguem as flores. Obrigado."    

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E se os bárbaros vierem desta vez?

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Na abertura de "Este País Não É Para Velhos", Cormac McCarthy põe as seguintes palavras na boca do xerife Bell: "Algures por aí anda um profeta da destruição, um profeta genuíno, de carne e osso, e eu não o quero enfrentar. Sei que ele existe. Vi a obra dele." Bell explica-nos os motivos. Não é por estar velho ou por ter medo de morrer. O problema é outro.  

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Dóris

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Se Jorge Luis Borges estiver certo e o paraíso for uma espécie de biblioteca, Dóris Graça Dias tem lá não um mas dois lugares reservados. A jornalista, crítica e escritora Dóris Graça Dias deixou-nos. Há várias razões para a invocar aqui. A 1ª, porque, com obra feita, merece ser recordada. A 2ª, porque era minha amiga há 20 anos. Por último, porque tendo tido um diferendo público com este jornal (onde colaborou), julgo exigir-se que na hora da sua morte se sublinhe a futilidade do sucedido. A vida é feita de coisas sérias e de futilidades.    

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"O Maestro Sacode a Batuta"

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Queria falar de barcos. De areais longos. Do levante. De águas mornas. De ilhas que se esvaziam à noite, à partida do último ferry. Dispensaria os coqueiros. O barulho seco dos frutos a cair junto à linha de costa. Falaria antes do emaranhado das vozes dos pássaros. Do olhar reptiliano das gaivotas e do gingado nervoso das andorinhas-do-mar. De faróis. Do horizonte iluminado por traineiras. Da rouquidão dos motores que passam ao largo apontando à barra. Da quietude noctívaga das casas. Do latido abafado dos cães. Da sombra de um gato a equilibrar-se num muro. Gatos funâmbulos. Ilhas suspensas. Falaria da robustez das figueiras. Do leite viscoso dos figos. Do aroma inebriante das alfarrobas. Catrefada de atributos.    

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Que mais nos irá acontecer?

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É agosto. O primeiro-ministro foi a banhos. Ricardo Salgado, ao que parece, também. Como o sabemos? Porque, segundo publicado na imprensa, há banqueiros indignados com esse facto (sublinho, banqueiros; não confundir com bancários).  Reclamam ter de responder pelos danos causados pelo BES, enquanto -  ó Potestade,  disseram, sublimados - o seu responsável foi de férias. Entretanto, o antigo DDT (Dono Disto Tudo) pagou 3 milhões por uma caução. Tivera eu de pagar 3 milhões por uma caução e ficava sem dinheiro para as férias. Enfim... 

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Kaddish para as crianças mortas

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O pudor devia impedir-nos a contagem dos corpos. O pudor devia impedir-nos de escrever: cerca de 200 crianças mortas - "cerca" é, nesta frase, uma imprecisão imoral. Pudor. Bastaria pudor.

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Saudades de um bom verão quente à antiga

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Na impossibilidade de sermos sábios todo o ano, Deus deu-nos a silly season. A silly season faz-nos falta: demasiada realidade não se aguenta.

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A sabedoria de Don Fabrizio, príncipe de Salina

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Confesso que não sou incondicional de Thomas Mann. A literatura, eu sei, não se resume a uma história melhor ou mais mal contada (ou melhor ou mais mal empratada...); o facto é que o alemão não faz as minhas delícias.

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Edição Diária 17.Abr.2014

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