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Aminatu ou a força dos fracos

No ano passado, Lanzarote andou nas capas dos jornais por algo mais do que ser a ilha onde habitava José Saramago. No regresso de uma viagem a Nova Iorque, Aminatu Haidar foi impedida por Marrocos de regressar ao Sahara Ocidental. Permanecera então 32 dias em greve de fome no aeroporto daquela ilha nas Canárias, numa zona destinada ao estacionamento de autocarros. A activista sarauí é hoje homenageada na Universidade de Coimbra, pelo seu trabalho em prol dos direitos humanos.

Miguel Cardina
1:56 Terça feira, 9 de novembro de 2010

Quando o cubano Guillermo Fariñas ganhou há algumas semanas o Prémio Sakharov, Aminatu Haidar também estava na lista de nomeados. Vem de longe o seu empenho na luta pelos direitos humanos e pela liberdade do povo do Sahara Ocidental. Em 1987, na sequência de uma manifestação para exigir a Marrocos a celebração de um referendo sobre a autodeterminação do território, foi presa e esteve quatro anos desaparecida em prisões marroquinas, sujeita a torturas. Em 2005 foi novamente detida, desta feita por sete meses, ao mesmo tempo que o Parlamento Europeu exigia a sua libertação e de outros presos de consciência sarauís. Em Novembro do ano passado protagonizou a famosa greve de fome que se concluiu com a possibilidade, inicialmente vedada, de poder regressar à sua terra.

Uma pequena vitória, essa, à qual se somará uma outra hoje mesmo, às 12 horas, com o reconhecimento por parte da Universidade de Coimbra do trabalho de Aminatu em prol dos direitos humanos. Um gesto mínimo, na verdade, mas só a multiplicação de pequenos gestos destes pode levar a opinião pública a tomar consciência da dramática situação que se vive no território da Sahara Ocidental, anexado por Marrocos em 1975. Ontem mesmo, Marrocos invadiu um acampamento sarauí , onde milhares de pessoas protestavam contra a degradação das suas condições de vida, e provocou um número de mortos ainda por determinar. Neste blogue onde se relata o evoluir dos acontecimentos fala-se também de muitos detidos levados para parte incerta.

O Sahara Ocidental - com uma zona pesqueira apetecível, o que não ajuda a resolver o impasse - permanece assim como o último território africano por descolonizar. Em 1991, Marrocos e a Frente Polisário acordaram a realização de um referendo sobre a autodeterminação do território, que continua por realizar. Metade da população vive instalada em campos de refugiados, em condições de tal forma precárias que alguns organismos internacionais falam em "tragédia humanitária". A maneira como o Parlamento português aprovou resolutamente um voto de solidariedade com Aminatu no ano passado legitima o apelo da própria para que Portugal faça esforços diplomáticos no âmbito da ONU para terminar com uma ocupação que dura há trinta e cinco anos. Menos do que isso é ignorar a força serena de Aminatu.

Palavras-chave  Blogues, Política, Portugal 2009
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