16 de abril de 2014 às 23:53
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Alice no país das calhandrices

A Alice torna-se verdadeiramente perigosa quando começa a ser o comum, a ser o país, a forma de ser e estar, de agir e de ver, de encarar o futuro.
Tiago Mesquita (www.expresso.pt)

Alice nasceu no interior perdido do Portugal profundo. Cresceu a ver meninos de famílias abastadas da aldeia não se privarem de terem, sem esforço, aquilo que não ousava pedir. Sonhava com a igualdade de oportunidades e justiça social. Uma vida melhor. Nunca foi inteligente. A esperteza nasceu-lhe da necessidade e depressa aprendeu a usá-la, aguçada.

Um sorriso na padaria significava a diferença entre um ou dois papos-secos ao lanche. Uma conversa com as beatas à porta da Igreja dava-lhe acesso a um nicho de informações. Guardar para usar. Cresceu, cresceu-lhe o ego e o vício de o ver alimentado constantemente. Queria o que não tivera. A todo o custo. Os ideais puros foram desaparecendo até se esbaterem no muro das desilusões. Alice mudou de caminho. Alice perdeu-se.

As injustiças que passara haviam-na tornado imune ao sentimento de culpa. Era órfã da moral e imoral nos pensamentos. Profundamente revoltada. Fria. Distante. Precocemente maquiavélica. Alice foi fraca aluna. Alguns professores e colegas achavam-na desligada, burra, tonta. Revoltou-se ainda mais. A crueldade de alguns acabou por endurecer e encrespar a sua débil e instável personalidade. Fechou-se. "Um dia todos irão conhecer Alice", pensava.

Fez o Liceu com a mediania que a caracterizava e enveredou pela política sem manifestar qualquer talento ou aptidão. Entre muitos à espera de um lugar para se aquecer nas pedras mornas da velha República e teenager Democracia. E ali ficou. Quieta e inquieta. Até que alguém estendeu a mão e a puxou para o hall das pessoas com futuro. As pessoas moldáveis. É sempre assim. Alice tirou o curso superior sem esforço ou mérito. Soube rodear-se de quem a ajudasse. Conveniências. Amizade, poucas, quase nenhumas. Tudo interesse. Oportunidade.

Subiu no partido devagar. Um camaleão a trepar a árvore. Tomou-lhe os diferentes tons à passagem. Não ser visto mas especialmente notado. O ignorante serviçal, calado e discreto chega longe. A recompensa dos pobres de espírito. Aos poucos. Passo a passo. Até ao topo. Ao sol. Aprendeu a palavra esperança e passou a usá-la. Acreditar. Não é preciso fazer grande coisa. Basta acreditar. Ortodoxias fechadas em gavetas escuras. Perdiam-se as chaves. Tudo surgia, e Alice parecia estar sempre no sítio certo e rodeada das pessoas capazes, munidas dos cordéis que mexiam o tonto sistema. Adaptar-se ao Ambiente era fácil. Chegava a parecer natural. Incrível. Alice brilhava finalmente.

Do sol ao poder foi um passo. Alice começou a adorar o espelho e o espelho a adorá-la. Construiu e cultiva a imagem como ninguém. Ouvir-se falar mais do que ouvir quem precisa. Ao acreditar em si mesma, ao agir como se acreditasse, mesmo destituída de um pingo de sinceridade e abraçada ao cinismo, Alice consegue reunir consenso, e apoio. Tudo aos seus pés. Todos ao seu alcance. Poder. Permanece até hoje igual a si própria. Proprietária exclusiva da razão.

Quando atacada Alice é humilde, recatada e pura. Cândida. Digna. Incapaz de usar o poder de modo ilegítimo ou dele servir-se de forma imprópria. Teatralmente indignada por fora. Roída de raiva, jorra vingança por dentro. Tudo boatos. Mentiras. Fumaça. Calhandrices de gente invejosa. Esguia, Alice esquiva-se às balas como ninguém. Escorrega pelos dedos da justiça podre que ela própria faz desacreditar, dia após dia. A fumaça leva-a o vento. O fogo destrói as provas. As pessoas arredam-se ou são arredadas. Uma a uma. As inconveniências, afastadas.

Prossegue, altiva, sobranceira. Aparentemente intocável. Inimputável. Alice não é uma pessoa física. Ou até pode ser. Podem ser várias. Mas Alice torna-se verdadeiramente perigosa quando começa a ser o comum, a ser o país, a forma de ser e estar, de agir e de ver, de encarar o futuro. A Alice não é Portugal. Portugal não pode ser a Alice. Chega. Basta de Alice.

 Nota: este texto vai integrar a 1ª edição (Novembro) da revista mensal "Diz que Disse" onde vou manter a rubrica "Bater no cego até ele ver" a convite do Tiago Cruz Cação. Autores participantes: Alberto Oliveira, Cláudio Cardoso, Catarina Moleiro, Dora Dinis, Fernando Almeida, Fernando Alvim, Fernando Gonçalves, José Dinis, Manuel da Silva Ramos, Manuel João Vieira, Nuno Ávila, Pedro Eça, Pedro Sebastião, Rogério Lourenço, Tiago Cação, Tiago Mesquita e Tiago Salazar.

 


 



 

Comentários 8 Comentar
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"Os circulos da meia dúzia"
O tempo,hoje ,já não devia, ser o "diz que disse".Porque quando se chega aí,é dificil separar o trigo do joio e a verdade da mentira.
Portugal precisa hoje que se fale e escreva sobre o quotidiano e que se ponham nas coisa e nas pessoas o seu próprio nome.
O País e os papéis estão cheios de conversas da trêta,rodapés e "noites da má lingua".
Chamar o toiro pelos "cornos",é o que os intelectuais devem procurar fazer,sob pena de não saírem do "circulo da "meia dúzia".
TM
Portugal hoje em dia o que mais tem são destas Alices, umas fazem por ser mais recatadas, outras querem andar na ribalta dando um ar de puta séria utilizando todos os meios para atingir os seus fins, não se importando minimamente em dar um ar de séria.
Mas enfim esta democracia não começou com os atributos da honestidade, mas sim salve-se quem puder.
Mas o exemplo desta Alice actual é o mais degradante possível com todos os aperitivos necessários para exemplificar a condição humana dos oportunistas.
Brilhante.
Deixe-me acrescentar:
A Alice por ser como é e por se ter tornado quem é, é portanto perigosa.
Sem segundos sentidos.
Perigosa e um autêntico desastre para este Portugal tão calhado para Alices.
A sua herança é, será desastrosa, por tudo e sobretudo pela deseducação. Pelo exemplo que vem de cima.
Parabéns pela crónica.
Pela visão.
Não se canse de bater nos ceguinhos até eles verem.
Mas já percebeu... Portugal é maioritariamente um país de cegos e daqueles que não o sendo olham para o lado.
E Alice que tem olho... é rei, ou rainha.
A Alice e os anões
Muito bem escrito.Poderia eu acrescentar os anões da outra história a este artigo? Permitam-me esclarecer que os anões são os pajens,( a corja socialista,os lacões,os silvas,os rodrigues,os andrés,os victores,os varas,os ruis pedros,os lelos,as marias de belem,os victorinos,as edites das estrelas,as medeiros,etcetcetcetcetc é já muito anão não é? pois temos também muito da Alice...),) que suportam o véu de modo que não se suje
o que mais há por aí...
são "Alices", no masculino e no feminino. Perigosas, como já alguém escreveu.
O facto é que parece haver uma certa contemplação para com os actos "alicianos" (permitam-me que crie o neologismo hehehe...) pelo que exemplos de "aliciados" não faltam! Uns por robalos outros por libras, outros ainda por um cargozito que dê direito a reforma dourada, colégio dos filhos "à conta" e seguro de saúde incluído, para não falar do usufruto de cartão de crédito, do carrôncio e motorista...
Este, tornou-se um país de Alices...
Outras Personagens de Alice no País das Maravilhas
Chapeleiro Louco - Acho que Todos nós; quem é minimamente consciente pode chegar facilmente à insanidade mental quando confrontando com este país surreal
Coelho - Todas as Alicinhas da vida que estão de dente afiado e orelhas em pé à espera e à espreita da sua oportunidade:"Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!"
Gato de Cheshire - Cavaco Silva: sorriso pronunciado e uma enorme capacidade de aparecer e desaparecer...
Lagarta azul - É como as Alicinhas acham que vamos acabar: a fumar um narguilé mas antes convencidos por elas de que a resolução dos problemas estará num cogumelo mágico (ou doses massivas de anti-depressivos)
Rainha Branca- Antº Guterres; Mário Soares; Almeida Santos, etc...: comemoram a promoção de Alice de peão a rainha. Quando a festa se torna uma "bagunça", a Rainha Branca foge, desaparecendo numa terrina de sopa .
Rainha Vermelha: Sócrates: Colérico; Pavio curto; Quem afronta a sua autoridade é decapitado (decapitou a economia, um país e o fututo dass gerações vindouras)
Gémeos: Muitos analistas de política e de economia que falam, em horário nobre, numa linguagem que apenas eles entendem..
A verdadeira história do Sócrates
A história do Sócrates.
Mudou mais ou menos o género e o nome mas é a história mais fiel e bem contada que li nos últimos tempos.
Parabéns, magnífico escrito em que nada faltou na análise das "nuances" do sujeito.
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