Percebeu alguma coisa da comunicação do PR ao país sobre o caso das alegadas escutas?
Não sei se alguém percebeu... É uma história que não veio facilitar o relacionamento institucional. Ou existia matéria substantiva, e aí havia que tomar uma posição muito dura até às últimas consequências, porque seria uma quebra institucional entre dois pilares essenciais do Estado; se não havia, não sei porque é que essa história foi lançada.
Acha que manchou o mandato de Cavaco?
A imagem que eu tenho de Cavaco Silva é de uma pessoa digna e séria, responsável. Daí a minha perplexidade. Esse acontecimento veio tornar mais pesado o clima entre as instituições.
Que balanço faz do mandato?
Acho que um ponto muito positivo foi o roteiro da inclusão. Mas eu não avanço contra alguém, avanço por uma imagem de Portugal e do mundo. Não esperem de mim baixa política.
Como vê a candidatura de Manuel Alegre?
Ele foi deputado do PS durante 34 anos. É um homem político, pertence a um partido, foi vice-presidente da Assembleia da República e até há poucos meses viveu sobretudo da política. Ele tem de assumir isso com clareza, não pode dizer que vem da cidadania... Somos todos cidadãos, mas ele é também político, de um partido. Eu só posso invocar a cidadania, não tenho percurso partidário.
O discurso anti-sistema de Manuel Alegre, e contra os aparelhos partidários, é uma mistificação?
Para alguém que foi deputado 34 anos sempre no mesmo partido político, não pode depois ter esse discurso.
Já frisou várias vezes que nunca esteve num partido. É popular distanciar-se dos partidos quando eles têm má imagem?
Não. Eu tenho amigos em todos os partidos políticos. Por outro lado, não estou a inventar nada, não estou a invocar o valor da cidadania de repente - não, esse foi sempre o meu valor.
Está a fazer o discurso anti-sistema que era de Alegre.
Estou em coerência com toda a minha vida. Tenho 58 anos e há 31 que a minha intervenção é no pilar da cidadania, nunca quis entrar num partido.
Acha os partidos uma coisa má?
Não. Não há sistema melhor do que a democracia representativa.
Mas diz que não ter passado partidário é uma coisa boa...
Sim, porque eu acredito que a política não se esgota nos partidos. Enquanto cidadão, eu até hoje fiz política, só não fiz política partidária. Mas acredito que os partidos são indispensáveis a uma democracia representativa. Por outro lado, é importante que o PR nunca tenha estado comprometido com nenhum partido, porque a sua função é suprapartidária. Como é que alguém que pertenceu a um clube vai ser árbitro num jogo em que o seu próprio clube participa?
Sem maioria absoluta, o papel do PR é mais central. A falta de currículo político não pode ser uma menos-valia?
Eu acredito nos que têm bom senso e experiência de vida. Com toda a humildade, acho que tenho um percurso e experiência de vida que não é comum. Isso dá-me a autoridade moral e o bom senso para dialogar seja com quem for, porque assim tenho feito toda a minha vida em situações bem difíceis. Se sou especialista em alguma coisa é em grandes urgências.
Em que espaço político se posiciona?
Sou um democrata com preocupações sociais marcadas. Se isso faz de mim um social-democrata ou um socialista, não me interessa. Eu olho para as pessoas, não gosto de carimbos com cores. Sou amigo pessoal de D. Duarte, como de Adriano Moreira, Mário Soares, Fernando Nogueira, Miguel Portas, Carvalho da Silva, Garcia Pereira. Quando estou com eles não estou a olhar para carimbos políticos, estou a falar com um ser humano. Ou consigo uma ligação de empatia, diálogo e entendimento, ou não consigo, mas não é pelas cores políticas.
A sua campanha vai passar por aí, pela empatia?
Acho que sim. Vou estabelecer um diálogo transversal com a sociedade portuguesa e vou falar claro, em português entendível. E vou ser coerente.
Artigo publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010.