Quatro ex-administradores do BCP vão ser julgados por crimes de manipulação de mercado e falsificação da contabilidade. Caiu a acusação de burla qualificada. Não sei, como é evidente, das suas culpas e inocências. Sei que este é o primeiro julgamento de gente com real poder na vida económica portuguesa (Oliveira e Costa, ao pé de Jardim Gonçalves, é um pirralho). Será, por isso, um teste.
Um teste, antes de mais, à comunicação social. Em dois sentidos. Sabermos, antes de mais, se desta vez será possível fazer um julgamento sem que os jornalistas sejam usados pelas partes e que o diz que disse não faz a vez da prova. Mas também saberemos se a comunicação social mostra a mesma determinação e coragem (esperemos que não a mesma leviandade) que mostrou quando foram agentes políticos a ser julgados. É a prova dos nove sobre quem realmente tem e não tem poder neste País.
É também um teste ao poder judicial. Sabe-se que a justiça portuguesa é desigual. E que quem tem os instrumentos necessários consegue saltar de incidente em incidente, recurso em recurso, buraco em buraco, garantia em garantia. E que, pelo contrário, o comum dos cidadãos não tem uma bússola, por não poder pagar por ela, que o permita sair do autêntico labirinto que é a justiça portuguesa. Veremos se este processo chega ao fim num tempo aceitável, com os nomes dos envolvidos limpos ou com condenações seguras. Ou vamos assistir a anos de boatos para chegarmos ao fim com nada?
Estamos a falar de homens com poder. Isso não faz, não pode fazer, deles culpados. Mas faz deles um teste à nossa justiça e à nossa comunicação social. Sendo certo que se a sua culpa ficar provada e forem condenados a penas compreensíveis isso teria um efeito extraordinário na moralização do nosso mundo empresarial. Olhando para o desplante de Rendeiro ou Dias Loureiro e para a falta de vergonha de Domingos Névoa, não há motivos para grande optimismo.
Fica então a pergunta: pode alguém com tanto poder ser, para o bem e para o mal, julgado com total imparcialidade em Portugal? A nossa democracia está preparada para isso? Veremos.