A agência chinesa de 'rating' Dagong confia num acordo sobre a dívida norte-americana até terça-feira, mas alerta que vai baixar a nota dos EUA, atualmente de A+, devido à capacidade "insuficiente" do país de criar riqueza real.
Em entrevista à Agência Lusa por telefone a partir de Macau, o presidente da Dagong, Guan Jianzhong, afirmou acreditar que democratas e republicanos "irão tentar as medidas que forem necessárias para chegarem a um acordo" sobre o aumento do teto da dívida, evitando que os EUA entrem em incumprimento pela primeira vez na sua história.
"Penso que poderão alcançar um compromisso antes de 02 de agosto, caso contrário as consequências serão extremamente graves, pensamos que serão mesmo mais graves do que a crise financeira de 2008, porque todo o sistema financeiro e de crédito iria entrar em colapso", observou.
O responsável por aquela que é uma das quatro principais agências de 'rating' da China, e a única que não tem a Moody´s, Fitch ou Standard & Poor´s como parceira de negócio, considera, porém, que esse eventual acordo "não resolverá o problema de solvência" dos EUA.
A solução, apontou, "é aumentar a capacidade de criação de riqueza real", ao observar que esta "está a cair em vez de crescer".
EUA devem crescer 2,5% este ano
Os EUA registaram em 2010 um crescimento económico de 2,9%, que a Dagong prevê que baixe para os 2,5% este ano, a taxa de desemprego do país atinge os 9,5% e a dívida ascende a 14,3 biliões [milhão de milhões] de dólares (9,9 biliões de euros).
A Dagong "vai certamente baixar o 'rating' dos EUA - de A+, a mesma atribuída ao Japão - antes ou depois de 02 de agosto para um nível apropriado", afirmou Jianzhong sem especificar.
"Vemos que o crescimento económico e das receitas fiscais não consegue acompanhar o crescimento do pagamento das dívidas e essa é a principal razão para baixar o 'rating', porque significa que a solvência dos EUA está a cair", sustentou.
O responsável alertou para o facto de os EUA recorrerem à "criação de novas dívidas para pagar as dívidas antigas", uma medida que considera de "elevado risco para os credores, porque constitui em si uma ameaça".
Previsão de inflação
"Depois de elevarem o teto da dívida, como vão resolver o problema?", questionou, prevendo que os EUA "recorrerão à sua estratégia de emissão de mais dólares, o que causará inflação".
Para o presidente da Dagong "todo o mundo já sentiu as consequências da liquidez do dólar e, se os EUA recorrerem ao QE3 (quantitative easing 3 - terceiro pacote de medidas não convencionais), vai sentir efeitos mais destruidores desta política monetária acomodatícia, incluindo a União Europeia e economias emergentes".
Este modelo de desenvolvimento baseado na economia virtual "aumenta a possibilidade de ocorrer uma outra crise como a de 2008", alerta a Dagong.
Quanto aos efeitos sobre a moeda chinesa, Guan Jianzhong prevê que "nos próximos anos o yuan continuará a valorizar-se contra o dólar americano, porque o Governo dos EUA continuará a desvalorizar a sua moeda e é capaz de manipular as suas divisas contra o yuan".
"Esta capacidade e necessidade vão continuar a contribuir para a apreciação do yuan", constatou ao considerar que o Governo chinês revelou ter feito "uma análise prudente da situação internacional, defendendo um processo gradual de valorização do yuan, porque se esta for rápida não contribuirá para o crescimento económico" do país.
A China, a segunda economia mundial, é o maior detentor de títulos de dívida do Tesouro americano, com 1.160 mil milhões de dólares (807,4 mil milhões de euros) no mês de maio, segundo os últimos dados publicados por Washington.