"O mapa das prováveis localizações da batalha de Ourique é o mapa da impossibilidade". Quem o afirma é José Varandas, investigador do Centro de História da Universidade de Lisboa e responsável pelo III Curso Livre de História Militar, "Marchando com os Exércitos
" que decorre até 9 de Junho, às quartas-feiras na Faculdade de Letras.
Na sessão de abertura, o general Adelino de Matos Coelho, responsável da Direcção de História e Cultura Militar do Exército, mostrou no mapa as várias hipóteses até hoje aventadas para o campo de batalha.
Duas, pouco prováveis por estarem em território já controlado pelos portugueses (Póvoa do Chão de Ourique, Penela ou Campo de Ourique, Leiria), uma imediatamente a sul (Vila Chã de Ourique, a sudoeste de Santarém) e outra entre Aljustrel e Ourique (São Pedro da Cabeça).
A questão que os delírios patrióticos sobre a batalha nunca analisaram está bem clara neste mapa. Para ir e vir de Coimbra (base de operações portuguesa) a Ourique, a hoste afonsina tinha que percorrer em linha recta mais de 500 km. Ora já não havia, nem as estradas da época romana (mal conservadas), nem infantaria treinada.
Logo, para caber dentro do que sabe ter sido o calendário das presenças de D. Afonso Henriques em 1139, a operação só poderia ter sido feita por uma força muito móvel a cavalo. E constituída maioritariamente, não pela cavalaria pesada na nobreza terra tenente, nem pelos Templários que se mantiveram guardando Tomar, mas por tropas ligeiras, constituídas por cavaleiros vilãos dos concelhos. Logo, nada de armaduras imponentes, cavalos de batalha e espadas: apenas arcos, flechas e lanças.
Onde passar o Tejo?
A segunda questão tem a ver com o trajecto. Se a força móvel de Afonso Henriques apareceu no Baixo Alentejo, onde passou o Tejo? E com que meios? Nessa época, lembra José Varandas, o caudal seria maior e o rio mais largo. E havia, além dos castelos, frota muçulmana a patrulhar o rio até Santarém, Almourol ou mesmo às Portas de Ródão."Provavelmente, em vez de 500 km tiveram que fazer o dobro", diz o investigador, para passar o Tejo, provavelmente para montante de Ródão e se infiltrarem pelo Alentejo.
E para quê fazer uma cavalgada esgotante tão no interior de território inimigo?
O general Matos Coelho admite um cenário de apoio à campanha do rei de Leão que, em Julho de 1139, atacava Oreja, castelo da rede defensiva de Badajoz que, como base de operações, equivalia para os mouros à Coimbra afonsina. De Évora, Beja, Mértola e outros locais saíram colunas mouras em socorro de Oreja.
O papel de uma força móvel de guerrilha como a de Afonso Henriques seria entravar o avanço destas colunas ou até desviá-las do socorro a Oreja, levando-as a supor que havia um grande exército a contra-atacar pelo Alentejo. A verdade é que os reforços tardaram a chegar a Oreja, talvez por acção de Afonso Henriques. E que os cinco reis mouros poderiam simbolizar outras tantas emboscadas ou acções de guerrilha.
Guerrilha em vez de batalha
Daqui se concluem duas coisas: que não houve nenhuma batalha campal (coisa de resto, rara na Península Ibérica da época), muito menos com intervenção divina; e que Afonso Henriques actuava como vassalo do seu primo, rei de Leão. Mesmo na conferência de Zamora, em 1143, o Papa Lúcio II, embora reconhecendo autonomia a Afonso, ainda se refere a ele como Dux, ou seja, na terminologia da época, chefe militar, um pouco menos que rei. Monarca, propriamente dito, só o será na perspectiva papal, com Alexandre III, em 1171.
A legitimação de uma independência, penosamente arrancada ao reino de Leão, irá sendo feita pelos ideólogos de sucessivas épocas, a começar pelos frades conimbricenses do mosteiro de Santa Cruz, protegidos do primeiro rei português. E é nesse contexto que se começa a situar, em Ourique, uma batalha que nunca houve. Se exagera na descrição dos feitos lusos e se invoca, até, a intervenção divina.
Rei mítico
Aclamado rei pelos seus soldados, erguido sobre os escudos à maneira do lendário Artur de Camelot, Afonso Henriques é o monarca mítico de que a afirmação da nacionalidade, sempre em perigo, necessitava.