Advogado da Ordem faz queixa contra a PSP
Vasco Marques Correia, advogado de um dos detidos na manifestação de ontem, e presidente do conselho distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, quer processar as autoridades. "Vou avançar com uma queixa em nome pessoal e em nome da Ordem".
O advogado já informou o bastonário da Ordem, Marinho Pinto, da sua decisão e dos episódios mais recentes, ocorridos na esquadra da PSP do Calvário. "Pela primeira vez na minha vida de advogado, não me deixaram entrar numa esquadra da polícia", revela.
Marques Correia conta que pelas 2h10 de hoje, tentou entrar nessa esquadra mas terá sido impedido de o fazer por um guarda. "Só 20 minutos depois, depois de uma troca demorada de argumentos me permitiram entrar." A atitude, que considera inadmissível, terá repercussões, garante o advogado. "Foi a primeira mas será de certeza a última vez que tal irá acontecer a um advogado em Portugal".
Marques Correia defende um dos jovens detidos na noite de ontem, perto do Parlamento. E que passou a noite no hospital de São José, com traumatismos na cabeça."Estamos desde as 8h30 (eram 16h quando falou com o Expresso), à espera de sermos ouvidos no tribunal de de pequena instância criminal".
Segundo o advogado, colegas seus que defendem outros arguidos no caso, revelaram-lhe que alguns dos seus clientes terão sido "barbaramente agredidos nessa esquadra por um polícia encapuzado". E acrescenta: "Talvez isso explique a razão daquele estranho compasso de espera à porta da esquadra."
O Expresso apurou, junto da Inspeção-Geral da Administração Interna, que até agora não foi apresentada qualquer queixa contra a violação dos direitos dos cidadãos por parte da polícia. Caso seja feita alguma queixa contra o comportamento policial, o IGAI, como diz a lei, terá de abrir "um procedimento", isto é, será obrigado a averiguar o caso.
Entretanto, as relações públicas da PSP reforçaram ao Expresso que "toda a atuação da PSP se pautou pelo princípio da legalidade, e qualquer situação anómala, devidamente comprovada, será alvo da devida análise".
Nove detidos e 21 identificados
Em conferência de imprensa no final da manhã, o intendente Luís Elias, comandante do comando metropolitano de Lisboa (COMETLIS), disse que os nove detidos na noite de ontem, perto do parlamento, têm entre os 20 e os 65 anos, existindo entre eles um estrangeiro, e respondem por desobediência, resistência e coação a agentes da autoridade e danos. Luís Elias afirmou também que entre os 21 identificados está um menor.
"A PSP considera que a intervenção policial, face aos comportamentos violentos de alguns manifestantes foi a necessária, adequada, proporcional e devidamente concretizada", afirmou o segundo comandante do COMETLIS.
O oficial adiantou que "foi inevitável e indispensável" a intervenção da polícia devido "à intensidade e duração" dos atos violentos de alguns manifestantes.
"Tentámos gerir todo o policiamento no sentido de garantir alguma seletividade nas detenções e, quando se tornou de todo insustentável, face à repetição dos atos violentos, a PSP teve que utilizar uma metodologia de vaga de dispersão e tentar efetuar detenções seletivas por parte de alguns dos suspeitos que estavam já referenciados", sublinhou.


Nuno Fox
