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Visite Lisboa antes do terramoto de 1755

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Há 257 anos, no dia 1 de novembro de 1755, um dos maiores terramotos da História destruiu Lisboa. Agora, usando a tecnologia do ambiente virtual Kitely, pode passear pela primeira vez pelas ruas, praças e edifícios da cidade, tal como eram antes da catástrofe.

Virgílio Azevedo (www.expresso.pt)

A Galeria Real, local de embarque e desembarque do rei e da sua comitiva para o Palácio da Ribeira. À direita vê-se o Torreão poente do Terreiro do Paço e à esquerda uma parte do edifício da Ópera do Tejo. Entre as duas construções, sobressai a Torre Canevari ou Torre do Relógio

A Galeria Real, local de embarque e desembarque do rei e da sua comitiva para o Palácio da Ribeira. À direita vê-se o Torreão poente do Terreiro do Paço e à esquerda uma parte do edifício da Ópera do Tejo. Entre as duas construções, sobressai a Torre Canevari ou Torre do Relógio

Quer passear pelas praças, ruas e edifícios mais emblemáticos do centro de Lisboa tal como eram antes do terramoto de 1 de novembro de 1755? Agora pode fazê-lo usando a tecnologia de mundos virtuais do Kitely, graças a um projeto científico, inédito a nível mundial, que pretende recriar vitualmente a memória da cidade destruída por um dos maiores terramotos da História.

O projeto chama-se "Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa Pré-Terramoto", foi desenvolvido por uma equipa coordenada pelos historiadores Alexandra Gago da Câmara, Helena Murteira e Paulo Rodrigues, investigadores do Centro de História da Arte e Investigação Artística (CHAIA) da Universidade de Évora, e conta com a parceria da empresa Beta Technologies.

A iniciativa foi divulgada há cerca de dois anos, mas como está em desenvolvimento, não permite ainda que os investigadores ou o público em geral possam passear pela Lisboa pré-terramoto. 

Por isso mesmo, e para assinalar os 257 anos do terramoto de 1 de novembro de 1755, os seus promotores disponibilizaram temporariamente, em exclusivo para o Expresso, uma parte da Lisboa pré-terramoto já reconstruída para ser visitada pelos leitores através da tecnologia que é também usada no Kitely

Os leitores podem também ver (no final deste artigo) uma galeria fotográfica dessa Lisboa desaparecida e um video narrado em inglês, feito para a apresentação do projeto em variadas conferências internacionais que já tiveram lugar na Áustria, Reino Unido, Alemanha, República Checa e Bélgica. O projeto está neste momento mais adiantado do que esse video e a própria tecnologia de foto-realismo usada também evoluíu. 

Descobrir a cidade desaparecida 

A realidade a recriar pelo projeto da Universidade de Évora pretende abranger o desenho urbano de Lisboa, o tecido arquitectónico do conjunto desaparecido e os interiores de alguns edifícios mais emblemáticos, tais como o Palácio Real, a Patriarcal, a Ópera do Tejo, o Convento de Corpus Christi e o Hospital de Todos-os-Santos. 

A Lisboa anterior ao terramoto de 1755 desapareceu quase completamente, não só com a catástrofe de 1 de Novembro, mas também com a reconstrução empreendida pelo futuro Marquês de Pombal, ministro do rei D. José I, da qual resultou uma cidade de traçado regular e quarteirões uniformes. Da Lisboa barroca ficou apenas a memória de uma cidade mítica que perdura até hoje e cujas descrições oscilam entre a extrema miséria, a devoção religiosa e a desmedida opulência.

"O primeiro objectivo do projecto é, precisamente, resgatar a realidade urbana absorvida pela memória mítica através de uma visualização digital e interativa, menos abstrata que o discurso narrativo. E não condicionada a um único ponto de vista ou somente à percepção visual, como sucede com o formato bidimensional das plantas, desenhos e gravuras ou com o formato tridimensional das maquetas convencionais", explica ao Expresso a historiadora Alexandra Gago da Câmara.

Ouvir os sons das praças e ruas da capital

O Terreiro do Paço em 1650, segundo o pintor holandês Dirk Stoop. Na praça vêem-se nobres, comerciantes, padres e soldados. São também visíveis o Paço da Ribeira, o Tejo, o cais e à direita em segundo plano, o Convento de São Francisco

O Terreiro do Paço em 1650, segundo o pintor holandês Dirk Stoop. Na praça vêem-se nobres, comerciantes, padres e soldados. São também visíveis o Paço da Ribeira, o Tejo, o cais e à direita em segundo plano, o Convento de São Francisco

No futuro, haverá também componentes áudio e de animação, com a introdução de sons do ambiente citadino setecentista, e a reconstituição de espectáculos de ópera, touradas, procissões e outros eventos de destaque no quotidiano da Lisboa da primeira metade do século XVIII.

Na fase actual do projeto foi recriado o exterior do conjunto do antigo Paço da Ribeira que inclui, para além do Palácio da Ribeira, a Rua da Capela, a Praça da Patriarcal, a Torre do Relógio, a Casa da Ópera e o espaço confinante da Ribeira das Naus. O mais antigo teatro público de Lisboa, o Pátio das Arcas, foi igualmente recriado.

Todo este conjunto encontra-se ainda em modelação, podendo sofrer retificações de acordo com o avanço de todo trabalho de investigação.

A historiadora Helena Murteira esclarece que "a utilização da tecnologia Kitely permite que a recriação virtual de Lisboa antes do terramoto de 1755 ultrapasse as ferramentas tradicionais da modelação em 3D, ainda presas à contemplação, tornando possível que qualquer pessoa visite a cidade dessa época do conforto da sua casa. E até possa imergir e interagir virtualmente no seu contexto físico, social e cultural, inclusivamente partilhando-o com outros utilizadores e ganhando, deste modo, também uma dimensão social".

Aprender história e investigar de forma inovadora

As potencialidades didáticas da aplicação desta tecnologia à recriação de uma cidade histórica desaparecida são inúmeras. Mas também há potencialidades científicas, na medida em que a plataforma Kitely (compatível com a aplicação de mundos virtuais Second Life) torna a recriação virtual em algo mais que uma sofisticada maqueta de alta definição e interativa.

De facto, "confere a dimensão laboratorial possível, mas urgente, à investigação nas áreas da história urbana e da arquitetura ao suportar, a baixo custo e em tempo real, a experimentação das conclusões retiradas da análise e da interpretação das fontes documentais e iconográficas para o estudo da cidade, cuja validade pode ser assim debatida e verificada", afirma o historiador de arte Paulo Rodrigues.

Inicia-se assim uma nova metodologia de investigação em que a recriação é o principal instrumento de análise da Lisboa desaparecida depois de 1 de Novembro de 1755, e não a sua etapa final, "enquanto síntese ilustrativa dos resultados obtidos pelo processo tradicional baseado na descrição documental, na representação iconográfica e na interpretação arqueológica".

Testar as fontes documentais

Mas como pode uma recriação virtual ser um instrumento de análise? "Testando a informação retirada das fontes documentais, iconográficas e arqueológicas numa dimensão virtual que recrie a implantação urbana, a escala, a disposição e o desenho interior e exterior dos edifícios desaparecidos, a realidade ambiental, espacial e paisagística do construído", salienta por sua vez Alexandra Gago da Câmara.

Isto é, verificando, por exemplo, a possibilidade, em termos de espaço urbano, de os corpos de um determinado conjunto edificado se articularem com o que é descrito ou representado na documentação, o mesmo se passando com a arquitetura da estrutura interna de um edifício ou com a configuração da sua fachada.

"Na plataforma Kitely é possível propor uma recriação, debatê-la e actualizá-la em tempo útil e a baixo custo. Permite ainda que esta actualização científica alimente diretamente a dimensão didática, recreativa e de divulgação do projecto", acrescenta a mesma investigadora.

Fique a conhecer as ruas, praças e edifícios da capital antes de 1 de novembro de 1755 visitanto o projeto "Cidade e Espectáculo: uma visão da Lisboa Pré-Terramoto".

 

Lisboa antes do terramoto de 1755 Esta era a planta do centro de Lisboa antes de 1 de novembro de 1755. Os edifícios e locais identificados na imagem são os que já foram recriados virtualmente pelo projeto da Universidade de Évora.
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Lisboa antes do terramoto de 1755 Esta era a planta do centro de Lisboa antes de 1 de novembro de 1755. Os edifícios e locais identificados na imagem são os que já foram recriados virtualmente pelo projeto da Universidade de Évora.

Real Ópera do Tejo Foi construída pelo rei D. José I, segundo desenho do arquitecto italiano Giovanni Carlo Sicinio Galli da Bibbiena, e inaugurada em Abril de 1755. Tinha capacidade para 600 pessoas e desapareceu com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, apenas seis meses depois da sua inauguração
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Real Ópera do Tejo Foi construída pelo rei D. José I, segundo desenho do arquitecto italiano Giovanni Carlo Sicinio Galli da Bibbiena, e inaugurada em Abril de 1755. Tinha capacidade para 600 pessoas e desapareceu com o terramoto de 1 de Novembro de 1755, apenas seis meses depois da sua inauguração

Paço da Ribeira 1 Localizado na frente ribeirinha do Tejo, era enquadrado pelo Palácio da Ribeira, a residência da família real construída a partir de 1498 por ordem do rei D. Manuel I. Os principais organismos relacionados com a administração e a logística naval do império português estavam instalados na sua zona envolvente
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Paço da Ribeira 1 Localizado na frente ribeirinha do Tejo, era enquadrado pelo Palácio da Ribeira, a residência da família real construída a partir de 1498 por ordem do rei D. Manuel I. Os principais organismos relacionados com a administração e a logística naval do império português estavam instalados na sua zona envolvente

Paço da Ribeira 2 Outra perspetiva do Paço da Ribeira. Até à construção do Palácio da Ribeira, a residência da família real em Lisboa era o Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge
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Paço da Ribeira 2 Outra perspetiva do Paço da Ribeira. Até à construção do Palácio da Ribeira, a residência da família real em Lisboa era o Paço da Alcáçova, no Castelo de São Jorge

Jardim do Paço e Eirado da Casa da Índia O Jardim do Paço foi construído por D. João V a partir de 1709. O Eirado da Casa da Índia era um conjunto de armazéns construídos por D. Manuel I para depósito dos produtos procedentes do comércio com o Oriente, correspondendo ao piso térreo do Palácio da Ribeira
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Jardim do Paço e Eirado da Casa da Índia O Jardim do Paço foi construído por D. João V a partir de 1709. O Eirado da Casa da Índia era um conjunto de armazéns construídos por D. Manuel I para depósito dos produtos procedentes do comércio com o Oriente, correspondendo ao piso térreo do Palácio da Ribeira

Igreja Patriarcal Foi construída por ordem do rei D. João V, segundo o desenho do arquiteto e ourives alemão João Frederico Ludovice, entre 1719 (data das primeiras obras de reformulação da antiga Capela Real) e 1749
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Igreja Patriarcal Foi construída por ordem do rei D. João V, segundo o desenho do arquiteto e ourives alemão João Frederico Ludovice, entre 1719 (data das primeiras obras de reformulação da antiga Capela Real) e 1749

Palácio Patriarcal Edificado na mesma época que a Igreja Patriarcal, era também conhecido por Palácio dos Patriarcas. A Praça ou Largo da Patriarcal era a designação do espaço em frente ao palácio
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Palácio Patriarcal Edificado na mesma época que a Igreja Patriarcal, era também conhecido por Palácio dos Patriarcas. A Praça ou Largo da Patriarcal era a designação do espaço em frente ao palácio

Ribeira das Naus 1 Mandada construir pelo rei D. Manuel I para acomodar a construção de embarcações destinadas ao comércio marítimo, em substituição das antigas Tercenas Reais que se situavam no local onde se ergueu o Paço da Ribeira
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Ribeira das Naus 1 Mandada construir pelo rei D. Manuel I para acomodar a construção de embarcações destinadas ao comércio marítimo, em substituição das antigas Tercenas Reais que se situavam no local onde se ergueu o Paço da Ribeira

Ribeira das Naus 2 Outra perspetiva da Ribeira das Naus, onde se vê a Galeria Real, local de embarque e desembarque do rei e da sua comitiva para o Palácio da Ribeira. À direita vê-se o Torreão poente do Terreiro do Paço e à esquerda uma parte do edifício da Real Ópera do Tejo. Entre as duas construções, a Torre do Relógio
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Ribeira das Naus 2 Outra perspetiva da Ribeira das Naus, onde se vê a Galeria Real, local de embarque e desembarque do rei e da sua comitiva para o Palácio da Ribeira. À direita vê-se o Torreão poente do Terreiro do Paço e à esquerda uma parte do edifício da Real Ópera do Tejo. Entre as duas construções, a Torre do Relógio

Rua da Capela e Pátio da Capela Por baixo das arcarias da Rua da Capela vendiam-se artigos de luxo provenientes do comércio marítimo internacional. O Pátio da Capela integrava o corpo mais antigo do Palácio da Ribeira, sobrevivente do antigo Paço Manuelino (rei D. Manuel I)
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Rua da Capela e Pátio da Capela Por baixo das arcarias da Rua da Capela vendiam-se artigos de luxo provenientes do comércio marítimo internacional. O Pátio da Capela integrava o corpo mais antigo do Palácio da Ribeira, sobrevivente do antigo Paço Manuelino (rei D. Manuel I)

Pátio da Capela Dava acesso à antiga Capela Real, transformada pelo rei D. João V na igreja da Patriarcal, em 1749
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Pátio da Capela Dava acesso à antiga Capela Real, transformada pelo rei D. João V na igreja da Patriarcal, em 1749

Rua da Capela 1 Era a passagem pública de acesso à antiga Capela Real e à Real Ópera do Tejo
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Rua da Capela 1 Era a passagem pública de acesso à antiga Capela Real e à Real Ópera do Tejo

Rua da Capela 2 Outra perspetiva da Rua da Capela, vendo-se ao fundo a Torre do Relógio
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Rua da Capela 2 Outra perspetiva da Rua da Capela, vendo-se ao fundo a Torre do Relógio

Terreiro do Paço Era a praça onde se realizavam a maior parte das cerimónias públicas de aclamação dos reis e outras festividades. Era também o local preferido de encontro dos nobres, burgueses e comerciantes. Bem como da população de Lisboa em geral
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Terreiro do Paço Era a praça onde se realizavam a maior parte das cerimónias públicas de aclamação dos reis e outras festividades. Era também o local preferido de encontro dos nobres, burgueses e comerciantes. Bem como da população de Lisboa em geral

Forte, Torreão e fachada do Palácio Real Este conjunto no Terreiro do Paço resulta das obras de reformulação do antigo forte (localizado no sítio onde depois se ergueu o Torreão do Palácio da Ribeira) e da galeria do Paço Manuelino (rei D. Manuel I), empreendidas pelo rei Filipe II de Espanha, logo após a união das coroas portuguesa e espanhola, em 1581
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Forte, Torreão e fachada do Palácio Real Este conjunto no Terreiro do Paço resulta das obras de reformulação do antigo forte (localizado no sítio onde depois se ergueu o Torreão do Palácio da Ribeira) e da galeria do Paço Manuelino (rei D. Manuel I), empreendidas pelo rei Filipe II de Espanha, logo após a união das coroas portuguesa e espanhola, em 1581

Varanda de Pedraria Integrava o corpo mais antigo do Palácio da Ribeira, sobrevivente do antigo Paço da Ribeira mandado construir pelo rei D. Manuel I junto ao rio Tejo, entre 1501 e 1518, no contexto da expansão marítima portuguesa
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Varanda de Pedraria Integrava o corpo mais antigo do Palácio da Ribeira, sobrevivente do antigo Paço da Ribeira mandado construir pelo rei D. Manuel I junto ao rio Tejo, entre 1501 e 1518, no contexto da expansão marítima portuguesa

Torre do Relógio A Torre do Relógio ou Torre de Canevari foi projectada pelo arquiteto italiano do período barroco Antonio Canevari, que executou várias obras em Lisboa destruídas pelo terramoto de 1755
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Torre do Relógio A Torre do Relógio ou Torre de Canevari foi projectada pelo arquiteto italiano do período barroco Antonio Canevari, que executou várias obras em Lisboa destruídas pelo terramoto de 1755