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Vídeo: Uma vida dedicada aos cães abandonados

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O olhar infeliz dos cães abandonados levou a oficial de justiça Clara Simões a fazer deles o seu projecto de vida, dedicando o tempo em que não está no tribunal aos 43 animais que já adoptou até hoje.

Ana Maria Ferreira, Agência Lusa

Aos 48 anos, Clara Simões divide o seu dia-a-dia entre o Tribunal de Trabalho de Viseu e Paços de Vilharigues, em Vouzela, onde vive e tem os seus cães: o Zé, a Nina, o Tobias, o Pinhão, a Maria, a Paulinha, a Dália, o Smile, a Tuchinha, o Mateus e o Obama... e mais 32.

"Quem tem muitos filhos não lhes troca os nomes", garante Clara Simões, que sempre se lembra de adorar animais. 

Teve um cão que morreu com 21 anos e, a partir daí, há mais de uma década, começou a sua "aventura" de acolher abandonados, o primeiro dos quais o Tobias e depois "mais outro e mais outro". 

"Basta começar com um. Como o abandono é tanto, há tantos que se cruzam comigo, que não os consigo deixar ficar depois de olhar para eles e ver aquele olhar infeliz", partilha, contando que os costuma encontrar abandonados junto ao acesso da auto-estrada A25, no caminho para Viseu e até em Aveiro.

Nestes anos, viveu histórias que a marcaram profundamente, como a de uma cadela que encontrou na beira de uma estrada dentro de uma caixa de papelão com as patas atadas para que não pudesse correr atrás do carro do dono e de um cão que deambulava pela Feira de S. Mateus com um buraco no pescoço e que estava prestes a morrer.  

Para que os seus amigos de quatro patas possam ter a vida que acha que eles merecem, Clara dedica-lhes todo o seu tempo antes e depois do trabalho, porque há muitas bocas para alimentar e dejectos para limpar.

"Uma tesa feliz"

"Levanto-me às sete, a primeira coisa que faço é começar a limpar. Depois dou-lhes comida cozinhada, troco de roupa, trato um bocadinho de mim e vou para Viseu, onde entro às nove horas. Saio do tribunal, regresso a casa, troco outra vez de roupa, volto a limpar, dou comida novamente e começo a cozinhar para o dia seguinte", relata.

Os seus cães consomem cerca de 200 quilos de ração por mês. De trinca (arroz partido) gasta oito quilos por dia, à qual junta hortaliça que os pais e vizinhos lhe dão e frangos oferecidos por dois matadouros.

Gasta todo o seu dinheiro para ter os animais bem tratados, mas garante que é "uma tesa feliz". "Costumo dizer que o que os cães me dão é muito mais do que aquilo que lhes dou. Se acordar mal-disposta fico logo bem-disposta. Principalmente estes 16 do quintal, assim que abro a porta a festa é tanta, o carinho que eles me dão é tanto, que digo muitas vezes que eles são a minha medicação", diz a oficial de justiça, que sofre de fibromialgia.

Esta semana, Clara Simões viu pela primeira vez o seu trabalho reconhecido, ao receber o Prémio Dona Maria da Luz, no Porto, destinado a quem se dedica a defender os animais. 

"Foi muito, muito bom, porque nunca tinha recebido nada. Mais do que um prémio simbólico, foi perceber que ainda existe gente que reconhece quem trabalha e que faz algo em defesa destes bichos, que são espectaculares", sublinha.