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Vídeo: "Mudar de sexo não é um capricho"

Carla Antonelli é o rosto da transexualidade em Espanha. Na Assembleia da República defendeu a lei espanhola, que permite alterar a identidade de quem quer mudar de sexo.

Adequou o corpo ao que a mente lhe dizia..."Carla sempre foi Carla". Já ficou retida em aeroportos porque o nome não correspondia à imagem. Rosto da transexualidade em Espanha, procura agora afirmar-se no cinema e trabalhar com Almodóvar "está escrito no destino".

Carla Antonelli é o nome artístico de Carla Delgado Gómez. Recusa dizer como se chamava quando era um homem, mas não tem problemas em falar do seu processo de transformação.

"Nunca pude entendê-lo de outra maneira. Carla sempre foi Carla e nunca pude dizer que um dia pensava de uma maneira e no outro dia de outra. Só houve uma alteração física, em que adequei o meu corpo ao que a minha mente me diz que sou", começa por explicar, em entrevista à Agência Lusa.

"Não é um capricho"

Deixou pelo caminho vários amigos e família, um "fardo" que diz que alguns homens e mulheres transexuais carregam devido à decisão que tomam. Por isso, "é preciso destruir o estereótipo do capricho".

"Isto não é nenhum capricho. Isto é uma realidade que se sente e que se deve respeitar", afirma, com convicção, enquanto posa com um grande sorriso para mais uma fotografia. Vai ajeitando os longos cabelos encaracolados antes de cada flash e de vez em quando procura um espelho, à medida que vai percorrendo os corredores da Assembleia da República.



Foi coordenadora da área da transexualidade do grupo federal de gays e lésbicas do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE - actualmente no poder) e ameaçou entrar em greve de fome caso José Luís Rodríguez Zapatero não fixasse uma data para avançar com a Lei da Identidade de Género, uma promessa eleitoral.

Este diploma, pioneiro em todo o mundo, permite solicitar a alteração de documentos, independentemente da realização de uma cirurgia aos órgãos genitais, reenquadrando ainda protocolos médicos para a transexualidade.

"Acabaram as humilhações"

"Todos já tivemos situações em que tivemos de apresentar o bilhete de identidade para salvar uma situação. A lei permitiu também eliminar discriminações no âmbito do trabalho, porque as pessoas apresentavam um BI que não correspondia, que não as identificava", explicou, acrescentando: "Acabaram-se as humilhações quando se viaja, quando se aluga uma casa ou quando se concorre a um emprego".

Carla recorda uma situação em Cuba, quando ficou retida durante mais de quatro horas no aeroporto porque uma funcionária da alfândega não a deixava entrar no país: "Dizia que não era a pessoa do passaporte, que o documento era falso".

Depois de uma vida dedicada ao activismo, Carla Antonelli procura agora singrar no mundo do cinema e não tem dúvidas em enunciar uma das suas maiores ambições: trabalhar com o realizador espanhol Pedro Almodóvar.

"Ele ainda não sabe, mas está escrito no destino que vamos trabalhar juntos", brinca.