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Tempestade em terra, discurso no mar

Cavaco Silva soube evitar toda e qualquer frase que pudesse comprometer ainda mais a posição de Portugal nos mercados internacionais. No seu discurso, preferiu apontar o nosso maior desígnio: o mar.

Ricardo Costa (www.expresso.pt)

Há muitos anos que o discurso do 25 de Abril é o discurso dos recados ao governo. Foi assim com Sampaio, é assim com Cavaco. Mas este ano o calendário obrigou Cavaco Silva a uma mudança. Amanhã, dia 26, os mercados vão reabrir com um forte pressão sobre os juros da nossa dívida pública. Qualquer discurso do Presidente sobre o nosso endividamento ou défice teria um efeito desastroso na imprensa internacional.

Sabendo isto, Cavaco Silva agiu bem. Fez um bom discurso a relembrar que já em 2008 tinha chamado a atenção para os salários e prémio dos gestores, voltando a apelar a uma ética que anda desaparecida. Aproveitou para dizer que os portugueses não percebem qual é o rumo que leva o País, e que é por causa disso que tantos emigram até que chegou ao ponto principal. O Mar é o futuro da nossa economia, da nossa ciência, da nossa tecnologia. Do nosso país, para ir directo ao assunto. 70% da riqueza mundial circula por mar. Devemos apostar nos portos, no transporte marítimo, nas pescas, na investigação científica e por aí fora. Alguém discorda disto? Ninguém, mas a verdade é que tem estado ausente dos discursos e das práticas de quase todos os governos.

Menos óbvia foi a aposta no Norte do país. Cavaco acha que o Porto deve ser o pólo de uma região de "economia criativa", apoiado na capacidade de iniciativa e risco local, no capital existente e nas boas universidades da região.

Um discurso bom, a olhar para a frente e que pode por o país a pensar um pouco. Nada habitual nestas cerimónias. Por vezes, é bom ter uma tempestade em terra.