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Rebelde com causas

Senhor de um indiscutível charme, o actor que prefere ser realizador confessa-se: aos 47 anos, interessam-lhes as fitas para abalar o sistema, o activismo político, o Darfur... e manter-se solteiro.

Entrevista de Rui Henriques Coimbra, correspondente em Los Angeles

A generosidade de George Clooney começa a ser lendária. Felizmente, é uma lenda que surge de várias fontes, todas elas fidedignas. Durante as filmagens de Three Kings, um filme sobre a ganância a que chamamos Médio Oriente e onde mostrou o seu alinhamento político, o actor engalfinhou-se com o realizador David O. Russell acusando-o de maltratar desnecessariamente um subalterno que fazia parte da equipa de filmagens. Na rodagem de um filme sobre a corrupção do poder, George Clooney desafiou o poder e manteve-se aliado ao trabalhador que mais sofre. Ainda hoje é assim. Como embaixador da ONU, esteve recentemente no Congo, a falar da guerra civil em constante mutação.

A cara dele fica bem num "film noir" como Michael Clayton, sobre, outra vez, a ganância sem limites e a responsabilidade que nos cabe, pessoal e individualmente. É uma cara de Humphrey Bogart, batido pelo mundo mas ainda não derrotado, apenas um vulto desencantado que se movimenta nas ruas mais escuras. Essa mesma cara fica também bem nas comédias antigas e maliciosas, quando o galã anda sempre dois passos atrás da estratégia romântica engendrada pela mulher fatal. É o que se passa em Jogo Sujo/Leatherheads, que realizou e protagonizou, sobre uma equipa de futebol em 1925, depois da guerra mas antes da depressão, uma comédia feita com ar de América com vontade de rir outra vez. Renée Zellwegger é a loira longe de ser inocente. O actor foi apanhado em LA, no intervalo das re-filmagens de Burn After Reading, outra comédia, mas esta à procura do tom adequado, e que conta com as participações de Brad Pitt e John Malkovich, todos sob direcção dos recentemente galardoados Joel e Ethan Coen. Eis, pois, George Clooney em acção: ícone da moda, solteirão inveterado, filho de uma dinastia talentosa, bebedor de café, senhor de uma das mansões mais bonitas dos lagos alpinos italianos, actor, realizador, activista, rebelde e, olhem para ele, belíssimo exemplo a seguir.

O actor, fotografado na sua casa da Califórnia. «A minha casa está sempre cheia, com amigos a chegar e a partir»

O actor, fotografado na sua casa da Califórnia. «A minha casa está sempre cheia, com amigos a chegar e a partir»

Sam Jones/ Corbis Outline/ VMI

Dá ideia de que teve imenso gozo em realizar e protagonizar o seu último filme, "Jogo Sujo". Diverti-me imenso. A ideia era diluir no filme o tom de um O Grande Escândalo/His Girl Friday ou um Casamento Escandaloso/The Philadelphia Story. Nem sequer vou dizer que se trata de uma homenagem. O que eu fiz foi roubar tudo a muita gente! Roubei tudo aquilo que adoro, fosse em filmes do Howard Hawkes ou Preston Sturgess, ou mesmo um dos primeiros filmes do George Stevens, The More The Merrier, com o Joel McCrea, um daqueles talentos que parece estar a fazer pouco dele mesmo, mas muito elegantemente. Como o James Garner, outro exemplo. Foram fontes de inspiração. Portanto, de cada vez que no filme ele acha que a vida está a ficar realmente glamorosa, alguém dá-lhe um murro no nariz. Não é muito diferente do que fiz no filme dos irmãos Coen, Oh Brother Where Art Thou?, a peça era também feita a pensar em mim, nesta persona que é estrela de cinema. Gosto de coisas nesse género. De vez em quando é preciso abanar o sistema.

Essa leveza deve ter sido bem-vinda depois dos dramas em que apareceu ultimamente, incluindo "Michael Clayton", tão nomeado para os Óscares. Sim, foi bom fazer isto depois de dois anos a fazer outras coisas. Tinha feito o Syriana e o Boa Noite e Boa Sorte/Good Night and Good Luck. São filmes com temas importantes. Cheguei ao ponto de só querer receber argumentos para ler quando o tema é político ou militar. E isso é muito pesado. Ora bem, o que gosto é de realizar. Quero realizar todo o tipo de filmes. Não gostaria de ser conhecido só como realizador de filmes que falam de temas politicamente relevantes, até porque é uma escolha perigosa. Aquilo que é relevante está sempre a mudar. Desta vez optei pela comédia, em parte porque queria distanciar-me de todo o peso político dos filmes que fiz nos últimos anos.

E é assim, suponho, que o actor George Clooney aparece aos murros a outro tipo no meio de uma poça de lama. É a faceta infantil que tantos homens insistem em manter? Não. Se fosse, estaria metido numa grande pilha de sarilhos.

Sam Jones/ Corbis Outline/ VMI

Porque... Porque há um tipo de homem que há-de estar sempre a fazer um derradeiro esforço para não ter de abandonar a juventude. A minha personagem no Jogo Sujo, Dodge Connolly, é isso mesmo. Como é que hei-de explicar? Sabe, é um pouco como ser actor. Um actor nunca cresce. Um filme assim eu até faço de borla. Trata-se de um tipo que chegou atrasado e o comboio já partiu. Um pouco como o Butch Cassidy e o Sundance Kid. Gosto de ver pessoas tentando agarrar-se ao entusiasmo da juventude. São sempre filmes muito divertidos de fazer.

Quer dizer: na poça de lama, George Clooney encontra o nirvana. Olhe, parece que é apenas divertido andar ali esparramado no meio da lama mas a verdade é que estava um frio de rachar. Foram seis dias de filmagens que coincidiram com uma frente fria na Carolina do Sul. Tinham-nos dito que ia estar calor mas, claro, com a nossa sorte, nunca tinha estado assim tanto frio em toda a história das Carolinas. Eu só pensei: porquê eu? E foi uma trabalheira. Tivemos de trazer a terra e a lama de muito longe, depois ainda apanhei com uns murros muito bem dados pelo John Krasinski. Em garoto, joguei futebol americano. Mas já não apanhava uma sova daquele tamanho desde os 25 anos.

Muitos dos seus amigos estão agora em relações conjugais estáveis mas há muita gente que começa a temer que os seus cromossomas não venham a ser transmitidos. Nem tanto, nem tanto! Penso sempre que os meus cromossomas vão dar mau resultado.

Sente-se feliz sem descendentes. Exactamente. Nem preciso de me casar. Mas espere lá, a ideia de que nunca me vou casar vem de uma entrevista que dei ainda muito jovem. Não sabia que é importante termos cuidado com aquilo que dizemos, para o caso de nos tornarmos muito conhecidos. Dito isto, garanto que a minha vida é óptima, tenho amigos fantásticos, sobrinhos que adoro, e muitos afilhados. Mas, voltando à bagagem genética, é algo que me preocupa. Você não conhece a minha família (ri-se). Há para ali muita gente transtornada.

Que relação tem com a ideia de romance? A minha ideia de romance é uma garrafa de "scotch".

Com 47 anos,o actor está «cansado» de realizar filmes com mensagem política. As suas últimas películas têm um tom de comédia à Howard Hawks

Com 47 anos,o actor está «cansado» de realizar filmes com mensagem política. As suas últimas películas têm um tom de comédia à Howard Hawks

Frank W. Ockenfels 3/ Corbis

Diga lá... A sério que não sei. Romance é uma daquelas coisas que, a serem definidas, deixam de o ser. Mas, quando acontece, sabemos logo. É um pouco como quando aquele senador tentou definir o que é pornográfico: posso não saber bem o que é mas não tenho dúvidas quando me aparece à frente.

E as causas humanitárias? Como consegue ser actor, realizador e, ainda, embaixador das Nações Unidas? Não é fácil. Bom, desde logo, nunca tento fazer tudo ao mesmo tempo. Por isso, quando estou a fazer um filme, as minhas energias ficam concentradas nisso. Se estou em filmagens não vou andar a fazer fazer viagens de ida e volta para África. Mas fico sempre surpreendido com a facilidade com que regresso à luta, quando luto por uma causa política. E há muitos actores que fazem o mesmo. É uma questão de gerir bem o tempo. Além disso, um realizador já está meio especializado em fazer muitas coisas ao mesmo tempo.

Tem-se a ideia de que é uma pessoa muito corajosa quando o assunto é para si importante, mas nunca o vi como grande defensor da ecologia. Que importância dá a isso na sua agenda política? Não tenho problema nenhum em falar a favor da defesa ambiental. Tenho dois carros eléctricos e um híbrido. Não gosto é de falar daquilo que não sei. Se me tornar porta-voz da tudo o que acho importante, então voltamos ao tal Clooney que só empresta a voz aos temas de grande relevância e impacto. Milhões de temas! Na ecologia há um problema que tenho: voo muitas vezes em jactos privados. Ser-me-ia difícil falar da protecção ambiental e, depois, andar a poluir o ambiente com viagens em aviões privados. Do que posso falar sem hesitar é da situação no Darfur. Quando alguém me pergunta se sei alguma coisa sobre o assunto, se estou a par do que está acontecer, aí sim, posso falar porque estive lá, falei com os vários líderes tribais e senhores da guerra, sei onde estão, o que disseram, que planos têm, etc. Voltando à ecologia, olhe, até sou daquelas pessoas que teria aplaudido se o Barack Obama viesse a público dizer que daqui a 10 anos as estradas americanas não podem ter carros a circular com motores de combustão interna. A meu ver, só por aí é que se pode ganhar a verdadeira guerra ao terror.

Em Agosto de 2007, Clooney fez-se acompanhar no Festival de Veneza pela manequim e namorada Sarah Larson, um romance entretanto desfeito

Em Agosto de 2007, Clooney fez-se acompanhar no Festival de Veneza pela manequim e namorada Sarah Larson, um romance entretanto desfeito

Camila Morand/ Corbis/ VMI

E lá em casa, já substituiu as lâmpadas por outras de energia mais eficiente? Temo que não. É difícil, sabe, com tanta gente que vive lá. Nunca sei o que se passa. A casa está cheia e há sempre amigos que estão mesmo a chegar ou estão mesmo de partida. A minha grande preocupação, nas questões ecológicas, é o consumo de combustível. Geralmente, ando de mota. Vim de mota até aqui ao hotel.

Mas não anda, também, envolvido em assuntos que têm a ver com a cronometragem da Omega, a China e os Jogos Olímpicos de Pequim? Não teme que a sua fama seja posta ao serviço do grande poder político e financeiro? É importante mantermo-nos vigilantes. Directa ou indirectamente todos nós trabalhamos para as sete companhias mais poderosas do mundo. Está tudo interligado. O que se passa é que, por causa dos anúncios que fiz e por ser a cara da marca, conheço muito bem o Nick Hayek, filho do dono e director executivo da Omega. Não podemos simplesmente dizer à China o que fazer, da mesma maneira que ninguém diz aos Estados Unidos o que fazer. Aliás, é preciso lembrar que também o Governo americano não tem feito o suficiente para resolver o problema no Sudão. Quando me encontrei com os dignitários chineses, fiquei com a sensação de não estarem dispostos a fazer grande coisa, embora tenha havido progresso nestes últimos meses. A Omega, talvez de uma forma mais suíça e não tão ruidosa como a minha, tem posto alguma pressão, embora tenha o direito de não querer politizar as Olimpíadas. São patrocinadores oficiais desde 1932. Cronometraram tudo, mesmo quando os americanos boicotaram os jogos de 1980 e, novamente, quando os soviéticos estiveram ausentes em 1984. Claro que o argumento contrário também é válido. Dizer que os J.O. transcendem a política é não saber o que aconteceu em Berlim em 1936, ou, depois, em 1968, em 1972 e em 1984. Vai longa a lista das Olimpíadas de índole política. Mas não se deve boicotar. Não se pode argumentar que as Olimpíadas ficam fatalmente debilitadas porque a China tem interesses económicos no Darfur. Seria esticar a verdade. Justo é pôr o holofote virado para a China e chamar a atenção para uma coisa muito simples: se o país quer juntar-se aos adultos nesta coisa a que chamamos mundo real, então vamos lá ver como se tem portado a nível dos Direitos Humanos e que tipo de envolvimento mantém no Darfur. É essa a pressão que tenho feito, eu e várias companhias.

Em Janeiro deste ano, o actor e embaixador para a Paz da ONU esteve num campo de refugiados a norte de Darfur

Em Janeiro deste ano, o actor e embaixador para a Paz da ONU esteve num campo de refugiados a norte de Darfur

Sherren Zorba/ AP

Tem acompanhado a corrida presidencial? Sou um grande apoiante de Barack Obama. Ele vai ser o nosso Presidente.

Quando foi capa da revista "Time", aparecia intitulado como "A Última Estrela de Cinema". Engraçado, não é?

Claro que sim. Mas a questão é: se o George é a última estrela de cinema, então que se passa com o seu amigo Brad Pitt? O Brad? Esse já deu o que tinha a dar (ri-se). Toda a gente sabe que, se a "Time" diz que sou eu, então é porque já não se discute. O mais confrangedor foi o facto de essa edição da "Time" ter chegado às bancas na manhã dos Óscares. Eu, claro, tinha de ir à cerimónia e não é que dei logo de caras com o Jack Nicholson? Pois. Veio ter comigo e disse-me: "Então, ouvi dizer que eras tu a última estrela de cinema." Só lhe respondi que não tinha sido eu a escrever o título do artigo. Rimo-nos imenso porque toda a gente sabe que a verdadeira última estrela de cinema é... o Matt Damon.

Mas, com apenas cinco anos, não disse ao seu pai que queria ser famoso? Disse. Mas foi um erro da minha parte.

Como é isso de ser famoso? Estranho. Há 10 anos nem sequer me passava pela cabeça estar na posição em que me encontro hoje. E, mesmo nessa altura, não achava plausível o sucesso que já estava a ter. Tinha 32 ou 33 anos quando comecei a aparecer naquele drama televisivo e, antes disso, passei por todo o tipo de empregos sem nunca conseguir furar a barreira da fama. Portanto, a fama tardia é uma espécie de felicidade suplementar. É-me mais fácil gerir a fama porque passei tantos anos sem ser famoso. É algo que não depende de nós, mas de outros elementos. Da sorte. De estar no sítio certo, no momento certo. Se a tal série na TV liderasse a programação nocturna de sexta-feira em vez da de quinta-feira, eu não teria carreira no cinema.

Qual foi o presente mais bonito que recebeu? Um grupo de miúdos do Mississipi organizou uma venda de limonada e todo o dinheiro angariado foi entregue ao comité internacional para os refugiados do Darfur. Achei fantástico. Não me lembro de, aos nove anos, eu ter esse grau de consciência política.

Jogo Sujo/Leatherheads é uma comédia, realizada e protagonizada pelo «homem» do Nespresso

Jogo Sujo/Leatherheads é uma comédia, realizada e protagonizada pelo «homem» do Nespresso

Entrevista publicada na edição do Expresso de 28 de Junho de 2008, Única, página 46.