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"Quero descobrir jovens talentos"

Regressar à Nigéria não faz parte dos planos de Obikwelu

O homem mais rápido da Europa revela-se numa altura em que está a mudar de vida. No Algarve, Francis Obikwelu vai agora dedicar-se à fundação que criou para ajudar os jovens, principalmente os mais desfavorecidos, a praticar desporto. Promete voltar às pistas, mas desta vez, na função de treinador.

Carolina Reis e Paulo Luís de Castro (texto) Luís Faustino (fotos)

É num português a roçar o espanhol, com recurso por vezes ao inglês, que Francis Obikwelu fala ao Expresso sobre a nova fase da vida. Mesmo quando se reformar em definitivo - até meados de 2009 vai cumprir o contrato com o Sporting - não tenciona arrumar as sapatilhas de corrida. Voltará a calçá-las sempre que estiver com crianças na fundação a que dá o nome, inaugurada sábado passado, dia em que fez 30 anos, ou a treinar atletas para a alta competição.

Dentro e fora da pista, Obikwelu vê-se, facilmente, como um conselheiro. Um papel de que assume gostar. E ao qual parece já estar habituado, tantas são as vezes que o abordam na rua com um pedido de ajuda. Como no fim da manhã de segunda-feira em que encontrámos no estádio municipal de Albufeira. À saída do treino há um trabalhador da construção civil que o aborda. Baixinho, e um pouco a medo, pede-lhe ajuda. Em voz alta, Obikwelu promete-lhe o número de telefone e um encontro.

"Já estou habituado a que as pessoas venham ter comigo. Vejo sempre o que posso fazer, também já precisei de ajuda", diz mais tarde para explicar o sucedido. É preciso ter um bom coração para ser-se assim? Sorri, mas responde logo que não se deve dizer o que se faz pelos outros.

Português desde 2001, há metade da vida que convive com a cultura do país. E gosta. Depois de cinco anos a viver e treinar em Madrid não hesitou em regressar à pátria eleita.

Nas três horas que durou a entrevista com o Expresso voltou ao passado para explicar o presente. Ao Algarve, onde "tudo começou" - o lugar que lhe serviu de refúgio depois da atribulada fuga em Lisboa - e onde volta agora para "cumprir um sonho", a fundação que se propõe a descobrir grandes atletas, principalmente, nas classes mais desfavorecidas. "Porque há muitos talentos que ficam por descobrir".

Hoje de manhã espreitámos o seu treino e pareceu-nos que estava a orientar dois jovens. O próximo passo é ser treinador? Sim. Já pensava nisto há vários anos. Tive muitos atletas que me pediram, quando acabasse a carreira, para os treinar. Além disso quero-me dedicar à fundação.

A ideia da fundação nasce quando? Quando tinha 14 anos disse à minha mãe que queria ajudar as crianças que via a passarem fome. Ela disse-me que não tínhamos dinheiro. Respondi-lhe que sentia que ia ganhar muito dinheiro para ajudar as pessoas. Sempre senti isso. Na Nigéria, via muitos ricos que não ajudavam ninguém, não queria ser assim. Depois de Atenas comecei a imaginar como seria.

O velocista promete voltar às pistas mas agora como treinador

O velocista promete voltar às pistas mas agora como treinador

Não é um projecto virado só para o atletismo. Temos olheiros para o atletismo, natação, futebol, ténis e basquetebol. Também vou andar à procura de bons atletas. O objectivo é encontrar jovens talentos e ajudá-los a chegar alto.

A fundação é um pouco a génese da sua vida... Passei por muitas dificuldades para ser atleta. Quero ajudar os jovens para que não tenham tantos obstáculos. Quero descobrir jovens talentos. E faz sentido no Algarve porque foi aqui que comecei a minha vida, nas obras. Vai criar um projecto assim no seu país natal? Comecei a fazer contactos nesse sentido. Ainda não sei quando será, penso que a médio prazo.

Vai criar um projecto assim no seu país natal? Comecei a fazer contactos nesse sentido. Ainda não sei quando será, penso que a médio prazo.

É a maneira de manter a ligação com o seu país de origem? Quero ajudar crianças de vários países. Já vi muitas pessoas com talentos perdidas. Acho que esta fundação vai chamar a atenção.

"Sou mais português"

Sente-se mais nigeriano ou mais português? Português. Sem dúvida.

Esta ligação com o país nasce em 1994 quando fugiu depois do Campeonato do Mundo de Juniores. Quer recordar-nos a sua fuga? Na Nigéria temos quase 150 milhões de habitantes. É uma sorte ser seleccionado para representar o país, daí que quando eu, o Sylvester Omodiale e o Wilson Ogbeide viemos já tínhamos a ideia de não voltar. Nestes campeonatos foge muita gente, então, o presidente da federação tirou os passaportes à equipa. Alugámos um quarto numa pensão no Rossio, mesmo ao pé da polícia, pensávamos que aí não seríamos procurados. No dia da partida, pusemos uma mala igual à nossa - que compramos na feira do Relógio - ao pé do autocarro e quando os seguranças não estavam a olhar começamos a correr para o metro. Estivemos dois dias sem ir à rua com medo de sermos apanhados.

Despediu-se da sua família antes de fugir? Não disse nada. Liguei a primeira vez dois anos depois de cá estar, a dizer que estava bem. A minha mãe pensava que eu tinha morrido. Quando a minha avó morreu chamou por mim. Disse que queria ver o Obi. E eu sonhei com isso. A minha família sofreu muito. Mas eu precisava mesmo de sair da Nigéria porque as coisas não estavam fáceis.

Agora que deixou o atletismo como é o seu dia-a-dia? A minha ideia é treinar de manhã e de resto dedicar-me à fundação. E fazer contactos para criar uma fundação na Nigéria. Já comecei a fazer contactos nesse sentido. Ainda não sei quando será possível, mas pensou que a médio prazo. Há muito interesse porque há jovens com muito futuro.

Como é Portugal visto pelos olhos de emigrante ilegal? Quando cheguei cá vi tantos pretos que não fiquei assustado. Até pensei que falavam todos inglês. Depois percebi que não e pensei de onde vinham. Não tinha ideia dos países como Angola. Nesta altura, o Rossio estava cheio de pretos.

A Europa era um elo dourado? Sempre gostei da Europa. Nunca quis viver na América. Tenho muito medo da violência nos EUA. Não é sítio para mim. Não se falava muito sobre Portugal, mas pensei que se era Europa, era bom para mim. No campeonato aliciaram-me a ir para a América. Mas eu não quis. Pensei vou ficar aqui e fazer grandes coisas.

O que é que comprou com o primeiro dinheiro que recebeu cá? Guardei para mandar para casa, através da conta de um amigo da Nigéria na Western Union.

Como foram os primeiros tempos em Portugal? Difíceis. Nos primeiros dia a trabalhar nas obras não percebía nada. O patrão pedia tijolo e nos pensávamos que era cimento. Acabou por nos mandar embora sem pagar. Tive outro patrão que ao fim de dois meses também me mandou embora sem pagar. Durante esse tempo só tínhamos dinheiro para comprar um pão por dia para comer. Acabei por conhecer um nigeriano que me falou em ir trabalhar para Loulé, no Algarve. Aí separei-me do Sylvester e do Wilson, que ficaram em Lisboa. Disse-lhes que tinha de ir conseguir alguma coisa para viver.

Perdeu a esperança em voltar a correr? Sabia que ia voltar a correr. Tive sempre certeza disso na minha vida.

"Tentei regressar à Nigéria"

Algum dia quebrou e quis voltar a casa? Sim. Passei muita fome. Um dia disse ao Sylvester que ia pedir à embaixada para voltar para a Nigéria. Mas ele convenceu-me a ficar. Disse que a vida não era fácil, mas que devíamos ficar porque as coisas iam acabar por correr bem.

Loulé foi melhor que Lisboa? Em Loulé fui morar para uma barraca feita de zinco. Passei frio no Inverno e calor no Verão. Trabalhei bastante para o meu patrão gostar de mim, não queria ser despedido. Fazia tudo. Desde acartar tijolos a fazer cimento. Houve alturas em pensei que morria ali. Estava muito magro e não tinha dinheiro para comer bem. Quando mudei de patrão comecei a ter folgas. Assim pude sair e descansar. Pensei em aprender português e  fui para à escola da Mary Morgan. Apresentei-me com um nome falso - John Smith - mas ela achou estranho eu trabalhar nas obras.

"Sinto-me bem a viver em Portugal"

"Sinto-me bem a viver em Portugal"

Começou a aprender português... Sim. Quer dizer ainda hoje é complicado para mim falar português. Mas foi importante o tempo que tive aulas com a Mary Morgan. Aos fins-de-semana ia jogar rugby com o filho dela e ele viu que eu era muito rápido. Perguntou-me se era atleta, respondi que sim, mas tive medo de contar a minha história. Um dia convidou-me para ir almoçar com a família a casa dela e alguém me perguntou o meu nome e me reconheceu da televisão. O meu coração começou a bater alto com medo que chamassem a polícia e fui-me embora. Fiquei a pensar se devia contar a verdade.

Você estava dividido. Queria desabafar mas tinha medo de contar a história? Duas semanas depois ganhei coragem e contei-lhe tudo. Fui ter com a Mary Morgean e disse-lhe: "Primeiro tive medo, mas agora já conheci a tua família posso contar". Ela reagiu bem.  Perguntou-me se não queria voltar a praticar desporto e começou a ligar aos clubes.

Começa por ser rejeitado pelos grandes. O primeiro foi o Sporting. Disseram à Mary que o meu amigo Wilson já lá tinha ido. A resposta foi a mesma: tinham muitos atletas e não precisavam de mais ninguém. O mesmo aconteceu no Benfica. Até que ela foi ao Belenenses e encaminharam-na para o Fausto. Ele lembrava-se de mim do campeonato. Disse que eu tinha talento e ficou admirado por estar em Portugal.

"Pedi para o Sylvester e o Wilson irem para o Belenenses"

Segue-se o Belenenses. Despedi-me do meu patrão das obras que ficou com pena de me ir embora. O que queria mesmo era fazer desporto. Pagou-me o autocarro para Lisboa e assim que cheguei fui falar com o Fausto. Comecei a viver no Beleneses. Deram-me uma cama, televisão e comida. Liguei logo ao Sylvester a dizer que já tinha clube. Pedi ao Fausto para eles virem treinar para o Belenenses. Ele aceitou. Estávamos os três juntos de novo.

O Fausto encaminhou-o para os 100 e 200 metros metros. Foi a primeira pessoa, em Portugal, a acreditar no seu sucesso? Sim. Depois de me ver treinar achou que eu não devia fazer os 400 metros, que podia fazer os 100 e os 200. Comecei a treinar e tive a minha primeira prova no Benfica, que antigamente tinha uma pista de atletismo. Fiz o primeiro record nacional. Fiquei mesmo feliz. Estava a correr de novo.

Mas vai para Espanha em rotura com ele. Estava descontente? No princípio o Fausto foi um grande treinador. Expliquei-lhe que, como morava longe, precisava de treinar uma vez por dia, muito forte e longa. Depois de fazer a minha melhor marca em 1999, na final dos 200 metros, o Fausto aumentou-me o plano de treino. Em 2003, já como português, no Campeonato do Mundo tive uma lesão muito grave e não conseguia correr. Tive de mudar de treinador. A equipa portuguesa estava no mesmo prédio da espanhola. Pensei que ia deixar o atletismo e a Maria Martinez convidou-me a treinar com ela. Falei com o Fausto com calma e ficámos amigos.

Ainda hoje se falam? Sim. Foi uma pessoa muito importante na minha vida. Nunca vou falar mal dele. Foi a primeira pessoa a acreditar em mim.

Acha que ir para Espanha foi uma boa escolha? Sim. Treinava uma vez e tinha mais tempo para descansar. Ganhei a prata em Atenas. É melhor treinar uma vez e ter tempo para descansar.

Com a Maria Martínez ganhou rapidez? Sim. Há muitos atletas que têm problemas no arranque. Além disso, estava habituado aos 400 metros.

"Só fui treinar para Espanha"

Pensou ficar em Espanha? Não. Sinto-me muito bem a viver em Portugal. Só quis ir para Espanha treinar e melhorar a técnica. Pensei sempre em voltar.

Nos primeiros tempos em Portugal tentou legalizar-se? Era difícil porque nesta altura o meu passaporte ainda estava com a embaixada. Só tinha uma foto da federação. Só me devolveram quando a federação nigeriana disse que precisava de mim para os Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta.

A que atribui essa mudança de comportamento? Foi o Governo da Nigéria que pediu porque precisava que eu corresse pelo país. Viram que eu era um atleta de futuro. Só assim é que me entregaram o passaporte. Comecei a treinar e pagaram a minha viagem para ir à Nigéria participar no campeonato nacional.

Foi pacífico o seu regresso? Ao chegar ao país tive um novo problema. Estava referenciado como fugido na imigração. Exigiram-me uma explicação sobre o que se tinha passado. Não tinha explicação. Queriam saber onde estavam os outros dois atletas. Começaram a dizer que me iam meter na prisão e que não podia mais sair do país. Liguei para a federação e o ministro do Desporto ordenou que me deixassem sair e me dessem o passaporte.

É ainda como nigeriano que participa pela primeira vez nuns Jogos Olímpicos, os de Atlanta? Disseram-me que se chegasse à final fazia história, porque era o mais jovem dos Jogos. Tinha 16 anos. Treinei, treinei, treinei. Conheci o Michael Jonhson que me disse que eu tinha talento e ia longe. "Podes fazer grandes marcas". Não consegui chegar à final.

O maior velocista de sempre em Portugal recebeu o Expresso no Algarve. A entrevista durou três horas

O maior velocista de sempre em Portugal recebeu o Expresso no Algarve. A entrevista durou três horas

A medalha de Atenas é o 'top dos tops' da sua carreira. Em 2000, nos Jogos de Sidney, estava no número um do ranking , mas tive uma lesão e foi um choque porque nem conseguia andar. Os médicos nigerianos disseram-me que era desculpa para não correr. Acabei por se tratado no Canadá. Ganhar Atenas foi muito importante para mim e para os jovens da Nigéria e de Portugal. Mostrei o meu valor.

Infelizmente, o dopping também faz parte do mundo do desporto. Você nunca se sentiu tentado? Não. Os atletas têm o seu sofrimento. Temos de procurar apoio nos médicos e nos treinadores. Nunca tive um problema. Tentei sempre fazer a minha vida e treinar. Tenho a minha força. Dou graças a Deus por ter sido assim.

Teve "ofertas" de estimulantes para melhorar os resultados competitivos? Não. Ninguém me ofereceu. O Fausto era meu treinador e nunca permitiu isso.

Mas chegou a assistir à sua volta. Nos Jogos Olímpicos ou nos campeonatos? Não. Estou concentrado nas minhas coisas e não olhos para a vida dos meus colegas.

"O que faço fica dentro de mim"

O seu amigo nigeriano, Sylvester Omodiale [atleta dos 400 metros barreiras que em 1994 fugiu com Obikwelu] teve um percurso diferente do seu, ao envolver-se com drogas. Como é que seguiram caminhos tão diferentes? Somos pessoas diferentes. A minha disciplina vem de família. Do meu pai. Disse-me sempre para não ir na conversa de ninguém, nem tomar nada. Segui a minha cabeça, pensei se chegar lá, cheguei. Querer meter coisas para ganhar não. Foi difícil o que aconteceu ao Sylvester.

Houve uma altura em que lhe pagava o advogado que relação têm hoje? Eu não gosto de falar sobre essas coisas. Acho que não se deve anunciar o que se faz pelos outros. Aquilo que eu faço fica dentro de mim.

Mantém contacto com ele? Diário não. Ele está preso e não podemos falar todos os dias.

Continua a ajudá-lo? Quando vejo uma pessoa para ajudar ajudo. Às vezes quando temos dinheiro ficamos agarrados. Eu sofri muito para ter o meu dinheiro e penso que há pessoas que podem estar na mesma situação.

Sabe do Wilson? Falamos também. Vive em Orlando. Tem uma barriga grande e é treinador. Quando vier à Europa vem-me visitar.

Que tipo de contacto tem com a sua família de sangue? Falo, ao telefone, todos os dias com a minha mãe.

Pensa trazê-los para morar cá? É muito frio para a minha mãe e o meu pai gosta de viver na Nigéria. Vêm em Fevereiro para me visitar. Todos os Natais vou à Nigéria passar a época com os meus pais e os meus quatro irmãos.

Está bem na vida. O que é que vocês já lhes deu? Uma casa nova. Construí uma casa nova na minha terra, para a minha família. É lá que passamos o Natal todos juntos. Na cidade também já lhes comprei outra casa.

Quer voltar à Nigéria? Não. É difícil para mim regressar. Talvez um dia quando tiver 80 anos e filhos crescidos queira ir-me embora (risos).

Os filhos estão para breve? Quero ter uma estrutura familiar. Casar com uma mulher boa, ter filhos e adoptar crianças de diferentes raças. Fazer uma mistura (risos).

Não é fácil encontrar uma mulher disposta a isso... Acho que não vai haver problema. Pode ser no próximo ano ou já. Nunca se sabe.

"Não sou milionário"

Que relação tem com o dinheiro? Não sou milionário. Ganho o suficiente para viver. Muitas pessoas sofrem e acabam por não ter nada. Guardei sempre o que ganhei porque sabia que a minha carreira ia acabar. Investi na Nigéria e cá e ajudei a minha família. O dinheiro não manda em mim. Sou eu que controlo o dinheiro. Estou ok.

Investe em quê? O meu pai estudou economia e ensinou-me algumas coisas. Por exemplo, a comprar casas e alugá-las.

Há muitos nigerianos que vêm ter consigo e lhe pedem ajuda? Sim. Até hoje há muitas pessoas que me ligam e pedem ajuda. Tento sempre ver o que posso fazer. Se não consigo digo a verdade. Não vale a pena dizer que se consegue e depois fazer. Estou sempre aqui a ajudar.

O que queria hoje aquele jovem das obras? Veio um trabalhador ter comigo, um bocado com medo, a tremer. Disse-me que tinha praticado atletismo e pediu-me para treinar comigo. Eu ia a sair, mas disse que lhe dava o meu número e vou fazer. Acho que é angolano.

Isso acontece muito? Sim, eu tentei sempre fazer alguma coisa.

Pedem-lhe o quê? É uma ajuda diferente. Pedem-me opinião muitas vezes. E eu dou.

Você gosta do papel de conselheiro? (risos) Na minha família sempre foi assim. A minha casa estava sempre cheia de crianças a chamarem mamã à minha mãe. Os meus pais sempre ajudaram as pessoas. Acho que está dentro de mim. Às vezes vejo crianças na televisão que não têm anda e começo a chorar.

"Não tenho desculpas para Pequim"

Ficou desiludido com Pequim? Estava à espera de mais e estava a treinar para isso. Estava em boa forma, mas às vezes isto acontece.

O que aconteceu concretamente? Não vou arranjar desculpas. Tive um problema no joelho e como tive uma falsa partida em 2007 fiquei mais fraco, psicologicamente. Foi complicado e não recuperei muito bem.

Vocês sentiam-se muito pressionados para trazer medalhas? Não. Pensei sempre em fazer o melhor para Portugal. Pode-se estar muito forte, mas estas coisas podem acontecer. A vida continua, não quero pensar mais nisso.

Mas os outros atletas sentiam pressão? Não falei muito sobre o assunto com os atletas. Vi as coisas a saírem nos jornais. Só aí me apercebi do que se estava a passar. Ver que o Marco Fortes foi expulso da aldeia, foi um choque.

Imaginava outra despedida dos Jogos? Sim. Sentia que ia trazer uma medalha para Portugal, mas não consegui.

O ouro era difícil com o Usain Bolt? Sim, mas o meu objectivo sempre foi chegar ao pódio.

Teve azar na sua meia-final. Foi fortíssima. Não, acho que não. Acho que estava bem para chegar à final. Foi uma questão de medo, depois de ter tido uma falsa partida. É uma questão de sorte.

Sonhou na medalha de ouro de Atenas devido aos problemas do Justin Gatlin, o campeão olímpico? Não. Sempre pensei em ganhar, mas não quero ganhar na secretaria. Se me dessem não aceitava. A vitória tem mais valor se for no campo. Dou mais valor à prata do que à de ouro se ma derem.

"A Vanessa não esteve bem"

O que achou das declarações de Vanessa Fernandes? Fiquei um bocado chateado. Acho que não esteve bem. Quando eu ganhei uma medalha em 2004 não disse nada aos meus colegas. Os atletas que chegam aos Jogos têm profissionalismo.

Mas o director do Comité Olímpico Português (COP), Vicente Moura, teve um discurso parecido? Não gosto de ligar a essas coisas. Nunca liguei muito a essas declarações. Sempre fiz as minhas coisas, treinar para conseguir uma medalha porque o povo português estava a pagar.

Pelo menos, leu nos jornais o que se passava. Acho que quando diz atletas deve explicar quais são os atletas. Um presidente como ele deve chamar "os bois pelos nomes". Assim, parece que está a falar para todos. Não ganhar uma medalha não quer dizer que não seja profissional.

Alguma vez confrontou o Vicente Moura com isso? Não. Na altura não ouvi as declarações. Acima de tudo respeito as pessoas. Não vou dizer mal dele.

Vai haver eleições no COP. Acha que ele deve continuar à frente? Estive muito tempo com esta direcção no Comité Olímpico e fui muito bem tratado. Não gosto de me meter em política.

Porque é que pediu desculpa? Pagaram-me um projecto de quatro anos e eu não consegui alcançar o objectivo. Senti que o povo me estava a apoiar. É a minha profissão e não consegui cumprir. A minha mãe sempre me ensinou que quando as pessoas ajudam e não se consegue deve-se pedir desculpa.

"Sinto o carinho dos portugueses"

Está contente com o que ganhou até hoje? Sim. Tenho saúde. Dinheiro não é o mais importante. Ter saúde, amigos e família sim. E o carinho dos portugueses. Na Nigéria também sinto isso. Portugal é especial para mim.

Tem alguns problemas no joelho. Vai conseguir cumprir o seu contrato com o Sporting? Estou a treinar muito bem. Só vou fazer provas internas.

Você também é modelo. Fale um bocadinho dessa experiência. A minha mãe não gosta nada disso (risos). Tive convites em Espanha e Itália, principalmente para fotos. Gosto de fazer, mas é só um hobby.

Agora vai estar mais disponível. Não admite fazer mais desfiles? Não sei (risos)

Você é vaidoso? Não (risos). Sei sempre o que vou vestir, não perco muito tempo com isso.

Obikwelu não perdeu o contacto com os dois atletas que fugiram com ele em 1994

Obikwelu não perdeu o contacto com os dois atletas que fugiram com ele em 1994

A sua família aceitou bem a mudança de nacionalidade? A princípio a minha mãe não gostou. Mas depois do comportamento dos dirigentes da Nigéria, depois dos Jogos de Sidney, disse-me que eu já tinha sofrido muito pelo meu país natal. Escolhi o país que me fazia feliz.

"Vou aprender o hino"

Sabe o hino? Não. Vou aprender um bocado. Ainda não tive tempo (risos).

Que tipo de família era a sua na Nigéria? A princípio a minha família vivia bem. O meu pai era polícia secreto e ganhava bem. Um dia num serviço à noite foi guardar um político e levou um tiro. Eram cinco polícias e três morreram. A minha mãe pediu-lhe que parasse com aquele trabalho. Além disso, o meu tio roubou o meu pai no restaurante que ele tinha.

Qual é a melhor memória da sua infância? A minha família não tinha dinheiro, mas o meu pai fez um sacrifício e comprou-me um equipamento de futebol. Tinha doze anos, aquilo foi como ouro para mim. Só o queria ter sempre limpo. É muito raro um miúdo ter um equipamento daqueles na Nigéria.

Você começou no futebol. O meu pai jogou futebol. Sempre quis muito fazer desporto. Joguei num clube da Nigéria como defesa central.

Costumávamos vê-lo, antes das provas, a abrir os braços e levantá-lo para cima. O que é que dizia nesse momento? Peço a Deus para estar comigo. Às vezes há forças negativas e peço aos anjos para me protegerem.

É católico? Sim, devoto de Nossa Senhora de Fátima.

"Vou dar um carro à minha mãe no Natal"

Fale-me da sua terra natal, Onistha? É um sítio com muitos mercados e muitas fábricas. Fabrica-se muita coisa, um bocado como a China.

Que futuro vê para o seu país Natal? Fui lá o ano passado, parece-me que está a melhorar.

Que prendas vai levar para a família no Natal? Para minha mãe é especial não posso contar.

Ela não lê português... Um colar e comprei um carro.

Para o pai? Um relógio e roupa.

Para os irmãos? Não sei, já comprei muita coisa (risos)

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 29 de Novembro de 2008, 1.º Caderno, página 34.

  • O maior velocista português está a mudar de vida. De regresso ao Algarve, Francis Obikwelu criou uma fundação que quer promover o desporto junto de todos os jovens. O atleta vai também iniciar uma carreira como treinador.

  • Francis Obikwelu abre o coração

    Dentro das pistas Francis Obikwelu destacou-se pela rapidez. Fora delas acaba de criar uma fundação para ajudar a encontrar jovens talentos, principalmente entre os mais desfavorecidos. Porque "há jovens que não têm quase nada e podem perder o talento".