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Psicóloga entre um "call center" e uma loja de roupa

Tem 28 anos, trabalha nove horas por dia em dois empregos que nada têm a ver com a sua formação e raramente tem um dia de descanso. Mas nem por isso Cláudia Pinheiro deixou de acreditar na Educação. Nunca exerceu Psicologia Educacional, a formação académica que, durante cinco anos, pagou numa instituição privada de ensino superior de Bragança, mas prepara-se para iniciar uma segunda licenciatura, em enfermagem.

O que gostava mesmo era de fazer um mestrado em Psicologia Clínica, mas não tem dinheiro nem tempo para se deslocar para outra cidade.

Embora sem saídas na sua área, nunca fez parte da lista de licenciados desempregados porque sempre trabalhou, desde os 19 anos, e nem é a expectativa de um emprego melhor que a faz regressar aos estudos.

Gosta de "aprender e de exercitar a mente" e, apesar da sua experiência, acredita que "vale a pena estudar". Não se sente frustrada, garante, no final de mais quatro horas de trabalho, em part-time, num call center de Bragança.

No dia em que falou com a Lusa, a jornada de Cláudia terminou às 18h00 porque tinha folga daquele que é o seu emprego principal, embora também em part-time, numa loja de roupa para crianças, no centro comercial da cidade.

Os dias de Cláudia começam normalmente às 14h00 e só terminam depois das 23h00, sem pausa para descanso ou refeições.  As folgas nos dois empregos raramente coincidem, pelo que é difícil conseguir um dia completo de descanso. Com os dois empregos consegue "um ordenado médio satisfatório, comparando com o mercado local".

Tem, no entanto, "alguns momentos de revolta", quando pensa no que podia estar a "ganhar a mais com uma carga horária mais leve" se trabalhasse na sua área.

Garante estar "habilitada para exercer psicologia educacional numa escola ou outra instituição, mas o Ministério da Educação não abre vagas" para estes profissionais. Trabalhar por conta própria está fora de questão "porque o material é caríssimo".

"Uma bateria de provas, que utilizamos para fazer um teste de inteligência a uma criança, custa mil e tal euros", exemplificou. Diz que sempre quis ser psicóloga, "mesmo quando ainda nem sabia o que isso era realmente".

Entre o balcão da loja e o atendimento telefónico no call center, Cláudia vai concorrendo a alguns concursos públicos, mas a resposta tem sido sempre a mesma: "não foi seleccionada porque não tem experiência profissional". "Como é que um recém-licenciado tem experiência profissional?".