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PSD joga tudo no Orçamento Rectificativo

Passos Coelho vai atacar o Governo pelo lado da economia e quer obrigar Sócrates a negociar propostas.

Ricardo Jorge Pinto (www.expresso.pt)

Pedro Passos Coelho ainda nem sequer fechou a lista de nomes para a sua equipa mas já tem uma estratégia montada. O novo líder do PSD vai atacar o Governo pelo lado da economia, insistindo num Orçamento Rectificativo e na revisão do Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC).

Nas próximas semanas, o PSD começará a apresentar várias propostas legislativas, obrigando o Governo a negociar perante um novo cenário macroeconómico. O objectivo é encostar o executivo socialista às cordas e forçar a revisão dos documentos estratégicos na área económica. Passos Coelho revela que não tem pressa nem se deixa intimidar pela declaração do primeiro-ministro esta semana: "O Orçamento Rectificativo é uma invenção da oposição".

O novo líder social-democrata só anunciará a sua estratégia durante o Congresso da próxima semana, mas já tomou em mãos muitas das decisões do partido. Foi ele quem ensaiou a prestação de Agostinho Branquinho no debate quinzenal no Parlamento, anteontem, e foram os seus homens quem delinearam a táctica para o chumbo do orçamento da Câmara de Lisboa (ver peça da página ao lado).

Contudo, Pedro está a dar um passo de cada vez, e tenta evitar ratoeiras e dificuldades. Que podem estar em todo o lado. O projecto do governo-sombra, que o Expresso noticiou na passada edição, está a ser travado pelos receios das pessoas que estão a ser convidadas. E o novo líder não quer ver comprometida a sua estratégia de afirmação dentro do partido. Nesta caminhada inicial, ele sabe que pode contar com os apoiantes indefectíveis da campanha que o levou à vitória, como Miguel Relvas ou Marco António. Mas também sabe que vai precisar de abrir o leque dos nomes: para mostrar que está a ser inclusivo e para evitar clivagens no partido.

Mas há sinais que os adversários olham com preocupação. A escolha de Agostinho Branquinho para o debate quinzenal com o primeiro-ministro é lida por Rangel como uma recompensa ao braço-direito de José Pedro Aguiar Branco, pelos "serviços prestados" por esta candidatura à vitória do Passos Coelho. Mas o núcleo-duro do novo líder não responde para já a provocações: Pedro Passos remete-se ao silêncio e mesmo os mais directos apoiantes resistem a comentários, ou simplesmente explicam que só na próxima semana serão tomadas decisões importantes, como a escolha das vice-presidências ou do secretário-geral. Sabe-se que Miguel Relvas não irá para o lugar de secretário-geral, sendo bem mais previsível que fique numa vice-presidência. E desconhece-se até o que ficará reservado para os adversários internos agora derrotados.

Esta semana, Paulo Rangel esteve em período de reflexão, deixando pousar a poeira eleitoral. Não exclui colaborar com a nova direcção, por exemplo na preparação da revisão constitucional, mas confessa que nada mais decidiu sobre a sua vida.

Rangel diz que está a lidar bem com a derrota e tem uma explicação para os 61% de Pedro Passos: "Foi o peso do aparelho, mas houve também muito voto genuíno nele", diz o euro-deputado, salientando que está a fazer um elogio ao novo líder do partido. A sua dúvida está em saber se Passos Coelho conseguirá resistir ao peso do partido, no momento de construir a equipa.

Já Santana Lopes quer acreditar que o novo líder do partido não ficará refém da máquina que lhe garantiu a vitória. "Eu adorava ser convencido por alguém. Espero que Pedro Passos me convença", confessou ao Expresso Santana Lopes, que dá o benefício da dúvida à nova direcção e apenas deseja que o presidente do partido saiba rodear-se das pessoas certas. Esse é o momento crucial: "Se ele sobreviver a esta etapa inicial, ficará por muito tempo no cargo". E esta opinião é partilhada por Paulo Rangel: "Ele tem um espírito determinado e saberá resistir às dificuldades", diz o candidato derrotado.

Num aspecto os militantes parecem estar de acordo: Pedro Passos Coelho terá um estado de graça prolongado. Figuras críticas do estilo do novo líder, e com grande visibilidade mediática, como Pacheco Pereira ou Marcelo Rebelo de Sousa, têm mantido um silêncio que ameaça estender-se no tempo. "Não me parece que ele vá sofrer ataques internos. Essa é uma das vantagens da votação expressiva que conseguiu", reconhece Paulo Rangel.

  • Reunir com deputados, para combinar a eleição da nova direcção da bancada parlamentar. Miguel Macedo é a escolha mais previsível
  • Escolher o secretário-geral, peça fundamental para gerir o partido
  • Encontrar um nome para encabeçar uma lista ao Conselho Nacional, no que se prevê uma eleição muito concorrida
  • Decidir se avançará com um governo sombra e iniciar convites para testar as hipóteses de um futuro órgão composto por ex-líderes do partido

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010