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Professora por paixão, primeira-dama por incidente

Maria Cavaco Silva participou numa aula de português na Universidade de Ancara. Fez rir os alunos e incentivou-os a aprenderem o idioma. Na Turquia, quem fala a língua de Camões tem emprego na certa.

Margarida Mota, enviada à Turquia

Tiago Paixão iniciara a aula de português há escassos segundos quando Maria Cavaco Silva o interrompeu pela primeira vez: "Posso ir para junto de si? Nunca dei uma aula sentada". De seguida, levantou-se do lugar que lhe tinham destinado, perto da secretária do professor, despiu o casaco e não mais parou. Diante de si, cerca de 30 jovens turcos, estudantes de português desde o início do ano lectivo, seguiam-lhe os gestos e tentavam acompanhar-lhe as palavras.

Apesar de falar pausadamente, nem sempre a primeira-dama se fazia entender. Para agarrar a turma, socorria-se então de um inglês perfeito. Com o decorrer da aula, deixou vir ao de cima toda a experiência ganha em cerca de 40 anos a leccionar. Paralelamente, não perdia uma oportunidade para gracejar: "Eu sou professora, mulher do Presidente só por incidente", disse após ser apresentado o seu currículo.

Durante a aula, aproximou-se dos alunos para melhor escutar a sua pronúncia, recitou "De Repente" do poeta turco Orhan Veli e solicitou a um aluno que lesse o mesmo poema em língua turca. Enquanto Cavaco Silva se desdobrava em contactos políticos em Ancara, a primeira-dama esbanjava simpatia na Faculdade de Línguas, História e Geografia da Universidade de Ancara, onde são leccionadas 30 línguas, incluindo o português, desde há três anos.

Tiago Paixão, um lisboeta de 27 anos, licenciado em Línguas e Literaturas Modernas: Estudos Portugueses, é o responsável pelos leitorados do Instituto Camões nas cidades de Ancara e Esmirna. Em declarações ao Expresso, explicou que os seus 45 alunos são estudantes das licenciaturas de espanhol, francês e italiano, que têm no português uma disciplina de opção. Por estarem a aprender línguas latinas, convencem-se de que é mais fácil aprender o português. Mas, segundo Tiago Paixão, há um outro motivo de peso: "A língua é vista como um instrumento de trabalho. Eles sabem que toda a gente que fala português na Turquia - e não estou a exagerar - tem emprego. E um bom emprego! Trabalham para multinacionais, por exemplo, e como tradutores para jogadores de futebol".

À margem da aula, o Instituto Camões e a Universidade de Ancara assinaram um Protocolo de Cooperação com o objectivo de criar de um Minor em Estudos Portugueses e assegurar a manutenção de um Leitorado de Língua e Cultura Portuguesa. Tiago Paixão mostra-se confiante: "Neste momento, só estamos a ensinar Língua Portuguesa. No próximo ano, teremos Cultura e Literatura".