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Presidente da Argentina diz que carne de porco é melhor do que Viagra

Tomando distância das crises institucional e agropecuária do país e ao melhor estilo do venezuelano Hugo Chávez para fintar os problemas de consumo, Cristina Kirchner diz que "carne suína é melhor do que Viagra".

Márcio Resende, correspondente na Argentina (www.expresso.pt)

Uma crise institucional desgasta o Governo argentino há três semanas. A Presidente Cristina Kirchner demitiu por decreto o representante do Banco Central, que não aceitou a demissão por não respeitar a autonomia da instituição e apelou à Justiça. Conseguiu sobreviver até que o Congresso se manifeste. Enquanto isso, não há um presidente formal no Banco.

Uma onda de calor leva a Argentina a atingir novos recordes históricos no consumo de energia, pondo à prova um sistema que trabalha próximo do limite e provoca o corte de energia em algumas regiões. A crise energética que espreita desde 2004 só não provoca o colapso porque, com o país em recessão, as industrias consomem menos.

O produto argentino mais famoso no mundo, a carne, aumenta de preço nas prateleiras em torno de 20% todos os meses. O aumento é o resultado de uma política que torna a produção inviável há anos. Preços controlados internamente, distantes da galopante inflação real (próxima de 20% ao ano), e restrições às exportações. Ou os argentinos reduzem o consumo de carne bovina neste ano de (72 a 60 Kg em média por pessoa) ou a Argentina terá de importar carne, algo insólito para o orgulho nacional.

Perante este quadro, a Presidente Cristina Kirchner veio a terreiro para incentivar a produção da carne de porco e de frango mas servindo-se de invulgares discursos. Uma forma, desconfia-se, de elevar o seu medíocre índice de popularidade, que não supera os 20%, segundo as sondagens.

Virtudes afrodisíacas do porco

Primeiro, Cristina Kirchner elogiou as supostas virtudes afrodisíacas do porco. Disse que o impacto positivo da carne de porco na vida sexual é mais gratificante do que tomar Viagra.

"Comer carne de porco melhora a atividade sexual. Eu acho que é muito mais gratificante comer um porco grelhado do que tomar Viagra", afirmou a Presidente num discurso na Casa Rosada para empresários do sector.

Depois, completou assumindo-se como uma "fanática" da carne de porco, o que provocou raciocínios em duplo sentido. E para confirmar a polémica teoria contou uma intimidade do casal presidencial.

"Quando eu voltar para Olivos (residência presidencial), (Nestor) Kirchner vai matar-me", antecipou antes da íntima confissão.

Cristina Kirchner revelou que recentemente comeu carne de porco "com pele crocante como biscoito", juntamente com o marido, o ex-Presidente e actual deputado Nestor Kirchner, e o resultado foi um fim-de-semana no qual tudo funcionou.

"Tudo saiu muito bem. Então, pode ser que tenham razão (que o porco seja afrodisíaco). A carne de porco melhora a atividade sexual. Comprovar não custa nada", incentivou Cristina Kirchner.

Fiel ao seu estilo didático, Cristina ainda ensinou que a gordura da carne suína é menos nociva do que a da carne bovina.

Frangos e abutres

Quando a polémica já estava instalada, Cristina Kirchner voltou a defender o consumo de outra carne, desta vez de frango. Explicou que o frango não tem a mesma propriedade afrodisíaca do porco, mas que é bom para emagrecer. E para quem já está magro, "comer frango pode fazer voar com os seus sonhos, como frangos".

"Ontem falei sobre os porquinhos. Hoje venho falar sobre os franguinhos", iniciou.

O Governo argentino quer usar as reservas do Banco Central para pagar dívidas; algo a que o "suspendido" presidente da instituição financeira se opõe. Cristina Kirchner quer usar as reservas do banco para mostrar que a Argentina tem como honrar as suas dívidas. A oposição e os analistas económicos advertem que esse é um atalho perigoso para o país retornar ao mercado internacional de crédito, do qual está fora desde 2001, quando declarou a maior moratória de dívida pública da História.

Para Cristina Kirchner, os credores da dívida argentina são como abutres. E fez uma analogia pouco clara entre frangos e abutres, ampliando as suas referências ao reino animal.

"Quero referir-me a um animalzinho não tão bonito como o abutre, esse pássaro negro e feio que sobrevoa sobre as desgraças", disse em alusão aos credores. "Temos de voar os nossos sonhos. Temos que voar como frangos. Voemos como frangos. Comamos frango e porco", comparou.

Bom humor ou estratégia?

Os discursos de Cristina Kirchner são conhecidos por um marcado estilo didático e erudito com um tom de arrogância e de raiva. Desde que assumiu o poder há dois anos, Cristina convive com escândalos e crises. E cada discurso que dá para tentar reverter a situação, a forma termina por agravar a crise.

O novo estilo mais relaxado de conselheira sexual e nutricionista, desconfiam os analistas, busca passar uma imagem mais simpática de olho nas sondagens, que não a permitem superar o tecto de 20% em popularidade.

"É possível pedir a alguém que seja cortês, mas não é possível pedir que seja simpático. Cristina Kirchner parece ter entrado nesses períodos de insegurança que provocam mudanças de estilo. Agora quer ser didática e divertida, duas qualidades que rara vez convivem. Ou quer ser pedante e agradável, algo que nunca ocorreu de forma uníssona na história da Humanidade. O repentismo e a graça são espontâneas bendições que ela não possui", avalia a prestigiosa socióloga e analista política Beatriz Sarlo.

E completa: "Ela simplesmente não percebe que as suas palavras soam disparatadas. Preferimos a Cristina Kirchner pedante e sarcástica à ridícula por uma só razão: é a Presidente".