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Portugal exporta pulmões para Espanha

O transplante pulmonar apenas é feito no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. Os especialistas são poucos para o procedimento cirúrgico de todos os órgãos disponíveis. O que sobra é 'oferecido'. (Veja ilustração no fim do texto)

Vera Lúcia Arreigoso (texto) e Miguel Seixas (ilustração)

Em teoria, todos têm direito à vida. Na prática, se estar vivo depender da dádiva de um órgão, só sobrevive quem os médicos escolherem. "Não damos um carro novo a quem se vai despistar na primeira curva", ironiza o director do Centro de Cirurgia Cardiotorácica dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), Manuel Antunes. O cirurgião está a preparar aquele que será o segundo centro de transplante pulmonar no país, até hoje só realizado no Hospital de Santa Marta, em Lisboa. No ano passado, a estatística ficou nos quatro transplantes dos "25 a 30 anuais que se estima serem necessários em Portugal", admite o director do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica daquele hospital lisboeta, José Fragata.

"Temos condições para fazer mais, mas faltam-nos pessoas e coordenação. Estou a emprestar o meu nome ao transplante pulmonar por uma questão patriótica e tenho estado a treinar uma equipa cirúrgica", acrescenta. Contudo, a expansão tem sido lenta. "Os médicos puxam cada um para o seu lado", critica o director da Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação, João Pena. "É preciso criar equipas dinâmicas capazes de fazer, pelo menos, 15 transplantes de pulmão por ano", diz. Ora, a manifestação de vontade dos HUC e a preparação da estrutura necessária foram a 'luz-verde' para avançar, até porque a colheita de pulmões, pelo menos no ano passado, foi generosa, e tratando-se de 'salva-vidas' foram oferecidos a Espanha.

Líder mundial na actividade de colheita e de transplantação de órgãos, Espanha usou a dádiva para fazer 16 transplantes pulmonares, oito dos quais em doentes portugueses que estavam em lista de espera. "A oferta dos pulmões funcionou como um salvo-conduto, permitindo que fosse autorizada a inscrição de portugueses em unidades espanholas para transplante de órgãos não colhidos por nós", explica a coordenadora nacional das Unidades de Colheita, Maria João Aguiar. "Foi feito um acordo de colaboração para as situações de emergência: o primeiro órgão encontrado é entregue ao país que mais precisa, e este ano já tivemos dois casos, com hepatite fulminante em que foi necessário encontrar um fígado em 24 horas", acrescenta a anestesista de transplante hepático. A comunidade médica dedicada à transplantação está confiante nesta parceria e até já importou um dos grandes segredos do sucesso espanhol - a organização.

Falta de órgãos mata 10 europeus por dia

"Em Portugal não há escassez de órgãos, o problema está nas hierarquias, nas equipas, na coordenação", explica o responsável de Santa Marta. Consequências? "Perdem-se muitos dadores porque as Unidades de Cuidados Intensivos não estão sensibilizadas. Por isso, no início do ano, criou-se a figura do coordenador", salienta o presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação (SPT), António Morais Sarmento. Já estão nomeados 43 médicos, em 37 centros hospitalares, e a sua missão é identificar que doentes nos Cuidados Intensivos são potenciais dadores. A informação é depois transmitida ao respectivo Gabinete de Coordenação de Colheita de Órgãos e Transplantação - nos hospitais de São João e Santo António, no Porto; HUC, em Coimbra, e São José e Santa Maria, em Lisboa.

"A última coisa que se pretende é que um órgão vá para o balde", salienta a responsável nacional, Maria João Aguiar. A anestesista reconhece que há menos desperdício, contudo falta dar um passo de gigante: "Estamos a lutar para recolher órgãos em doentes com paragem cardio-respiratória, como se faz em toda a Europa. Aliás, os serviços de emergência espanhóis fazem-no há 16 anos". E aqui, o papel principal é do INEM. "A vítima, por exemplo, de um AVC gravíssimo é mantida com manobras de reanimação. Os médicos no hospital confirmam a paragem cardio-respiratória, esperam cinco a dez minutos, retomam a massagem, levam a pessoa para o bloco e fazem a colheita", simplifica. O procedimento só ainda não é feito porque, mais uma vez, faltam equipas bem preparadas. "É preciso investir pouco dinheiro e muita organização", resume Maria João Aguiar.

Também é necessário mudar mentalidades. Em Portugal só não é dador quem estiver inscrito no Registo Nacional de Não Dadores - com 38.148 nomes - , mas muitos familiares contestam a recolha de órgãos dos seus entes. Nestes casos, "é preciso explicar que se morre quando o cérebro deixa de funcionar e não apenas quando o coração pára. As pessoas ficam como flores que se cortam e colocam numa jarra, parecem vivas mas não estão", afirma a médica. "A nossa lei é muito liberal mas as coisas não são como seria de esperar. Metade dos transplantes nos países nórdicos são de dadores vivos e nos povos ibéricos são de cadáveres, porque as pessoas não têm informação e há medo", afirma o presidente da SPT. António Morais Sarmento diz mesmo: "Luta-se mais pelo lince da Malcata do que pela dádiva de órgãos". Ainda assim, no início do ano foi dado outro passo. Passou a ser permitido que não aparentados, como marido e mulher, sejam dadores vivos entre si.

1 Os familiares do doente internado na Unidade de Cuidados Intensivos são informados de que o parente está em morte cerebral e há a hipótese de ser dador de órgãos

2 Seis horas após o diagnóstico, um neurologista, intensivista ou anestesista confirmam a morte cerebral com um exame de estímulos. Em caso de dúvida, recorre-se, por exemplo, à angiografia cerebral, injectando um contraste - que num cérebro morto não vai além das veias do pescoço

3 O ventilador é desligado e o doente levado para o bloco operatório. Como em qualquer cirurgia, a extracção dos órgãos é feita com o coração a bater

  • Situações de vida ou morte e crianças
  • Ausência de condições biológicas para viver com dignidade
  • Doentes não dependentes de drogas ou álcool e sem doenças infecciosas ou oncológicas
  • Nos limites de idade aceitáveis: 60/65 para coração, 55/60 para pulmão, 60/70 para outros órgãos, como rim e fígado
  • Existência de condições socioeconómicas e apoio familiar

19.284

portugueses foram submetidos a transplantes até ao final do ano passado. O rim é o órgão que há mais tempo é utilizado pelos médicos, desde 1980, e que beneficiou o maior número de doentes, 7612 até 2007. Córneas (5212), medula (3649) e fígado (2299) são os restantes líderes da transplantação. Ao invés, o coração (419) e o pulmão (18) são os menos transplantados.

252

é o número de dadores cadáver em 2007, mais 52 do que em 2006. Os hospitais de São José e da Universidade de Coimbra lideram a lista. A maioria (58%) dos doentes morreu devido a causas médicas e os restantes (42%) por traumas, como acidentes rodoviários. A idade média dos dadores foi de 47 anos e tem sido possível retirar três órgãos diferentes por dador.

Estado pagou €38 milhões em incentivos

Transplantar um órgão é uma tarefa muito complexa, sem dia nem hora marcados e o Estado premeia quem a executa. Em 2007, transferiu directamente para os hospitais com gabinetes ou centros de transplantação incentivos superiores a €38 milhões.

Do total, 40% foi atribuído à transplantação hepática (de fígado), com os hospitais Curry Cabral, em Lisboa; Santo António, no Porto, e da Universidade de Coimbra a receberem a totalidade da verba.

A medula foi premiada com 34% da oferta, assumindo uma posição de destaque os IPO do Porto e de Lisboa por terem realizado a maior parte das intervenções. Não há regras de distribuição e cada hospital distribui o prémio como quer, mas quase sempre guarda a maior parte para si. As equipas de transplantes dividem o que sobra e que em certos casos são pequenas fortunas.

Dadores mais velhos dificultam dádivas para crianças

'Nos últimos anos em Portugal não morreu nenhuma criança em lista de espera para transplante como aconteceu noutros países'. A garantia é dada pelo único cirurgião hepático pediátrico no país, o médico dos Hospitais da Universidade de Coimbra Emanuel Furtado. A estatística é dourada, contudo, tem um senão - a captação de órgãos aumentou, mas trouxe dificuldades novas. 'São dadores com idades cada vez mais avançadas e muitas vezes com patologias associadas e isso desfavorece as crianças'.

O transplante de rim e de fígado em idade pediátrica, até aos 14 anos, é pouco comum e nos HUC, pioneiros há 14 anos, a média de intervenções não vai além de 12 por ano e de 154 no total. 'Daí ser difícil abrir outro centro no país. O número de casos é muito baixo para permitir treinar e garantir a qualidade dos transplantes'. Ainda assim, Emanuel Furtado está há um ano a tentar envolver outros médicos, 'mas com o ritmo actual só estarão formados daqui a muitos anos'. A solução, diz, 'está no empenho das instituições para que os actuais e os novos profissionais na transplantação possam ter formação nos grandes centros internacionais', com custos elevados.

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de Outubro de 2008