Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Polícias para alugar

A podridão instalou-se tão profundamente que uma verdadeira reforma da polícia russa significaria a reforma do poder estatal, diz Sergei Kanev, repórter de crime na «Novaya Gazeta»

Yuri Kochetkov/EPA

Corrupção. Muitos agentes russos têm negócios paralelos: cobram investigações e vendem bases de dados confidenciais.

Exclusivo Expresso/The Economist

Eles alvejam civis, espancam-nos e torturam-nos, confiscam empresas e fazem reféns. Dois terços do país temem-nos e não confiam neles. Mas não são ocupantes estrangeiros, mercenários nem mafiosos; são os agentes da polícia russa. Os poucos agentes decentes são vistos como heróis, indivíduos excepcionais ou dissidentes.

As notícias diárias de violência policial parecem boletins de guerra. Entre os casos recentes encontram-se o tiroteio acidental de um agente da polícia num supermercado de Moscovo (sete feridos, dois mortos), a tortura pavorosa e morte de um jornalista em Tomsk e o caso de Sergei Magnitsky, um jovem advogado de um fundo de investimento americano. Foi-lhe negada assistência médica e morreu quando estava em prisão preventiva em Moscovo, depois de acusar de fraude diversos agentes da polícia.

A violência policial não é novidade na Rússia, mas já o é a sua divulgação. Uma explicação simples é que o terrorismo policial esgotou a paciência das pessoas e a fúria contida rebentou finalmente nos jornais, websites e até na televisão estatal. A Internet torna mais difícil abafar os escândalos. No princípio deste mês, um motorista de Moscovo colocou um vídeo online alegando que ele e outros condutores foram utilizados como escudos humanos pela polícia de trânsito quando tentava apanhar um criminoso armado.

Dmitri Medvedev, o Presidente da Rússia e homem atento à Internet, apressou-se a reagir. Despediu o chefe da polícia de Moscovo, ordenou uma reorganização do obscuro sistema de gulags da Rússia e exigiu uma reforma do ministério do Interior. Porém, esta reforma envolve a redução de 20% dos efectivos policiais e um controlo centralizado da polícia regional.

Os agentes comuns, muitos dos quais não gostam do seu trabalho, parecem escandalizados e furiosos - não devido às acusações de violência, que quase ninguém contesta, mas pela hipocrisia dos seus chefes, que os transformaram em bodes expiatórios. Alguns começaram a revelar segredos sobre os seus superiores.

A podridão instalou-se tão profundamente que uma verdadeira reforma da polícia russa significaria a reforma do poder estatal, diz Sergei Kanev, repórter do crime na "Novaya Gazeta".

A função principal dos organismos responsáveis pela manutenção da ordem na Rússia não é defender os cidadãos do crime e da corrupção, mas sim defender a burocracia, incluindo eles próprios, dos cidadãos.

Para garantir a fidelidade dos serviços policiais e de segurança, o sistema permite que estes ganhem dinheiro com a sua licença de porte de arma. Escoltas policiais podem ser oficialmente compradas. Outras actividades lucrativas incluem a cobrança de uma boa investigação, extorsão, venda de bases de dados confidenciais, escutas telefónicas e pirataria de empresas por conta de concorrentes. Muitos agentes têm o seu próprio negócio paralelo. Não surpreende que os lugares de topo na polícia sejam um bem valioso e transaccionado. A maioria dos novos recrutas alista-se para ganhar dinheiro, de acordo com questionários internos.

Tal como escreveu Mikhail Khodorkovsky, um homem de negócios que está a cumprir uma pena de oito anos de prisão com base em acusações forjadas, a polícia, o Ministério Público e os serviços prisionais são partes integrantes de uma indústria cuja actividade é a violência legitimada e que explora as pessoas como matéria-prima.

Contudo, ao mesmo tempo que milhares de homens de negócios perdem o seu sustento ou cumprem penas por acusações forjadas, os burocratas culpados de crimes reais escapam com penas leves. Há poucos dias, um agente da polícia que assassinou um jornalista independente na Inguchétia foi posto em prisão domiciliária depois do tribunal decidir que a pena de dois anos numa colónia penal era demasiado dura. Sete fusos horários para Leste, um funcionário da alfândega culpado de contrabando foi condenado a três anos de pena suspensa.

No fundo, a polícia é um instrumento nas mãos de uma instituição mais poderosa: o Serviço Federal de Segurança (FSB), sucessor do KGB, que permanece fora do controlo público e acima de todas as críticas.

A polícia russa não só é chefiada por um antigo operacional do FSB como está atulhada da sua gente, diz Vladimir Pastukhov do Instituto Russo do Direito e da Política Pública, um grupo de reflexão.

O FSB pode envolver-se em qualquer actividade mas confia na polícia para fazer o trabalho de campo. Não é possível uma reforma da polícia se os chefes não forem incomodados.

O FSB, dividido entre várias facções com interesses próprios, tem um quase monopólio sobre as funções repressivas do Estado. Mais preocupante ainda, confia nos seus laços tradicionais com o crime organizado. Kanev, que investigou alguns dos sequestros mais notórios de empresários ricos e seus familiares, diz que poucos poderiam ter acontecido sem o conhecimento e até mesmo conivência de elementos antigos e actuais dos serviços de segurança.

O sequestro como meio de obter lucros - anteriormente uma prerrogativa da Tchetchénia - é agora um grande negócio em Moscovo. Muitos casos, diz Kanev, nunca são divulgados; em vez disso, a vítima paga discretamente. Isto é o que fazem as pessoas em territórios ocupados.

© 2010 The Economist Newspaper Limited. Todos os direitos reservados. Em "The Economist", traduzido por Aida Macedo para Impresa Publishing, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com