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Os últimos dias na Fuseta

Páscoa foi diferente na ilha da Fuseta. O que o mar poupou começa a ir abaixo este mês.

Carla Tomás (www.expresso.pt)

Um cenário de guerra abateu-se sobre a ilha da Fuseta, no Algarve. Em vez de rockets foram ondas de seis metros e um mar enfurecido que levaram as casas. As que o mar não roubou foram pilhadas até ao esqueleto. Espalhados pelas dunas jazem agora pedaços de janelas, portas, azulejos, móveis, louça, electrodomésticos, roupas e brinquedos.

Margarida Santana, ribatejana de nascimento, mas algarvia de coração, abana a cabeça como quem não quer acreditar no que vê. Há perto de meio século, o pai ergueu aqui um segundo 'lar' onde juntavam a família e os amigos sempre que podiam. Agora, metade da casa está pendurada na duna. E o marido de Margarida saiu de lá com um braço partido. No exacto momento em que entrou na casa para ver os estragos e retirar alguns bens, esta tombou. Com as notícias de que as autoridades iriam avançar com as demolições, os vândalos retiraram o resto: "Depenaram tudo e até arrancaram as forras de alumínio", lamenta Margarida com um misto de raiva e de tristeza.

O vizinho Carlos Madeira zarpou para a ilha para recuperar o que era seu. Antes que lhe fizessem o mesmo que à vizinha, mandou retirar tudo, incluindo as forras em PVC da estrutura, o segundo telhado e as janelas de alumínio. O comerciante comprara a casa na ilha há seis anos por 20 mil euros. Apesar de construída em domínio público marítimo, "tinha caderneta predial e memória descritiva registada desde 1963", esclarece. Custa-lhe que a casa vá abaixo mas percebe que "tem de ser". Esta Páscoa já ninguém passará férias na ilha.

A maioria das construções nasceu no pós-25 de Abril. Com os anos, chegou o reforço de alumínio, o fibrocimento e a luz de painéis solares. Eram erguidas do dia para a noite como legos para que as autoridades não as pudessem embargar. Este Inverno desfizeram-se num ápice. A força das águas da lua nova e da lua cheia de Fevereiro abriu uma nova barra no meio da 'aldeia' clandestina. Das 77 casas ficaram 24. Não por muito mais tempo. Um edital publicado na semana passada intima os proprietários a retirar todos os bens e a largar as casas até 23 de Abril. Depois as máquinas avançam.

A natureza deu uma mão ao Ministério do Ambiente, que tutela o Polis da Ria Formosa, e avançou com as primeiras demolições, reduzindo a factura do trabalho que se segue. E este não será fácil. Com o cais destruído e a ria assoreada, será complicado transportar a maquinaria pesada para a ilha e retirar as toneladas de escombros e outros resíduos espalhados pelas dunas ou submersos na ria e no mar, admite Carlos Silva Reis, um dos empreiteiros que o Expresso encontrou no local, há 12 dias, a fazer as contas para apresentar uma proposta no concurso público aberto pela Polis.

Época balnear garantida

A presidente da Sociedade Polis da Ria Formosa, Valentina Calixto, estima que os trabalhos de demolição e remoção de entulho não se alonguem mais de 45 dias e de €900 mil (o que corresponde a perto de um por cento do valor total da intervenção na área). E garante que "existirão as condições mínimas para a época balnear começar a 1 de Julho", na ilha da Fuseta. Porém, só em Setembro é que avançam com a requalificação da ilha e o reforço do cordão dunar.

A vida não está fácil para quem vive da ria. A intempérie poupou, para já, as duas mil bancadas de ostricultura de Francisco Gomes. A mesma sorte não teve o viveiro do vizinho em frente da nova barra. Quem vive do transporte de turistas sente um aperto. É o caso de Ricardo Badalo, 24 anos, que teme os atrasos das obras. Licenciado em Arquitectura, optou pela vida de aquataxista e os próximos tempos não serão ricos em clientes.

As demolições e a requalificação das outras ilhas e ilhotas só devem avançar no próximo ano (ver infografia), já que só em Setembro estarão concluídos os estudos e os planos de intervenção. Para já, ninguém arrisca dizer quantas casas no total irão abaixo, nem quantas estão de facto em zona de risco.

Carlos Madeira diz que põe "as mãos no fogo, pés e tudo, que não vão mexer em 30% do que se propõem", nas outras ilhas. "Já levam muitos anos dizendo isso (demolições)" e por isso a mariscadora Clara Buchinho prefere continuar a não acreditar. Os núcleos piscatórios da Culatra e da Praia de Faro são os mais sensíveis. Um possível realojamento fora da ilha levanta problemas. Como lembra Sílvia Padinha, representante dos moradores da Culatra: "O pescador não pode viver em Olhão. A ria é o seu posto de trabalho. É aqui que tem o barco, as redes, e o horário das marés não se compadece com outra habitação".

"Há uma tendência de as ilhas-barreira migrarem em direcção ao continente, podendo entrar na planície litoral baixa e reduzindo a área lagunar", explica o geólogo Óscar Ferreira. O professor da Universidade do Algarve esclarece que por vezes na mesma ilha existem fenómenos de erosão e de acumulação de areias, como é visível na Culatra, com um areal de três quilómetros a leste e quase sem areia do lado do Farol.

O Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) vai elaborar um plano de valorização hidrodinâmica da Ria Formosa que prevê "a recarga dos sistemas dunares para que as ilhas barreira mantenham a sua função de protecção da ocupação continental e se garanta a actividade económica da ria e os valores ambientais ali existentes", esclarece Valentina Calixto, que preside ao Polis da Ria Formosa.

"A duna é imprescindível para a segurança da cidade de Faro e do aeroporto e não podemos pôr isso em risco", afirma o presidente da Câmara de Faro, Macário Correia.

150 mil euros é quanto pode custar uma casa na Armona, "a ilha mais legal dentro da ilegalidade", como diz um morador. O núcleo urbano foi concessionado à Câmara de Olhão por 30 anos e todos pagam taxas municipais.

600 famílias, na sua maioria ligadas à pesca, vivem no núcleo da Culatra, nunca desafectado do domínio público marítimo. Tem uma igreja, uma escola, um infantário e um centro de saúde. A água canalizada da rede pública chegou a 150 lares há três meses. Proliferam os anexos e os primeiros andares. "As casas crescem como as famílias", justifica Sílvia Padinha, que preside à associação de moradores.

248 casas ilegais em zona de risco serão demolidas na Praia de Faro em 2011. Mas quem ali vive não quer mudar, mesmo com as ondas a passarem por cima do telhado, como aconteceu no início de Março.

Texto publicado na edição do Expresso de 2 de Abril de 2010