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Olhos nos olhos, sobre o Dia de Salário

O coronel Vasco Lourenço escreveu no blogue da Associação 25 de Abril um comentário às acusações que lhe foram feitas pelo também coronel Costa Martins no site do Expresso. Com a devida vénia, publica-se a seguir o texto, na íntegra, de Vasco Lourenço. O título e os subtítulos são da responsabilidade do Expresso.

Os comentários à minha conversa com o Otelo, no RCP, vieram em certa medida justificar a minha atitude, em não querer escalpelizar o 25 de Novembro e tudo o que o rodeou.

Com efeito, ficando claro que houve posições antagónicas, pelo menos quanto aos processos, que não quanto aos ideais, conseguimos evitar a reabertura de feridas que poderiam pôr em causa a nossa actual caminhada em conjunto, regressados que somos à defesa do essencial que nos une. Isto, porque a barreira que nos separa dos outros, dos anti-valores de Abril, nos voltou a colocar do mesmo lado dessa dita barreira e é assim, caminhando juntos, que queremos continuar. Sabe-se lá se apenas até que nova barreira se erga, quando, porventura, se estreitem as soluções, se estreitem os objectivos e se exijam novas e mais apertadas definições.

Como referi nessa conversa, não renego as opções que tomei, considero que a evolução dos tempos me deu razão e não será pelos resultados obtidos que irei alterar esse meu pensamento.

Não é possível fazer prova de como teria sido se, mas é possível olhar para situações semelhantes, para vislumbrar o que poderia ter acontecido se. No entanto, se na minha perspectiva esse exercício de hipóteses me dá razão, tenho de admitir que outros continuem a pensar de forma diferente.

São maneiras de estar no mundo, aceito que o meu conceito de revolucionário não seja o mais correcto - tudo depende, porventura, do dicionário que cada um utilize -, mas eu sou mesmo assim. Por mais que me apeteça ser totalmente livre na crítica, nas utopias, nos sonhos - diga-se, de passagem, que adoro a Pedra Filosofal do Gedeão -, não consigo deixar de dar importância ao que poderemos chamar de politicamente correcto. Talvez porque, em certa medida, também exerci o poder, sei que nem sempre é possível fazer aquilo que o nosso coração nos impele a fazer. E, se há coisa com que esteja em desacordo, é a atitude dos que defendem soluções utópicas, apenas porque sabem que nunca estarão no poder. Até porque a experiência histórica da humanidade nos mostra que, nas poucas vezes em que esses alcançam o poder, rapidamente esquecem as utopias, os sonhos, tudo o que prometeram. E, muitas vezes, são bem piores do que aqueles que criticavam...

"O meu passado fala por mim"

Voltando, no entanto, à actual situação, a grande maioria de nós está, novamente, do mesmo lado da barreira.

Por isso, me foi extremamente agradável ver algumas posições, que embora fazendo críticas, com que não concordo, mas que até compreendo, manifestam essa mesma posição. Nomeadamente a do Diamantino Gertrudes da Silva, do Duran Clemente e do Andrade da Silva.

Também eu tenho muito gosto em continuar na companhia desses camaradas e amigos, não aceitando que qualquer de nós faça favor a outro, para que isso aconteça.

É isso que os que se agregam e mantêm na Associação 25 de Abril têm perseguido e conseguido. Todos sabemos que cada um de nós não é igual a cada um de nós, mas sabemos que temos valores essenciais que nos uniram e que permitiram, depois de divisões - por vezes bem fortes - que nos voltássemos a unir.

E, aqui, seja-me permitido algum orgulho, até porque não sou homem de falsas humildades: considero-me, em grande parte, responsável por isso, pelo lugar e pelo papel que tenho desempenhado na nossa Associação. Penso que o meu passado fala por mim.

Para que isso possa continuar, para que possamos manter a caminhada conjunta, impõe-se usar de lealdade, de frontalidade e de verdade.

É por isso que me dispus a comentar a posição pública que o Costa Martins, mais uma vez, assumiu, atacando-me e procurando denegrir a minha imagem e o meu nome.

Porque já não é a primeira vez que isto acontece, porque já uma vez lhe respondi publicamente, dizendo da minha verdade, porque considero que o seu posicionamento e o meu, o seu passado e o meu, a sua credibilidade e a minha, me são favoráveis e não necessitava de voltar a dar-lhe resposta, pensei em deixá-lo a falar sozinho.

Contudo, algumas reacções de amigos com quem quero continuar do mesmo lado da barreira, levam-me a repetir o que já disse há algum tempo. Não será um ressarcimento, porque considero que o não devo a ninguém.

"Quando vi a entrevista à Eugénia Neto, pensei: isto vai sobrar para mim"

Contribuirá para tornar ainda mais longo este texto, nada próprio de um blogue, mas confio em que tenham a paciência de o ler até ao fim e, depois, façam o vosso juízo de valor.

Seja-me permitido um último desabafo, antes de recordar a história: nunca exigi a um amigo que não seja amigo de alguém com quem esteja desavindo, que seja até meu inimigo. Nunca coloquei um amigo entre a espada e a parede, exigindo-lhe que escolhesse entre mim e qualquer outra pessoa, mas também nunca aceitei de um amigo que, ouvindo críticas a meu respeito, tomasse a posição de as aceitar, sem se esclarecer comigo. Por mim, procuro proceder dessa maneira. Penso que tenho o direito de exigir, a quem se considera meu amigo, o mesmo procedimento.

Já vou longo.

Quando vi a resposta do Costa Martins à Eugénia Neto, dei por mim a pensar: está aqui, está a sobrar para mim. Não tarda nada, o atacado sou eu!

Porquê? Apenas porque, não sei porquê, o Costa Martins me elegeu, de há muito, como um dos seus "inimigos de estimação", como um dos alvos a que, por tudo e por nada, utiliza para treinar o tiro.

Afirma o Costa Martins que "a cabala do Dia do Salário foi iniciada na preparação do golpe do 25 de Novembro com a publicação, pelo jornal República, no dia 20.11.1975, de uma entrevista do Vasco Lourenço..."

Bem, fui à procura dessa entrevista, que junto em anexo a este texto, onde se pode ler que nessa entrevista, entre outras coisas, respondo à pergunta do jornalista sobre o que constava da eminente substituição do ministro do Trabalho, Tomás Rosa, bem como do secretário de Estado, Marcelo Curto, para dar satisfação às pressões do PCP. Nessa resposta, afirmo a certa altura que o problema estaria na decisão do referido ministro em ter mandado fazer uma sindicância ao anterior ministro do Trabalho, pois havia acusações graves que era imperioso esclarecer. Ao pedido de esclarecimento, referi que essas acusações tinham a ver "com o que feito dos 300 mil contos do Dia Nacional do Trabalho". Acrescentando que "as dúvidas se levantaram e, sem se fazer sindicância, não quero estar a fazer acusações". Rematando "não sei se há razão para elas. Mas há que saber o que aconteceu, há que tirar as dúvidas."

Recuando a esse dia é imperioso esclarecer: as acusações já eram públicas, a sindicância fora ordenada e também era pública, não estava a dar nenhuma novidade. E a verba referida era a que os responsáveis, à data da jornada do "Dia do Trabalhador", então tinham tornado pública.

"Costa Martins mente de forma despudorada"

Afirma o Costa Martins que me confrontou, no dia 25 de Novembro de 75, na Presidência da República com a "chocante entrevista, e não me contive, mas, quando me preparava para o agarrar pelos colarinhos, desculpou-se dizendo-me que não tinha dado entrevista nenhuma, que tudo aquilo fora invenção dos jornalistas e que ia fazer um desmentido no dia seguinte".

Acrescenta que "acreditei, presumindo que a sua palavra deveria ser condizente com a responsabilidade que as estrelas que exibia nos ombros e o cargo em que fora investido lhe impunham. Deixei-o e fui ter com o Presidente da República (...)"

Remata, "Vasco Lourenço nunca viria a fazer qualquer desmentido, nem no dia seguinte, nem depois, nem sequer na sequência das cartas registadas que lhe enviei, assim faltando vergonhosamente à sua palavra. Vim mais tarde a constatar que agira de conluio com o Tomás Rosa, então ministro do Trabalho, e com a cumplicidade do então "general" e chefe de Estado-Maior da Força Aérea Morais Silva."

Sobre isto, quero afirmar peremptoriamente que Costa Martins continua a mentir de forma despudorada.

No dia 25 de Novembro, Costa Martins foi chamado à PR por Costa Gomes, que o recebeu e falou com ele, comunicando-nos que o encarregara de convencer os pára-quedistas a acabar com a insubordinação. Acabou por sair da PR e não dar cavaco a ninguém, nem a Costa Gomes... Nunca mais "ninguém" lhe pôs a vista em cima, até se saber que estava em Angola.

Não vi Costa Martins na PR, não estive com ele, não tivemos qualquer discussão e, quem me conhece, certamente que se ri com a afirmação de Costa Martins de que se preparava para me agarrar os colarinhos e eu me acobardei e desculpei, blá, blá, blá, blá.

Confesso que ainda não recuperei, ainda estou a tremer de medo!...

Costa Martins mente, descarada e despudoradamente, como já o fez mais vezes, nomeadamente quando negou alguma vez se ter oferecido, a seguir ao 11 de Março de 1975, quando se discutia a necessidade de substituir Mendes Dias, para acumular a pasta do Trabalho com a chefia do Estado Maior da Força Aérea. Lugar que foi ocupado por Morais Silva, que ele agora diz ter sido meu cúmplice na "campanha" contra ele.

E, caro Duran Clemente, mesmo que uma mentira seja repetida e mantida por muitas vezes, não deixa de ser mentira.

Tudo aquilo que ouvimos não é, forçosamente, verdade. Principalmente, se vier de quem não merece credibilidade...

"Se o fuzilassem, cortávamos relações com Angola"

Mais tarde, passados dois anos, voltaram a perguntar-me noutra entrevista o que se passara com o dinheiro do Dia do salário e eu respondi, lamentando que as acusações contra Costa Martins continuassem, não se tendo tirado conclusões do inquérito que se mandara fazer sobre o assunto. E afirmando que, para bem do próprio, era essencial que se concluísse o inquérito.

Por isso, quando recebi uma carta de Costa Martins, vinda de Angola (ou Moçambique, já não me recordo) a exigir que eu me retratasse, fiz-lhe chegar a minha posição de que não tinha nada que me retratar, pois eu apenas afirmara que era necessário esclarecer como fora aplicado o dinheiro, a fim de terminar com os boatos e as acusações que lhe faziam. Ou sim, ou sopas.

Entretanto, Costa Martins envolve-se ou vê-se envolvido - não tenho dados que me permitam tomar posição - no "Golpe Nito Alves", em Angola.

Passado algum tempo, Melo Antunes procura-me e diz-me: "O Costa Martins foi condenado à morte, vai ser fuzilado. Temos de fazer tudo, para o evitar!"

Concordo com ele e combinamos jogar tudo o que estivesse ao nosso alcance para esse objectivo. Melo Antunes diz-me que o Eanes, o Rosa Coutinho, ele próprio já estavam a fazer os possíveis, mas que eu tinha de intervir.

Combinámos assumir a posição de que se o fuzilassem, estariam a fuzilar um de nós!

Fui falar com o embaixador de Angola, o velho Sebastião, a quem expus a situação e a quem pedi que transmitisse essa nossa posição ao Presidente Agostinho Neto.

O velho combatente do MPLA olhou-me e diz, espantado, "mas, oh senhor general, mas o Costa Martins não é um dos vossos! Vocês dividiram-se!"

Lembro-me de lhe dizer, com tom firme e decidido" Senhor embaixador, isso são problemas nossos. O que lhe digo e peço transmita ao Presidente Agostinho Neto é isto: se fuzilarem o Costa Martins, estão a fuzilar um de nós. E nós tiraremos daí todas as ilações, nomeadamente, cortaremos relações com Angola! O MFA não admitirá isso! Estou a falar-lhe muito a sério!"

Não tive dúvidas que o embaixador cumpriu o que me prometeu e contactou, imediata e pessoalmente, Agostinho Neto dando-lhe conhecimento da minha posição.

Não tenho pretensões de ter sido decisivo, tenho a certeza que ajudei à alteração da posição de Agostinho Neto e da situação de Costa Martins.

Por isso, não gostei de ver que, apesar de saber de há muito tempo o que se passou, Costa Martins apenas refira as intervenções de Eanes, Rosa Coutinho e António Macedo, nessa acção junto de Agostinho Neto. Até compreendo que me não queira referir (!), mas ao Melo Antunes...?

"Gostava de ver esclarecida a forma como o dinheiro foi gasto"

Mais tarde, Costa Martins regressa a Portugal e reforça a sua campanha de luta pela lavagem da sua imagem.

Procura-me na sede da A25A, no Forte do Bom Sucesso, esclarecemos a minha posição pública sobre o assunto, parece compreendê-la, e pede-me para ir à próxima sessão da Assembleia Geral, prevista para dali a cerca de um mês, e fazer uma intervenção para esclarecer a sua posição e defender a sua honra. Como não era, nem é, sócio da A25A, informei-o de que eu não tinha competência para o autorizar a fazer isso, teria que pedir ao presidente da Assembleia Geral. No entanto, disse-lhe que assumia a responsabilidade de o autorizar a, à entrada para a sala da reunião, distribuir aos participantes a documentação que entendesse distribuir. Concordou, no dia da Assembleia Geral, compareceu, falou com quem quis, distribuiu os papéis que quis, agradeceu, dizendo-se satisfeito e saiu.

Nunca mais estive com ele, até que nos 70 anos do Vasco Gonçalves, nas instalações de A Voz do Operário, se recusou a corresponder ao meu cumprimento, no meio de alguns militares e civis, o que provocou a reacção do Miguel Tavares Rodrigues.

A partir daí, não voltámos a falar, apesar de nos termos cruzado várias vezes.

Soube, publicamente, que foi ilibado de se locupletar com o dinheiro do Dia do Salário para a Nação. Pessoalmente, nunca tive dúvidas disso. Nunca vi as acusações feitas nesse sentido, apesar de saber que houvesse quem admitisse isso. Por mim, teria gostado de ver esclarecido a forma como o dinheiro foi gasto, para que serviu, onde e como foi utilizado. Mas nós sabemos que, em política, isso nunca é esclarecido.

Permitam-me, apesar de já ser muito longo, fazer uma afirmação: a Associação 25 de Abril é aquilo que os seus associados quiserem e forem capazes de fazer dela. Não há donos da A25A, mas todos têm responsabilidades na mesma. E só está na Associação quem cá quer estar. Ninguém é obrigado a fazê-lo.

P.S. Caro Andrade da Silva,

Lamento dizer-te, mas não foste feliz nos exemplos que apontaste, quanto aos militares que não sentem que a A25A é de todos os militares e gente de Abril.

Como não quero "lavar roupa suja" em público, estou à tua disposição para te dar a minha opinião e contar factos que justificam a atitude dos que referes. Sempre te direi, no entanto, que, em minha opinião, não basta ter sido de Abril para continuar a ser de Abril.

Vasco Lourenço 26 de Fevereiro de 2008