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O regresso da velha senhora

A diva da morna está de volta depois do acidente vascular cerebral sofrido, em Março. Na sexta-feira actua no mítico Carnegie Hall de Nova Iorque. Luzes e sombras de uma vida.

Jorge Araújo (www.expresso.pt)

Os seus olhos cantam. São irmãos desavindos - quando um chora, o outro sorri. Morna e coladera na esquina do mesmo olhar. Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz também. Há um brilho especial que ilumina o seu caminho. Já assim era nos tempos em que soltava a voz numa qualquer tasca da cidade do Mindelo, a troco de um cálice de grogue. Continua assim, agora que avança com passos tão pesados quanto triunfantes, por alguns dos mais importantes palcos deste mundo. "A tristeza e a alegria são vizinhas", deixa escapar com desconcertante ingenuidade. Sem dar conta, de um sopro, Cesária Évora resume os seus sessenta e sete anos de vida. Uma simples frase explica a música que lhe corre nas veias.

Morna e coladera, tristeza e alegria. Música e sentimento - essências de uma mulher nascida com a voz num véu de ternura. Sina de uma vida feita história, que começa com "era uma vez". Era uma vez uma ilha, uma cara esculpida na rocha, o Porto Grande a abarrotar de navios, um imenso azul a embalar sonhos impossíveis. O querer ficar mas ter de partir. A miséria. E uma criança a beber os acordes do violino no aconchego do pai: "Quando eu era uma asneira jeito de dizer criança ele começava a tocar e metia-me entre as suas pernas. Então, eu cantava uns disparates. Não me passava pela cabeça que viria a cantar a sério." Mas a avó, educada por freiras, viu nesta cena a antecâmara do milagre que, anos mais tarde, viria a realizar-se: "Disse-me que eu tinha nascido para cantar."

Aos sete anos a vida ensina-lhe a primeira de muitas lições. A morna, com o seu pulsar lento e triste, não é só saudade. É mágoa, lamento. É sofrimento. E é amor. Foi no dia em que o som do violino se apagou. Justino da Cruz Évora - Djute para os amigos - morreu, deixando instrumentos de música e cinco filhos para criar. Deixa também B. Leza, o primo, o amigo, o companheiro de tocatinas. O poeta paralítico torna-se então uma espécie de pai para Cesária: "Eu ainda era uma rapariguinha e costumava ir a sua casa." É ele quem lhe ensina que a morna é uma segunda pele.

Cesária - Cize nas ruas do Mindelo - bebe os acordes do mestre, olhos arregalados, coração a saltitar na ponta da língua. Fica com o olhar embevecido, lábios embebidos nos poemas de B. Leza. Cruza a juventude a trautear a doce melodia de "Lua Nha Testemunha" e "Miss Perfumado". Mas são tempos difíceis. Cresce no Mindelo, à beira do Lombo - bairro mal afamado, terra de rufias e prostitutas. "A minha mãe era cozinheira. Quando eu tinha dez anos, ela trabalhava para a D. Maria Emília Fonseca, que era directora do orfanato. Um dia, a minha mãe pediu-lhe para me arranjar um lugar." Porém, o feitio de Cesária não se verga à rigidez do lar: "Só lá estive três anos, saturei-me." Mal respira a liberdade, enceta uma vida normal: "Ajudava em casa e dava os meus passeios."

É numa dessas voltas que conhece o primeiro grande amor da sua vida - Eduardo de João Chalino, marinheiro e tocador de violão. Na frescura dos seus dezasseis anos, Cize passa a acompanhá-lo nas paródias. "Fazíamos serenatas por tudo e por nada. Era só alguém dizer 'vamos fazer uma serenata a fulano ou a fulana' e pronto. Às vezes, já vínhamos de algum bar e era só aproveitar a embalagem." Ainda não tinha os vícios da noite - não fumava e só bebia gasosa. Limitava-se a acompanhar o seu príncipe e a sussurrar as mornas que lhe enchiam a alma.

Uma bela noite, ele descobre-lhe a pureza da voz. Que ela, tímida, teimava em esconder entre duas afinações do violão. "Comecei a cantar algumas das mornas que o Morgadinho tinha feito na Guiné. Eles estavam a ouvir mas não diziam nada. Depois, o Eduardo voltou-se para mim e disse: 'Abre a voz e canta! Tens uma voz tão bonita e estás aqui a cantar baixinho'. Levantei a voz e ele disse: 'Estão a ver, esta menina tem uma voz maravilhosa'."

A notícia correu mais depressa que gazela. Num abrir e fechar de olhos, o Mindelo ficou a saber que a voz da menina estrábica tinha coração, alma e magia. Que o seu timbre adocicado encantava a madrugada, enfeitiçava até a mais espessa escuridão. Cize transformou-se na princesa das serenatas. Como ainda acontece, cantava por prazer. Bastava-lhe um pouco de grogue para olear as suas delicadas cordas vocais. A pouco e pouco, começou a embrenhar-se nas teias do álcool. Talvez por isso a sua voz tenha envelhecido suave como uma boa aguardente de Santo Antão. Hoje já não bebe, mas a sua voz continua a embebedar o mundo.

Das serenatas ao vinil foi um passo de pé descalço. "O Frank Cavaquinho foi quem fez a gravação. Era eu, o Luís Rendall, e parece-me que o seu filho, o John Rendall, também participou. E outros ainda cujos nomes já não me recordo. Não me pagaram nem aos outros músicos." Mas o pior ainda estava para vir. "Um dia estava a passar em frente à montra da loja do senhor Benvindo, em plena Rua de Lisboa, quando ouvi a minha voz. Fiquei espantada. O Frank Cavaquinho nem sequer me ofereceu um exemplar para ficar com uma recordação." Cesária, coração de algodão, não se deixou contaminar. Novo disco, nova desilusão. "O segundo foi com o João Mimoso, aquele comerciante de São Vicente. Também gravámos para ele e nada. Nunca vi um escudo."

A tristeza é um lugar estranho. Sentimento que consome sonhos, enterra ilusões. Alimenta-se de solidão. Não raras vezes, caminha de braço dado com o álcool. Nos quase onze anos que passa sem cantar, o grogue torna-se o melhor amigo de Cesária. Nos quase onze anos em que, desiludida, esconde a voz, refugia-se do mundo e tranca-se em casa da mãe, Dona Joana, com os filhos. "Tenho um rapaz, o Eduardo, que é filho de um português, e a Fernanda, que tive com o Piduquinha, que em tempos jogou futebol no Caldas da Rainha." Como ela própria diz, um e outro são fruto "daqueles amorzinhos de juventude que não me trouxeram sorte". Ainda assim, não cultiva rancores nem dá folga a ressentimentos. Tão-pouco ao tropa português, que a engravidou ainda na juventude. "Não sei se está vivo ou morto. Deixou-me com aquele menino no ventre e nunca mais disse nada."

A fortaleza familiar é pilar seguro. Cize encontra ânimo para continuar a acreditar. O regresso aos palcos e aos discos acontece em 1985. Tudo graças a um convite da Organização das Mulheres do antigo partido único - o PAICV. Às vezes, há duas sem três - dessa feita, à conta da intervenção do então primeiro-ministro Pedro Pires, consegue receber: "Falei com a sua cunhada, a Arcília, e ela marcou uma audiência com ele. Contei-lhe a história e ele pôs-me em contacto com a secretária-geral da OMCV. Fui a um encontro com ela e ela disse: 'É quanto?', e eu respondi: 'São cinquenta contos'. Ela passou-me um cheque. Talvez se tivesse pedido mais, teriam dado."

A roda da sorte começa viagem, quando Cesária é convidada por Bana, o rei da morna e do negócio, um gigante com voz de furacão. Ganha algum dinheiro mas, sobretudo, tem a sorte de viajar para Lisboa e para os Estados Unidos: "Fiz um grande sucesso na América, ganhei bem e ainda fiz uns negóciozitos a mandar coisas para Cabo Verde." Na altura, a caminhar a passos largos para os cinquenta, a diva da morna é obrigada a fazer uma importante concessão - calça os primeiros sapatos. O frio desaconselha pés nus.

Em Lisboa, Cize desembarca na famosa discoteca africana Monte Cara, na Rua do Sol ao Rato. Era a sua segunda casa, paragem de muitos outros cabo-verdianos. Cesária ri-se com as anedotas de Tito Paris, delicia-se com o virtuosismo de Paulino Vieira, troca dois dedos de conversa com um emigrante em trânsito para as ilhas. Canta. Encanta.

Entre muitos Marlboros - ainda hoje Cize é fumadora compulsiva - e dois grogues, é ali que conhece o homem que irá mudar a sua vida. Foi em 1987. José da Silva, Djô para amigos e conhecidos, antigo agulheiro dos caminhos-de-ferro franceses, fica maravilhado com a sua voz e propõe-lhe parceria. Cize diz que não: "Naquele tempo, eu tinha outros compromissos." Mas não foi um não definitivo: "Disse-lhe que quando acabasse o meu compromisso com o Bana dir-lhe-ia se o acompanhava ou não a Paris." Acabou por aceitar o convite e a sua estrela passou a brilhar mais alto: "Era a mão que precisava para me ajudar."

Nos dois primeiros discos Cize tenta modernizar os ritmos de Cabo Verde - é bem aceite, mas o grande sucesso ainda está para vir. Mar Azul é o primeiro, segue-se Lua Nha Testemunha. O namoro entre a voz suave de Cesária e a simplicidade da viola e do cavaquinho começa a dar que falar. Um homem é fundamental na definição do som daquela que começa a ser conhecida como a "Diva dos pés descalços". Trata-se de Paulino Vieira, um dos génios da música cabo-verdiana. E ele não lhe poupa elogios: "A Cesária é como água fresca, uma pessoa tem sempre vontade de voltar a beber. E quando já está cansada desta água, depois de bebê-la de novo, chega à conclusão que tem ainda necessidade de bebê-la mais vezes."

O resto da história é património mundial. As salas esgotadas - Tóquio, Paris, Nova Iorque... "Eu canto da mesma maneira numa serenata ou numa dessas salas famosas." Os inúmeros prémios e condecorações, enfeites das paredes da sua casa no Mindelo: "Sou uma pessoa simples". A conta bancária que não pára de engordar: "Costumo dizer que o Banco de Cabo Verde já não aceita o meu dinheiro e por isso estou agora a guardá-lo na Suiça (enorme gargalhada). As pessoas só se preocupam com estas coisas. Antes nunca ninguém pensou em ajudar-me." A simplicidade de uma mulher que, apesar das luzes da fama, continua com os pés descalços. Bem assentes no chão. "Consigo viver sem cantar. Quando largar vai ser de vez."

Mas o adeus não é para hoje. Depois do acidente vascular cerebral (AVC) sofrido na Austrália, em Março, dos tratamentos, em Paris e do merecido descanso no Mindelo, Cesária está de regresso. De novo, com a alma na voz. Aquela voz, a sua. Diz quem já a ouviu que continua a mesma. Suave, celestial. De novo, com doçura e sinceridade: "Posso não ser muito alegre, mas triste também não sou." Cize é muito mais que sentimentos. Muito mais que música. É Cabo Verde no mundo.

O acidente vascular cerebral (AVC) sofrido em Março, na Austrália - "começou com uma ligeira cãimbra na mão esquerda, mas os médicos disseram-me que eu tive muita sorte" - veio atrapalhar os planos de Cesária. O regresso aos estúdios foi adiado para o início do próximo ano, e o novo CD de originais só deverá estar disponível entre Maio e Setembro de 2009. Mas antes Cize vai fazer história - em Novembro recupera velhas gravações efectuadas na famosa Rádio Barvalevnto, no Mindelo, durante os anos 50. A "rainha da morna" é acompanhada por um outro monstro da música cabo-verdiana: o emblemático e não menos castiço Gregório Gonçalves, "Ti Gói" para os amigos.

Texto publicado na revista Atual de 27 de setembro de 2008