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Noite de guerra no 'bairro anarquista'

Milhares de jovens e centenas de polícias anti-motim lutaram duramente durante toda a noite de ontem para hoje pelo controlo do extenso bairro de Exarxia. Esta manhã, os revoltados de Atenas continuam a dominar esta zona central da cidade a partir do seu quartel-general, na escola Politécnica.

Daniel Ribeiro, enviado a Atenas

Exarxia, o "bairro anarquista" de Atenas, sábado, 19 horas. A tensão é perceptível na praceta onde foi mortalmente baleado pela polícia, há nove dias, o jovem Alexis, de 15 anos.



Os repórteres de imagem e de som são indesejáveis no local. Quatro franceses, dois da Rádio France e dois fotógrafos, são expulsos a pontapé por dois miúdos de 20 anos vestidos a rigor com a já tradicional farda dos novo guerrilheiros urbanos de Atenas - blusão escuro com capuz, grandes lenços ao pescoço, jeans e sapatilhas.



No chão e na parede de um prédio devoluto estão flores, velas e centenas de mensagens de mágoa e de revolta. Dezenas de jovens com ar mais banal prestam homenagem, emocionados até às lágrimas, ao que chamam o "mártir da revolução grega". Abalados, aprovam o ataque aos jornalistas. "Eles são colaboradores da polícia, que nos identifica devido às imagens e ao som da voz", acusam.



O Expresso pode ficar. A caneta e o papel não os assustam. Paulo Dentinho, da RTP, nem chega a tirar a máquina do saco, não pode trabalhar e sai do bairro. Não arrisca que lhe destruam mais uma câmara, como aconteceu na quarta-feira passada. Voltará depois das 22h, protegido pela polícia anti-motim, como todos os colegas da televisão.



Às 20h, já está uma multidão imensa e compacta na praceta, vigiada por um ballet incessante de helicópteros e, certamente, também por agentes disfarçados de revolucionários infiltrados no movimento. Às 21h, há tanta gente em redor da praceta que os jovens transbordam para as ruelas adjacentes. O bairro - mais extenso do que, por exemplo, o Bairro Alto, de Lisboa - está repleto de rapazes e raparigas que gritam, encolerizados: "Policia assassina!".



No quartel-general dos revoltados, na vastíssima escola Politécnica, antigo quartel militar das tropas no tempo da ditadura grega, os "Koukoulofori" - encapuzados - acendem fogueiras no pátio. Parecem dançar à volta delas, como num ritual tribal de preparação para um combate. Nos portões gradeados de ferro está estampado um cartaz preto com um gigantesco A, de anarquia.



Às 22h, caiem as primeiras saraivadas de bombas de gás lacrimogéneo em todo o bairro. Gás fortíssimo, apimentado, muito mais forte do que o utilizado nas cenas de guerrilha dos últimos dias nas zonas mais chiques da cidade. Literalmente asfixiada, toda a gente foge para onde pode. Nuvens espessas de fumo envolvem o casario. Batalhões de centenas e centenas de politicas anti-motim posicionam-se em todas as entradas do bairro.

Atmosfera insurreccional

Os "Koukoulofori" tomam conta da situação nos quarteirões. São ateadas fogueiras em todas as ruas e esquinas. O ruído das rajadas das bombas de gás que continuam a cair sem parar e das pancadas das barras de ferro dos "guerrilheiros" contra as cortinas de ferro das lojas comerciais é ensurdecedor. A polícia é atacada à pedrada e com 'cocktails-molotov'. Milhares de pedras e de bombas caseiras, estas últimas fabricadas no quartel-general durante o dia, caiem sobre os agentes fardados de verde-azeitona, como os militares. Jovens sem capuz também participam e arremessam com tudo o que encontram à mão - grades, paus, placas de alumínio, pedras...



Raquel Morão Lopes, da Antena 1, regista com cautela, o som da batalha com o gravador escondido no saco.



Às 23h, a policia investe o interior do bairro com centenas de polícias, de bastões ao alto, a carregarem em passo de corrida sobre quem encontram pelo caminho. Correrias de pânico, gritarias, num banzé indescritível. Será assim até ao nascer do dia.



Esta manhã, às 9h, Exarxia é um imenso campo de batalha. Vêem-se destroços da devastadora batalha por todo o lado. Ainda não há balanços oficiais - o número de feridos é indeterminado e a polícia apenas confirma dezenas de detenções.



No "bunker" dos revoltados de Atenas, na escola Politécnica, os guardas de serviço, não me deixam entrar. Vagélis, 20 anos e chefe da guarda, que me facultara a entrada nos últimos dois dias, é simpático e, apesar da recusa, pede desculpa. "Tenho ordens", diz. A letra A continua grudada ao portão. No interior, permanecerão amotinados cerca de 500 "Koukoulofori".



Atenas acaba de viver a noite da sua mais dura batalha desde o início da actual vaga de violência, no passado dia 6. A escalada do combate subiu a noite passada uns largos pontos e, em Exarxia, hoje de manhã, os residentes estão a acordar numa atmosfera insurreccional.



"O que querem vocês?", pergunta o Expresso. "A revolução!", responde Vagélis, de 20 anos.