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"Não é de mim que têm medo, é da verdade"

Ao serviço do semanário "Europeo" foi repórter de guerra. Entrevistou figuras maiores da política mundial. A jornalista e escritora Oriana Fallaci morreu a noite passada. Aos 77 anos.

Oriana Fallaci morreu na noite de 14 para 15 de Setembro numa clínica privada de Florença, a sua cidade natal, vítima de cancro. A antiga jornalista tinha 77 anos. Ferruccio De Bortoli, ex-director do "Corriere della Sera", chamou-lhe um dia "a escritora italiana mais prestigiada". Décadas atrás, o "Los Angeles Times" descreveu-a como "a jornalista a quem nenhuma personalidade mundial dizia não". Nos anos 60, Fallaci foi correspondente de guerra para o semanário "Europeo", tendo assegurado a cobertura de conflitos no Médio Oriente, Vietname e América do Sul.

As entrevistas que fez a protagonistas de primeiro plano da cena política mundial como Henry Kissinger, Ayatollah Khomeini, Lech Walesa, Willy Brandt, Ali Bhutto, Omar Khadafi, Deng Xiaoping, Yasser Arafat, Indira Gandhi, Golda Meir e Haile Selassie projectaram-na internacionalmente na década de 70. Da entrevista que lhe concedeu em 1972 – em que afirmou concordar com a guerra do Vietname – Kissinger viria a escrever que se tratou da "mais desastrosa conversa que tive com um membro da imprensa".

Oriana Fallaci entrevistou Álvaro Cunhal em 1975: os ecos do trabalho publicado pelo "Europeo", a 6 de Junho, obrigaram a Secção de Informação e Propaganda do PCP a emitir um categórico desmentido. De acordo com o "Europeo", Cunhal afirmou não haver possibilidade de Portugal ter uma democracia ou um parlamento ao estilo ocidental. A nota divulgada pelo PCP no mesmo dia referia ter havido uma "grosseira deturpação das palavras de Cunhal". Fallaci não só reiterou a "exactidão da tradução" da conversa com o secretário-geral do PCP como anunciou que colocaria as cassetes com a entrevista à disposição de quem duvidasse da sua palavra. Como afirmaria numa entrevista que concedeu a Álvaro Guerra para "A Luta", "não é de mim que têm medo, é da verdade". O livro "Entrevista com a História", publicado entre nós em 1975 pelo Círculo de Leitores, reúne os melhores registos publicados no "Europeo" durante os anos 70.

Em 2002 voltou à ribalta com um livro polémico intitulado "A Raiva e o Orgulho", escrito na sequência dos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos. O texto, denunciado como anti-muçulmano, desencadeou protestos que chegaram à barra dos tribunais. Viveu os últimos anos entre Nova Iorque e Florença, combatendo um cancro na mama a que se referiu em diversos artigos como "o outro". Em Agosto de 2005, foi discretamente recebida pelo Papa Bento XVI na sua residência de Castel Gandolfo. Apesar de ateia, Fallaci nunca escondeu a admiração por Ratzinger. Em entrevista ao "Wall Street Journal" no passado mês de Maio, a escritora italiana declarou sentir-se menos só quando lia as obras de Bento XVI.

Para além da "Entrevista com a História", encontram-se publicados no nosso país as seguintes obras: "Carta a um menino que não nasceu", (Arcádia, 1976), "Um Homem" (Europa-América, 1982), "Inchallah" (D. Quixote, 1992), "A Força da Razão" (Difel, 2004) e "A Raiva e o Orgulho" (Difel 2002).