Siga-nos

Perfil

Expresso

Atualidade / Arquivo

Música todo o terreno em Belém

A testemunhar o alvoroço de magotes de pessoas que voltaram no sábado a apoiar os 'Dias da Música em Belém', um elemento da organização anunciou o número oficial de 25 600 bilhetes vendidos até às 17 horas do dia 24, com uma ocupação das salas na ordem dos 76%.

Ana Rocha (www.expresso.pt)

Passados dez anos do lançamento feito em Lisboa por Miguel Lobo Antunes e René Martin da 'Festa da Música', prossegue com êxito, exactamente no mesmo local e com um figurino muito semelhante (numa atmosfera informal, são colocados à venda bilhetes baratos para espectáculos com duração que evita ultrapassar os 60 minutos), o prolongamento da iniciativa que desde 2007 recebeu o nome de baptismo 'Dias da Música em Belém', um evento concebido para agradar a qualquer tipo de público. A ideia da democratização da música erudita germinou em 1995, altura em que foi lançada por René Martin, na cidade francesa de Nantes, 'La Folle Journée', um projecto olhado na época como sendo de alto risco, insano e orientado para o fracasso económico. O acolhimento da iniciativa junto dos espectadores provou que se estava a desbravar um caminho acertado e, ao longo de sucessivas edições, tanto a 'Festa da Música' como em anos recentes, os 'Dias da Música em Belém' (agora na sua quarta edição) foram gozando de um excelente acolhimento junto do público que inunda os recintos.

Tumultos no convento

Para preencher os compassos de espera entre os espectáculos, vão sucedendo algumas 'conversas' na Sala Jorge de Sena, sempre a propósito dos concertos. Foi o caso da pequena palestra que decorreu logo após a apresentação do recital intitulado 'Tumultos Passionais nos Conventos Portugueses' interpretado pela Capela Joanina & Flores de Música. Sem tumultos de qualquer espécie, muitas pessoas esperaram calmamente pelo cravista João Paulo Janeiro e pela oradora Luísa Cruz que chegaram com algum atraso para falar sobre música e sobre os textos do barroco seiscentista português e, sobretudo, sobre os textos das freiras portuguesas Soror Violante do Céu, Soror Madalena da Glória e a incontornável Soror Mariana Alcoforado que amou o conde Noel Bouton de Chamilly, o oficial francês que lutou em solo português durante a Guerra da Restauração. O aristocrata frequentou assiduamente a cela da freira que, inflamada pela paixão, lhe dedicou copiosa correspondência. Luísa Cruz recordou um texto de Jean-Jacques Rousseau onde o filósofo considera que as cartas são de uma beleza tão perturbante que nunca poderiam ter sido escritas por uma mulher... Frustrações de mulheres jovens encerradas pelas famílias em mosteiros e descrições de espectáculos de música e de dança (João Paulo Janeiro referiu-se a <#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment=" /* Style Definitions */ p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal {mso-style-parent:""; margin:0cm; margin-bottom:.0001pt; mso-pagination:widow-orphan; font-size:12.0pt; font-family:"Times New Roman"; mso-fareast-font-family:"Times New Roman";} @page Section1 {size:612.0pt 792.0pt; margin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; mso-header-margin:36.0pt; mso-footer-margin:36.0pt; mso-paper-source:0;} div.Section1 {page:Section1;} "> <#comment comment="[if gte mso 10]> vilancicos que eram executados dentro das igrejas até à data em que, apesar da sua popularidade, foram proibidos pela Coroa) que ocorriam dentro dos conventos, constituiram o pretexto para uma convera sem monotonia em torno da libertinagem, da hipocrisia e da repressão dos ardores femininos.

As paixões em música

A Orquestra de Câmara Portuguesa, os músicos ingleses do Retrospect Ensemble, os italianos da orquestra Atalanta Fugiens, a Orquestra Sinfónica Metropolitana, o Coro da Fundação Príncipe das Astúrias, o Ensemble La Fenice e a Orquestra do Algarve continuam a marcar pontos na quarta edição de um evento com música 'todo o terreno' que trilha sendas artísticas e géneros muito variados que passam tanto por sinfonias de Monteverdi como por madrigais do príncipe napolitano Carlo Gesualdo, oratórias de Handel e peças de Telemann, Bach, Haydn, Mozart, Chopin, Schubert, Brahms, György Ligeti, Eurico Carrapatoso e Sofia Gubaidulina, só para nomear alguns nomes que se encontram nos programas dos 72 espectáculos.

Na tarde de sábado, a cantora belga Céline Scheen (soprano) não se deixou perturbar pelo som de um telemóvel que ressoou no Auditório Eduardo Prado Coelho, na altura em que ela, com pureza do canto e justeza do sentimento, declamava o microcosmos passional que é o madrigaleto 'Chi vuol aver felice il cuore'. A sala encheu-se para aplaudir a comovente implicação dramática de uma das mais bonitas intérpretes que, em 2010, subiu ao palco nos 'Dias da Música em Belém', dona de uma voz luminosa e de vibrante humanidade, daquelas que encontram intuitivamente o estilo mais adequado ao mundo de Monteverdi. Não é preciso muita imaginação para nos transportarmos até aos salões quinhentistas do palácio ducal de Mântua onde se cantou 'La Favola d'Orfeo', idealizando a figura e a voz desta intérprete a deliciarem aqueles que aplaudiram, na música de Monteverdi, a representação das paixões em música. Da compositora veneziana Barbara Strozzi, uma aluna de Cavalli, Céline Scheen cantou 'Udite Amanti' com o seu suave 'recitar cantando' muito bem secundado pelos instrumentistas do Ensemble La Fenice de Jean Tubéry. Juan Sebastian Lima (tiorba), Krzyzstof Lewandowski (fagote) e Adam Wolf (trombone) estabeleceram um clima de forte conivênvia com a cantora, sublinhando também com muito refinamento as sonatas de Dario Castello e de Matthias Weckmann. 'La fede è morta' ('a confiança está morta') chorava a voz expressiva da cantora. Pois com intérpretes desta craveira, se a confiança dos ouvintes no surgir de novos valores canoros estava moribunda, ela agora já está como o pássaro de fogo que renasceu das cinzas, a Fénix do Ensemble La Fenice. Esta pequena maravilha de espectáculo será novamente apresentada pelas 13 horas de hoje, no mesmo recinto.

Exigência virtuosística

Uma novidade absoluta foi a prestação da pequena orquestra italiana 'Atalanta Fugiens' dirigida por Vanni Moreto, num programa sobre a teoria dos afectos humanos, 'Degli Umani Affetti'. Nobreza, honestidade, pudor, suspeita, medo e alegria foram musicados por Telemann numa peça tocada com variedade nos ataques e um inconfundível perfume francês. Seguiu-se uma bela selecção de Aberturas festivas e extravagantes de Telemann. 'Le Sommeil' recuperou as suas cores vivas com a paleta de instrumentos históricos dos músicos italianos, numa maneira extremamente original de descrever noitadas com a consequente sonolência, insónias e vigílias com os instrumentos de cordas sacudidos por um hipnótico estado de torpor. Uma revelação, tal como aquela que Descartes teve numa noite de insónia, pouco antes de se lançar na escrita de 'O Discurso do Método'!

Na noite de sábado, uma extraordinária 'Schubertíade' em miniatura foi apresentada na Sala Almada Negreiros. O recital foi protagonizado pelos cinco instrumentistas do Shostakovich Ensemble (com o Quinteto de Cordas em Dó maior, D. 956), muito aclamados por uma plateia totalmente esgotada onde, na segunda fila, muito discretamente, se encontravam Mercedes e Francisco Pinto Balsemão, dos primeiros a aplaudir de pé o espectáculo, pletóricos sobretudo com a actuação da violinista Tatiana Samouil (São Petersburgo, 1974) que tocou com o seu 'Stradivarius' cedido por um mecenas anónimo, um instrumento que surpreende pela estranha beleza do seu timbre. Pela exigência virtuosística, pelo temperamento da própria obra, pelo seu carácter labiríntico, o quinteto de Schubert apresenta sérios problemas aos seus intérpretes. Com as suas harmonias instáveis, os quatro andamentos foram conduzidos com firmeza pela violinista russa, a "alma" do Shostakovich Ensemble. Hoje pelas 19 horas, o agrupamento regressa ao palco da mesma sala para interpretar um programa intitulado 'Tchaikovskiana', ocasião de apresentar duas extraordinárias peças do compositor russo, 'Souvenir d'un lieu cher' e o sexteto 'Souvenir de Florence'.

O pensamento 'lateral' e o 'paralelo'

Na biblioteca do CCB, na Sala Jorge de Sena, podem consultar-se cerca de 60 obras de filosofia que repousam nas estantes. Do tratado de Descartes 'As Paixões da Alma', a obra que inspirou o mote da edição de 2010 dos 'Dias da Música em Belém', não se avista nenhum exemplar. Aliás, acerca do filósofo francês, apenas consta um volume de actas de um colóquio com o título 'Descartes, Reflexão sobre a Modernidade'. Perto desta obra, encontra-se uma outra intitulada 'Os Seis Chapéus do Pensamento' escrita por Edward de Bono (Malta, 1933), o famoso criador da teoria do 'pensamento lateral', um pensamento pioneiro que considera que, quanto mais bizarra for a maneira de se pensar sobre um tema, mais hipótese ela terá de prosperar num mundo onde não há lugar para pensamentos gastos (tipo 'passe-partout') nem para fórmulas esgotadas.

René Martin pode ser considerado como um exemplo de alguém que colocou em acção o 'pensamento lateral' teorizado por um intelectual que defende formas criativas de reflectir e de transformar a realidade. Contra o preconceito enraizado segundo o qual a cultura não é economicamente lucrativa, os livros e as teorias de Edward de Bono já lhe proporcionaram as quantias necessárias para comprar uma ilha em Queensland, na Austrália e uma outra na 'laguna' de Veneza onde tem uma casa senhorial. A essência do pensamento 'lateral' assenta na posição de que em todos os momentos, toda a gente está a olhar na mesma direcção - mas a direcção pode ser mudada. Interessa antecipar o pensamento dos rivais e adversários, numa corrida permanente em direcção à inovação. Torna-se necessário mudar conceitos e percepções. Os 'chapéus' de Bono surgem como símbolos de diferentes direcções do nosso pensamento. O 'chapéu verde', por exemplo, indica a abundância da Natureza, a fertilidade, a criatividade e a força das ideias novas. Forçosamente, terão de começar a ser pensados modelos diferentes, os tais 'chapéus verdes' como novas estratégias para manter o interesse do público português em maratonas musicais como esta, a dos 'Dias da Música em Belém'. Antes de se atingir o ponto de esgotamento de uma fórmula de sucesso que, agora em 2010, espera vender 33 000 bilhetes num só fim de semana, a provocação terá de surgir como um ingrediente essencial, numa sociedade que corre atrás da permanente variedade.