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"Museus em Portugal têm de ser gratuitos"

O Museu do Luxemburgo, em Paris, apresenta de hoje até 22 de Fevereiro a exposição 'De Miró a Warhol', com 74 das melhores obras da colecção de Joe Berardo. "Era um sonho europeu", disse o coleccionador ao Expresso.

Daniel Ribeiro, correspondente em Paris

A singular história pessoal de Joe Berardo, o milionário comendador nascido pobre, em 1944, na ilha da Madeira, e o facto de algumas das obras serem apresentadas pela primeira vez em Paris, atraíram a atenção dos jornalistas e dos críticos franceses.

Ontem, durante a 'vernissage', um deles dizia que a exposição é, actualmente, a segunda mostra temporária de pintura mais importante da capital francesa, depois de 'Picasso et les Maitres', no Grand Palais.

A expectativa sobre a exposição era grande porque o jornal 'Le Monde' afirmara, depois da abertura do Museu Berardo, em Lisboa, que a colecção do ex-emigrante na África do Sul rivaliza com as do Centro Pompidou (Paris) ou da Tate Modern (Londres).

Joe Berardo estava visivelmente satisfeito com o sucesso e a efervescência que o acontecimento provocou em Paris. "Foi um sonho que se concretizou, muita gente tem o sonho americano, mas eu tinha este: mostrar as minhas obras de arte na capital da cultura, era o meu sonho europeu", disse ao Expresso.

A exposição, com obras criadas entre 1909 e 1984, realça os laços entre os diferentes movimentos da pintura do século passado. Uma intenção que se percebe logo à entrada, com um interessante confronto entre três retratos de Picasso, Jackson Pollock e Balthus.

As obras permitem uma viagem pelas principais correntes picturais do século XX, do surrealismo à arte abstracta, passando pela 'Bad Painting' ou a 'pop art'.

Na selecção da mostra, efectuada pelo francês André Cariou, figuram trabalhos de três portugueses - Amadeo de Souza-Cardoso, Vieira da Silva e Lourdes Castro, esta última madeirense, tal como Berardo. Os três têm em comum o facto de terem vivido e trabalhado durante vários anos na capital francesa.

Berardo considera que a exposição é importante para a notoriedade internacional do seu museu, mas sobretudo para Portugal - "Temos de atrair mais gente a Portugal para ver arte, visitar os nossos museus e palácios, porque o nosso país não é só mar".

Mas Berardo acha que a oferta cultural portuguesa é muito deficiente, apesar de haver muita arte com qualidade para atrair os estrangeiros. "Deveriam ser renovados muitos palácios e os museus deveriam ser gratuitos no país", afirma.

"É muito triste para mim ver, por exemplo, o estado em que se encontra o Museu de Arte Antiga, em Lisboa, sempre às moscas e com coisas tão interessantes no interior! Tem tanta gente empregada para vender meia dúzia de bilhetes por dia... Eu acho que os museus portugueses deveriam ser de entrada livre, para ser melhorada a cultura dos portugueses, e porque eu me lembro de quando era pequeno, quando não podia entrar por não ter dinheiro!", concluiu Berardo.