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Medina Carreira: "Tenho este trombone, mas no fundo sou um doce"

A partir de amanhã, sábado, Medina Carreira vai estar todas as semanas na SIC no novo programa de Mário Crespo, "Plano Inclinado", ao lado de João Duque e Nuno Crato. Em entrevista ao Expresso, fala de si e do futuro negro que traça para Portugal.

Cândida Santos Silva e Mafalda Anjos (texto), Tiago Miranda (fotos) (www.expresso.pt)

Há quem lhe chame incómodo, pessimista, controverso, fatalista, profeta da desgraça, treinador de bancada. Henrique Medina Carreira está-se nas tintas. Aos 78 anos, sente-se na obrigação de não estar calado e de alertar os portugueses para a "fraude" em que vivem. Fá-lo da única maneira que sabe: com frontalidade, sem medir as palavras.

A este homem, que já foi subsecretário de Estado do Orçamento entre 1975 e 1976 e ministro das Finanças do I Governo Constitucional de Mário Soares, os adjectivos não fazem mossa. Diz que é abordado na rua pela gente que interessa: o povo. A "piolheira política em que vivemos" fá-lo ponderar calar-se de vez. Será?

Aos 78 anos, continua a estudar, a escrever e a criticar tudo e todos sem piedade. Afinal, o que o move? É um dever trabalhar enquanto a saúde o permite e é também uma autodefesa. Move-me o facto de ser cidadão de um país pobre, pouco educado, sem a percepção disso, e que não sai da cepa torta. Por ser assim, escolhe dirigentes que não são os mais aconselháveis para o ajudar a sair do lodo em que está metido.

É o pessimista de serviço. Quando faz falta uma voz crítica, já se sabe a quem telefonar. Não o preocupa ser o incómodo número um da nação? Não sou pessimista. Chamam-me assim porque, para me responderem, tinham de ir trabalhar, estudar os números, raciocinar. Limitam-se a chamarem-me pessimista e dão repercussão a essa ideia. É a coisa mais estúpida deste mundo e é a fórmula cómoda de tentar anular o meu pensamento. Enquanto não vir gente capaz de tomar conta deste país, sou incómodo. Quando olho para os partidos, para estes dirigentes, não posso ser outra coisa. Os factos mostram que somos a pior economia da Europa e dos países mais endividados. Até hoje, não consegui arranjar uma pessoa para discutir comigo num programa na televisão...

Têm medo de si? Não é de mim, é dos números. Mexer em números, com rigor, dá trabalho. Os políticos e a gente que se serve disto usam o país como uma manjedoura.

Com quem gostava de debater estas questões? Com Mário Soares, Manuel Carvalho da Silva, Jorge Coelho - agora, coitado, está impedido, por razões que são muito boas para ele -, com pessoas que liminarmente me consideram pessimista.

As suas entrevistas na SIC Notícias são um sucesso no YouTube e os seus livros esgotam. Até há uma petição a correr na Internet para lhe darem uma hora para falar na televisão. Tem noção da sua popularidade? Sinto isso na rua. As pessoas abordam-me. Se me derem uma hora na televisão, viro muita gente do avesso! O problema é que a gente que precisa de ser virada não o quer ser. Este sistema de vida é bom para eles.

Diz sempre o que pensa. Também é assim no seu dia-a-dia? Quantas vezes já escreveu num livro de reclamações? Nunca escrevi.

Isso é surpreendente. Não serviria para nada. Não perco tempo com inutilidades. Ir para os tribunais hoje, por exemplo, é de pensar 30 vezes.

Tem um espírito de missão no seu discurso? Estudei muitos anos em Portugal. Fiz muitos cursos. Tenho perante a sociedade portuguesa o dever de tentar ajudar a pensar o país. Mas tenho medo dos missionários. Género Sócrates e companhia. Tentar abrir os olhos à população é uma tarefa que cabe a quem o Estado e a sociedade portuguesa permitiram estudar. E têm o dever de falar.

Fez três cursos. Gosta muito de estudar? Este longo percurso foi acidentado, por razões que não eram obrigatórias. Comecei por tirar o Curso Complementar da Indústria, que eram cinco anos. Depois estive na Guiné um ano e tal a trabalhar. Quando vim, queria passar da Engenharia para as coisas sociais. Já olhava então para a sociedade portuguesa com muita preocupação. Queria ir para Economia, mas nessa altura não se transitava directamente. Havia um curso chamado Ciências Pedagógicas que permitia esse salto. Era uma espécie de Novas Oportunidades, mas em bom. Estive em Coimbra um ano como aluno voluntário. Depois pensava que transitava para o curso que quisesse, mas o Ministério da Educação disse que não. Obrigaram-me a fazer o liceu todo. Já estava casado, mas fiz o liceu em três anos. Trabalhei na indústria do aço, no Barreiro. Terminado esse percurso, entrei em Direito. Mas como a Economia era a minha velha ambição, ainda fui para Económicas.

Terminou o curso de Direito com 31 anos. Foi para Economia logo de seguida? Não. Primeiro tive de ir ganhar a vida como advogado. Fiz o curso de Direito como empregado de escritório. Quando já tinha alguma tranquilidade, fui para Economia. Foram muitos anos, mas alguns deles foram impostos pelas circunstâncias.

Isso não o revoltou? Revoltado estou agora com o que se passa. As nossas escolas são fábricas de analfabetos. No meu tempo, os alunos com a quarta classe davam menos erros do que alguns ministros agora. A escola, hoje, é mais uma das falsificações do regime. O ensino é uma farsa para apresentar estatísticas. As pessoas da classe média e alta têm capacidades para se defender. Põem os miúdos em explicadores, escolhem os colégios. Os filhos das classes baixas não sabem coisíssima nenhuma. Isto só promove a desigualdade e não incentiva a mobilidade social.

Disse um dia que gostaria de ser ministro da Educação durante dois anos. O que é que mudava? O problema da Educação é simples. Primeiro tem de haver ordem nas escolas, programas feitos com gente com cabeça e não por semianalfabetos. Os professores têm de ser avaliados para se saber se sabem do que ensinam. Salazar liquidou duas gerações e a democracia está a liquidar quatro.

Portugal, que futuro?, é o seu último livro, editado em Setembro. É tempo de mudanças inadiáveis, garante Medina Carreira

Portugal, que futuro?, é o seu último livro, editado em Setembro. É tempo de mudanças inadiáveis, garante Medina Carreira

Acha que a Revolução de Abril, neste aspecto, fracassou? Os analfabetos que dirigiram a Educação depois da revolução é que foram os culpados.

Nunca recebeu um telefonema de um ministro ou chefe de Governo a pedir-lhe explicações? Nunca pedi cunhas e também nunca acedi a pedidos de cunhas.

Ainda é amigo de Mário Soares? Trabalhei muito com ele. Para Mário Soares, uma pessoa que sabe fazer contas de somar, é esquisito. Gosto muito dele. É um homem a quem Portugal deve muito, sobretudo naquele período agitado dos anos 70.

Mário Soares não se zangou consigo por ter apoiado Cavaco Silva à Presidência da República quando ele era candidato? Achei que não tinha necessidade de entrar nessa corrida. Na altura, disse que se perdesse ficava ele aborrecido e se ganhasse ficávamos nós aborrecidos (risos). Depois disso chamou-me um pessimista...

Sim, chamou-lhe uma "Cassandra lusitana". Isso até foi um elogio. Cassandra estava coberta de razão acerca da destruição de Tróia... Exactamente. Descuidou-se. Mas é um homem notável. E, como todos os homens notáveis, tem alguns defeitos notáveis.

Por exemplo?É um homem que despreza as realidades económicas. Um defeito enorme para um político dos nossos tempos. Acha que os números são coisas para merceeiros.

Mário Soares é então só ideologia? É uma ideologia que não cabe num país pobre. O socialismo e a social-democracia são hoje fraudes completas. O Louçã é um social-democrata armado em revolucionário, o Jerónimo disfarça um pouco, Sócrates, Ferreira Leite e Paulo Portas são todos sociais-democratas. Mas, simplesmente, não há social-democracia sem dinheiro.

Nunca se arrependeu das suas palavras? Quando digo as coisas com consciência dos seus efeitos, raramente.

Costuma ver-se na televisão?Em geral, não vejo.

E o que é que diz a sua família quando o vê? Nos meus amigos, há dois pólos: o grupo do disparate, que fica muito satisfeito, e o grupo dos contidos, que nunca fica satisfeito com os disparates que digo.

A sua filha pertence a qual dos grupos? Não vê televisão. A minha família nunca gostou que eu andasse na política.

Não tem medo de cair no estereótipo de treinador de bancada? Presumo que seja incómodo. A mim não me convidam para ir à RTP, por exemplo. Nunca me assumi como treinador, nem sequer de bancada. Aquilo que quero é tentar levar as pessoas a perceber os caminhos que trilham, fazer um pouco de pedagogia. Fazê-las entender que estão a ser burladas. O país não pode continuar a ser dirigido por trafulhas.

Tem deixado lastro? Em Portugal, a grande maioria das pessoas depende do dinheiro do Estado. A dependência das pessoas rouba-lhes a frontalidade. Na televisão, isso é fatal, vê-se como as pessoas andam atrás das palavras que lhes possam dar dinheiro.

É raro vê-lo a elogiar alguma coisa. O primeiro elogio que faz no seu último livro - "Portugal, Que Futuro?" - está na página 178, a 20 do fim. Elogia o papel de Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas. Não gosta de fazer elogios?(risos) Gosto. Elogio muita gente. Mas isso é perigoso. Feito por uma pessoa como eu, pode tramar muita gente...

Como assim? Se eu elogiar alguém, essa pessoa é logo queimada nos bancos, nos Governos... Dizem que é suspeita. O salazarismo não desapareceu da cabeça desta gente.

Apoiou Cavaco Silva para Presidente da República. Como vê a sua actuação hoje? Conheço o seu feitio e as suas limitações. Precisávamos em Belém de meio Cavaco e meio Soares. Uma mistura dos dois bichos.

Com o quê de Cavaco e o quê de Soares? A ponderação, o rigor, o conhecimento dos problemas técnicos sobre economia e finanças de Cavaco. E o golpe, a capacidade de intervir com oportunidade de Soares. Era o Presidente ideal.

Não vê ninguém que possa caber nesse papel? Não.

Nem Manuel Alegre? Não! Manuel Alegre não serve para Presidente da República. Se o país quer acelerar o seu trambolhão, então é pôr o Alegre em Belém e o Louçã em São Bento. Em seis meses, o país encontrava-se com a sua verdade.

Como olhou para o caso das escutas em Belém? Estou tão farto de patetices que não perco tempo com isso. Nos partidos, há lá uns grupos que estão encarregados de fazer intriga. O país vive de manobras de diversão. Tudo isto tem ar de golpe.

Tem estômago para estas coisas? Não, não tenho. Mas o que isto constitui de desgraça para o país e para a democracia irrita-me particularmente. São verdadeiros criminosos que andam à solta.

Nunca pensou emigrar? Sou de uma geração em que os emigrantes eram as pessoas que necessitavam muito de sair. Hoje, não tenho idade para emigrar. Como tudo isto me tem incomodado tanto, tenho estado a reflectir se não me devo calar de uma vez por todas... Isto é um enjoo.

Isso é baixar as armas. É muito inesperado vindo de si. Mas é um direito meu. Tenho perorado muito. Se quisesse ter feito política de resultados, fazia-o quando saí do PS, candidatando-me a Presidente da República.

Ponderou? Nenhum partido me apoiaria.

Poderia fazê-lo como independente... Para ficar com 12%? Criar um partido não vale a pena, meter-me num partido não me querem. Andar a pregar no deserto é o que tenho andado a fazer...

Aceitaria um lugar no Governo? Se o convidassem para ministro das Finanças ou da Economia, aceitava? Não, não aceitava. Aquilo é tudo uma penúria. Nos Governos, só se pode entrar se se acreditar. Tem de ser um Governo conversado.

Já entrou em dois Executivos. Naquela altura acreditou? Naquele tempo acreditava-se. Como se verificou, foi uma ilusão muito profunda. O que me entristece é ter-se transformado o 25 de Abril nesta piolheira política.

Apesar de ter acreditado, só lá esteve 20 meses... É que, a mim, não me aturam muito tempo. Saí por vontade própria. Pedi várias vezes ao Mário Soares para me mandar embora. Percebi que não vale a pena estar nos Executivos quando há diferenças muito radicais de pontos de vista. Naquela altura, o meu tipo de exigência já não era bem visto pelo Governo.

Em que divergiu de Mário Soares? Era preciso criar uma disciplina financeira que não era popular e também não era fácil, porque a sociedade tinha perdido a cabeça. Pôr ordem nos dinheiros era muito difícil. Havia aí uma dissonância de pontos de vista. Talvez eles tivessem razão. Sempre entendi que um governante deve ser sério e responsável perante a sociedade e deve fazer aquilo que corresponde ao seu papel. Quando não é assim, não vale a pena.

Foram as duas passagens pelo Governo que o tornaram no homem zangado e pessimista que é hoje? Não. Tenho este ar de zangado, mas sou bom rapaz...

No seu livro, defende a criação de um Governo de iniciativa presidencial, composto por gente de fora da política, para que os partidos limpem o "lixo" que têm por lá. Há quem diga que essa ideia é perigosa. O que saiu das eleições de 27 de Setembro não permite fazer um Governo capaz. A situação financeira é muito complexa, o desemprego é enorme e o endividamento é extremo. Perante este cenário, qualquer pessoa com juízo não está para ser ministro. É de presumir que se escolha gente que ainda não viu em que situação o país está. Por delegação feita pelo PS e pelo PSD, o Presidente deveria ter autonomia para procurar qualidade e seriedade. Isso poderia elevar o nível de exigência e de aceitação. Daria um suporte institucional e de independência que poderia atrair gente boa e séria.

A ideia que se tira do seu último livro é diferente, mais dramática... Eu defendo o presidencialismo, mesmo que seja por 15 ou 20 anos. Os partidos precisavam de sossego para se arrumarem e arranjarem gente menos ambiciosa, menos amante do dinheiro alheio. Atribuía ao Presidente uma função executiva. Seria uma forma de dar seriedade à política e de afastar os Governos dos interesses dos dinheiros.

Implicava, naturalmente, uma alteração constitucional... Claro. Por isso digo algures no livro que, como não há tempo para fazer isso, também não vale a pena perder tempo.

Deixou a política em 1978, mas foi em 2000 que saiu com estrondo do PS. O que é que aconteceu entre si e Pina Moura? Não tinha compromissos com Pina Moura. Tinha com Guterres. Fui solicitado por Guterres e por Sousa Franco para dirigir a execução da reforma do património. Uma parte está em vigor e a outra não. Não convém às pessoas do dinheiro. Guterres assumiu o compromisso, cheguei até a dizer aos dois que podia sair. Disseram que não. Bem, mas as pessoas só me enganam uma vez...

Foi uma traição? Não lhe chamarei isso. Mas ambos me enganaram. E pessoas que me enganam, só o fazem uma vez. Achei que não era gente séria para estar no partido e mandei-os à fava.

Disse que o último Governo do PS deixou tudo por fazer. Não teve mérito nenhum? Parece-me que, em matéria energética, fez um certo progresso. Fez alguma desburocratização. Na Saúde, Correia de Campos quis empreender algumas reformas. O problema é que o Governo saiu em maioria e não fez o essencial. Foi nesse sentido que o critiquei violentamente.

O que era essencial para si? Em Portugal, nos últimos 40 anos, deixou de se produzir pesca, agricultura, minas e indústria. Hoje, os serviços representam 70%. Se não mudarmos a estrutura produtiva, reforçando o sector primário e o industrial, não conseguimos vencer estas dificuldades económicas. E por isso iremos ter problemas financeiros graves. O caminho que sugiro é averiguar porque é que não se investe em Portugal.

Ainda não se fez esse estudo? Não. Portugal é o país dos achadores. Toda a gente acha. Liga-se a televisão e ouve-se toda a gente a achar. Depois também critico essas obras.

É contra a construção do TGV, do aeroporto e das auto-estradas. Para já, sim. Essas obras serão feitas com dinheiro que temos de ir buscar fora. Não é um erro. É um crime. Iremos hipotecar várias gerações.

Defende uma baixa de impostos? Não. Devemos corrigir várias coisas e estudar o que se passa. A sociedade também tem de ser responsabilizada com elementos objectivos e indesmentíveis. Em democracia, a sociedade pode igualmente escolher ser pobre. Uma coisa eu sei: Governo maioritário nunca mais. Temos de refrear o poder de compra. O Estado deve congelar salários acima de determinado valor e criar instrumentos de poupança. Mas também é preciso mudar a estrutura produtiva.

Isso faz-se com investimento público ou privado? Privado. O Estado não sabe fazer coisa nenhuma para vender. Agora estão aí uns keynesianos, mas no tempo do Keynes havia alfândega, havia moeda, controlo dos capitais... Estão fora de época.

Os portugueses vivem um sonho dourado? Que vai acabar. É preciso poupar, e como medida exemplar deviam ser congelados rendimentos razoáveis.

Neste seu livro, com o diagnóstico que faz da economia, conclui-se que não podemos ter as prestações sociais que temos. Podemos chegar a um ponto em que não há dinheiro para mantê-las. Em 2008, os salários públicos mais as prestações sociais chegaram a 78%, sem os juros. Não é possível levar isto mais longe.

A única solução é o fim do Estado social? Não. Se eu fosse chefe do Governo, criaria o Ministério do Estado Social, para ter uma visão global. Não temos dinheiro para sermos benfeitores à custa do dinheiro alheio. Isto vai acabar entre 2015 e 2020. Desde 2000 que a economia estagnou. As despesas sociais cresceram três vezes mais do que a economia. Se não invertermos esta tendência, isto acaba mal.

Como é que se podem estabilizar as despesas sociais? Decretando o fim da educação gratuita? É por isso que devemos ter um ministro do Estado Social. É preciso haver uma meditação política. Para mim não se coloca a questão da gratuitidade da educação, deve haver é exigência e rigor. Mas temos de saber quais são os limites que podemos gastar.

É contra a escola inclusiva. Quer explicar? A escola inclusiva é uma vigarice. Põem lá a tropa toda. Como todos somos diferentes, há uns que querem estudar e outros não. Há uns que são capazes e outros não. Quem não aprende não faz sentido lá estar.

Era preferível que Portugal tivesse a mesma percentagem de analfabetos que tinha durante o Estado Novo? A falha do Salazar não foi na qualidade, foi na quantidade. Agora a falha é na qualidade. Deve tentar-se o máximo de quantidade preservando a qualidade. Gostaria de ser ministro da Educação para fazer vingar a ideia de que, sem exigência, não damos a volta à Educação. Não é mantê-los lá fechados a dar coices que se nivelam. Só se nivelam exigindo o máximo. Mas há um ponto em que há uma estratificação. Isto de todos serem iguais é uma trafulhice.

Em matéria de disciplina na escola, o que é que faria? Nem que tivesse de pôr um polícia em cada sala de aulas, teria de haver respeito pelos professores. Os que não querem fazer nada que saiam.

Quando a sociedade portuguesa tomar consciência de que tudo isto é uma burla, como diz, teremos uma nova revolução? As revoluções do século passado foram próprias daquele mundo e da economia da época. Com a democracia de 76 não vamos resolver os problemas do país.

Diz de si próprio que tem características muito pouco comuns, como a pontualidade, a disciplina e o rigor... De onde lhe vêm esses genes? É genético, de educação. O meu pai era muito rigoroso. Fui educado duma forma em que as mentiras, pedir coisas aos outros, discutir dinheiro eram coisas horríveis. Não discuto dinheiro. Nos Pupilos do Exército também tive uma educação muito rigorosa.

Em que é que isso o moldou? Reforçou aquilo que eu já era.

Ir para os Pupilos foi uma escolha do seu pai? Não. A partir dos 7 ou 8 anos, o meu pai educou-me a traçar o meu próprio caminho.

Então foi uma escolha sua? Sim. Vivíamos na Guiné, e os meus pais vieram comigo para escolher entre o Colégio Infante de Sagres, o Colégio Militar e os Pupilos. Percebi que os dois primeiros eram de gente bem situada e os Pupilos era para filhos de sargentos e civis. Fez-me sempre muita confusão as descriminações. Preferi aos 11 anos os Pupilos.

Ia à Guiné com frequência? Só lá voltei aos 20 anos. Os meus pais vinham em férias.

Não tinha saudades de África e da família? Aquilo era uma educação muito especial. Aos 11 anos aprendi a manejar armas, às seis da manhã tomava banho de água fria... Fazia muito desportos. Futebol no Inverno, remo na Primavera, atletismo no Verão... E era um bom estudante. Tudo isto fez de mim um bicho muito diferente. Não tive a minha mãe ao meu lado a ver a temperatura da água, a escolher um sabonete que fizesse bem à pele... Tomava banho com sabão azul e, em vez de perfume, esfregava-me com álcool. Ainda hoje faço isso.

E ainda se levanta às seis da manhã e ainda pratica desporto? Foram dois hábitos que perdi. Já não tenho paciência para me levantar cedo nem ando aos saltos de madrugada.

O que faz nos seus tempos livres? Leio, estudo, trabalho números...

Lê o quê? Biografias de políticos. A última que li foi do marquês de Pombal. Agora estou a ler um livro do Vasco Pulido Valente.

Em casa, faz contas às suas próprias despesas? Se é um gasto diário vou até aos cêntimos, se é mensal multiplico por 12, se vou jantar fora estou-me nas tintas, é aquilo que me apetece. Mas tenho o controlo rigoroso do meu dinheiro.

Onde é que gasta o seu dinheiro? Qual é o seu luxo? Livros.

E as férias? Um homem que vive sozinho não pode ter férias. Não me estou a ver a pôr um chapéu de palha e ir para a Caparica...

Cultiva a frugalidade? Não sinto necessidade de esbanjar dinheiro. Gasto muito pouca coisa de uso corrente, sapatos tenho de 30 anos. Fui à União Soviética em 1971 e tinha um par de sapatos que já eram usados cá e ainda lá estão em casa.

É uma questão de educação? Os seus pais também eram assim? Sim, eram todos assim. Os meus pais, os meus tios, e a minha primeira mulher também. Quando casámos, tínhamos muito pouco dinheiro, e o primeiro acto mensal era dividir tudo por envelopes - renda da casa, electricidade, alimentação, cinco escudos aqui, cinco escudos ali... Nunca gostei de pedir nada a ninguém, e por isso quero sempre gastar não mais do que tenho para nunca ter de pedir.

E onde aplica o seu pé-de-meia? Qual pé-de-meia? Eu ganho pouco... Um advogado que fala como eu não tem clientes. Não estou a brincar! Esses grandes gestores, esses grandes empresários não querem nada comigo.

Perdeu algumas vantagens que teria se não falasse dessa forma? Ah, isso com certeza! Se eu quisesse falar como o resto da malta tinha aqui o escritório cheio, de auto-estradas, de aeroporto, como os outros têm.

Subiu a pulso na vida? Teve de lutar muito para chegar onde chegou? Sim, saiu-me do pelo. Não foi tanto por razões de necessidade dos meus pais, tive de fazer este percurso porque quis fazê-lo. Foi assim que conduzi a minha vida. Juntando o que estudei - porque era um estudante a sério - e o que trabalhei - porque trabalhava a sério -, não haverá muitas pessoas da minha idade que tivessem trabalhado mais do que eu. Eu casei-me num sábado, e a minha mulher casou-se com a condição de que suportaria as chatices dos estudos, que não sabia onde iam acabar, e na quarta-feira da semana seguinte já me levantava às três da manhã para estudar.

Ela nunca se zangou consigo? Não, tínhamos esse compromisso discutido e assumido.

E não teve lua-de-mel? Saímos no sábado de Leiria, onde casámos, com o carro emprestado do meu sogro, demos uma volta até Aveiro e regressámos na segunda-feira para o Barreiro, onde vivemos três anos.

E essa sua escolha por estudar tanto era pela ânsia pessoal de aprender ou por ambição de carreira? Não o fazia por querer ter dinheiro, ser importante. Era ânsia de saber, porque sempre desde muito rapaz tive a convicção de que na sociedade ou sabemos alguma coisa ou não valemos nada.

Quando era miúdo, o que gostava de fazer? Lia muito, mas sobretudo trabalhava muito a matemática aos 14, 15, 16 anos.

Devia ser daqueles alunos sempre com a resposta na ponta da língua, não? Sim, sabia as lições. Não era insolente, mas já era frontal.

E isso nunca lhe causou problemas nos Pupilos? Eu era comandante de batalhão - que era em geral o melhor aluno do ano anterior - e tinha de mandar nos 400. No ano anterior era uma rebaldaria, chegavam todos tarde à formação. No dia em que tomei posse disse que iam acabar os atrasos.

E pô-los a todos na ordem? Sim, os 400!

E o que é que recorda da sua infância na Guiné? Tenho uma memória fotográfica dos sítios onde vivi, das escolas em que andei, dos meus colegas, uns brancos, outros pretos, outros amarelos... A única coisa que havia ali de comum era o retrato de Salazar, que estava à nossa frente, por cima do professor. De resto, era mandar pedradas às árvores, apanhar cajus...

Tem saudades de África? A minha terra, pelo que oiço dizer, não é vivível - mata-se o Presidente à catanada -, mas se África fosse um sítio vivível e se não tivesse a minha filha talvez acabasse a minha vida em Cabo Verde.

Os seus pais eram de lá. Sim, o meu pai nasceu na ilha do Fogo, a minha mãe na ilha Brava, e só depois de casados é que foram para a Guiné. Aquilo é gente educada, é gente que estuda, é uma terra encantadora com um clima excelente, com mar por todos os lados, há sempre uma musiquinha a tocar.

Só tem uma filha e não tem netos. Tem pena? Tenho. Era a minha saída para me livrar desta cegada. Estava aí deitado no chão a rebolar com eles o dia todo e entretinha-me assim, em vez de me preocupar com o futuro do país...

Não se entretém com os netos dos seus amigos? Não é fácil, porque nós hoje vivemos num mundo muito estranho. Um dia destes fui comprar o jornal e estava uma pequena de 8 anos ao meu lado. Fiz-lhe uma festa na cabeça e perguntei-lhe como se chamava. Respondeu que tinha ordem dos pais para não falar a estranhos. Agora fujo dos miúdos, senão qualquer dia o Rui Teixeira põe-me na choça...

Casou muito novo, aos 23 anos. É um homem romântico? (risos) Casei duas vezes, a primeira aos 23 anos, e estive duas vezes em união de facto. Romântico, bom... essa é uma pergunta difícil... Sou uma pessoa que choro com muita facilidade.

A sério? Então, no fundo, é um doce. Ora isso mesmo, muito doce! (risos) As pessoas que me conhecem sabem bem isso. Eu engano muito. Tenho este trombone assim chato, mas no fundo sou um tipo muito doce, muito afectivo, muito terno... Choro menos que Jorge Sampaio, mas choro com mais facilidade do que gostaria...

Era um homem namoradeiro na juventude? Tive uma juventude complicada, estava casado aos 23 anos, não tive tempo para isso... Fui mais namoradeiro em homem maduro. (risos) Gosto bastante de mulheres, porque penso que são mais ponderadas, mais realistas, em regra mais fiéis e sérias do que os homens. Gosto muito de trabalhar com mulheres. Aceito com muito mais facilidade e convicção de que é certo se ouvir uma opinião de uma mulher.

Jogou futebol quando era novo. Ainda hoje gosta? Fui sócio do Benfica, era o sócio 15.148. Ia aos jogos, mas saí de sócio porque me indignei com o facto de serem todos muito malcriados, insultarem o árbitro, mandarem cascas de fruta. Eu acho que devemos dizer o que temos a dizer clarinho na cara, sou contra os insultos no anonimato.

Mas acompanha o clube? O que pensa do novo treinador, Jorge Jesus? Se é verdade o que vocês jornalistas andam a dizer, parece que ele é um homem que põe aquela tropa a trabalhar. E eu aprecio sempre quem põe o pessoal a trabalhar.

E ainda sofre pelo Benfica? Não. No tempo em que eu andava por lá, o Benfica era o clube principal de Portugal. Hoje é uma coisa assim secundária, como o Vitória de Setúbal ou assim. Já não há ambições, temos de nos restringir nos nossos horizontes. E o futebol caiu numa cegada parecida com a política... Não tenho paciência.

Qual é o seu jogador preferido? O Messi, porque é um grande jogador e um tipo modesto. Não gosto do Cristiano Ronaldo, porque é um grande jogador e um tipo insuportável. Mesmo um sábio, um compositor, um génio tem de ser modesto. A imodéstia é um sintoma de estupidez.

Gosta pouco de pessoas de espectáculo, com muito de marketing. Detesto-os. Detesto fantochadas. Aliás, não os vejo. Quando aparece o Sócrates na televisão, eu mudo de canal. Para espectáculo, vou ao circo.

Não acredita em Deus. Não sente necessidade de acreditar em alguma coisa?Eu gostaria de acreditar, ser crente é uma boa defesa, mas acreditar não é uma decisão. Ainda fui baptizado, mas estes actos solenes da vida das pessoas comigo foram sempre estranhos. Fui baptizado aos 10 anos por um padre que estava com uma grande bebedeira, fui registado numa data errada - a 14 de Janeiro, quando tinha nascido a 14 de Dezembro -, casei na igreja de "O Crime do Padre Amaro"... (risos) Até hoje, nunca senti nenhum apelo.

É um homem de factos e não de crenças?Sou um homem de valores e choco-me todos os dias com o que vejo. Vemos na nossa sociedade coisas que não esperamos. Custa-me ver que a classe política não quer julgar os crimes da corrupção, porque não lhes convém, é uma defesa corporativa. Não nos podemos fiar num certo tipo de pimpões que andam por aí...

Mas essa característica faz parte da natureza humana, e a situação que descreve não acontece só em Portugal...Sim, faz e fará sempre. Mas nas percentagens que existem hoje em Portugal é uma coisa inédita. A ladroagem em Portugal atinge hoje uma dimensão que não tinha há 20 anos.

Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Outubro de 2009